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Aldeias do Xisto: reabilitação deu a volta ao deserto

Talasnal, no concelho da Lousã, estava desabitada e em ruínas e foi recuperada pela rede Aldeias do Xisto

José Caria

Estiveram desertas, mas renasceram para o turismo como Aldeias do Xisto. A rede já recuperou mais de 500 imóveis rurais

Um caso de sucesso em aldeias reabilitadas para turismo é a rede Aldeias do Xisto, que hoje integra 27 aldeias em 16 concelhos da chamada zona do Pinhal Interior, no centro do país, designadamente nas regiões da serra da Lousã, serra do Açor, Zêzere e Tejo-Ocreza, estendendo-se por um território que vai de Castelo Branco a Coimbra.

Recuperadas com recurso a fundos comunitários, estas aldeias estavam em alguns casos desertas, como Casal de São Simão, em Figueiró dos Vinhos, Talasnal, ou Cerdeira, no concelho da Lousã. A intervenção começou em 2001, e numa primeira fase o trabalho foi literalmente ‘partir pedra’ e tirar as aldeias da ruína, tendo-se recuperado mais de 500 imóveis rurais no espaço de oito anos.

“A rede Aldeias do Xisto está a entrar no terceiro ciclo de apoios comunitários e, numa primeira fase, estava tudo por fazer. Era reconhecido o potencial destas aldeias para o desenvolvimento de uma marca turística, mas era preciso fazer uma intervenção profunda ao nível de fachadas, coberturas ou caminhos, envolvendo património público ou privado”, conta Rui Simão, coordenador da AdxTur, agência público-privada que gere as Aldeias do Xisto.

O salto dos privados

Num primeiro ciclo de apoios comunitários, entre 2001 e 2009, foram investidos nas Aldeias do Xisto €15 milhões, dos quais 80% de natureza pública, e com a tónica na “recuperação física das aldeias”. O trabalho envolveu desde a recuperação de igrejas à construção dos caminhos em xisto que hoje existem nas aldeias, além da “estruturação de redes para o turismo ativo e a intervenção nas praias fluviais” — sendo nesta altura o investimento liderado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro.

Mas numa segunda fase, de 2009 a 2015, o foco já era “construir uma perceção de valor associada à marca, mobilizando a iniciativa privada e trazendo bens e serviços para o seu quadro”. Segundo Rui Simão, neste período o investimento nas Aldeias do Xisto passou para €31 milhões e o panorama inverteu-se, passando a componente privada a assumir um peso de 75%.

“Foi uma fase muito focada no desenvolvimento da marca e na criação de escala. Passámos de 80 parceiros para mais de 200, com um crescimento muito consistente de empresas a trabalhar debaixo do chapéu da marca, sobretudo restaurantes, mas também empresas de animação turística”, conta o coordenador da AdxTur, adiantando que, em matéria de alojamento, “passámos de uma centena para mais de 600 quartos, o que neste território foi muito considerável”.

Nesta fase também se começaram a dar passos para a internacionalização das Aldeias do Xisto. “Optámos por abordar os mercados externos a partir de conteúdos para comunicar os valores regionais e uma oferta mais identitária. Avançámos com um trabalho em artes e ofícios e de imersão nas aldeias, que nos levou a participar em várias feiras internacionais”, refere o responsável.

Chegar às 50 mil dormidas

Na atualidade, o desafio das Aldeias do Xisto está centrado no “desempenho económico e na venda cruzada através de meios digitais”. Segundo Rui Simão, “estamos a organizar toda a nossa oferta para lançar uma plataforma de venda integrada de alojamento, a Bookinxisto, em cinco línguas: espanhol, francês, inglês e alemão, além do português”.

A rede de aldeias conta hoje com mais de mil camas, “e os nossos parceiros têm em média uma taxa de ocupação de 40% ao ano, o que no turismo rural é muito significativo”, frisa o responsável da AdxTur.

O negócio turístico nas Aldeias do Xisto gera receitas anuais de cerca de €2,5 milhões. Com o crescimento dos últimos anos, a previsão para 2017 aponta para mais de 50 mil dormidas, estando ainda por quantificar o efeito do cancelamento de reservas na sequência dos incêndios em Pedrógão e Figueiró dos Vinhos. Mas ocupando um extenso território no interior do país, a maioria das aldeias da rede não foi sequer atingida por estes incidentes.

Olhar para a frente continua a ser a meta das Aldeias do Xisto. “Num território rural, encontrar um caminho de crescimento turístico em terra menos pisada, e com uma oferta desligada do sol e praia, é muito motivador”, faz notar o coordenador da rede de aldeias recuperadas, frisando que, “mais do que o lado económico, este projeto tem gerado uma autoestima e uma identificação, que é muito relevante para estas populações”.