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Novo Banco alicia à compra de obrigações com juros altos

O presidente do Novo Banco, António Ramalho, aguarda otimista veredicto dos obrigacionistas

José Carlos Carvalho

Para convencer os obrigacionistas a vender, a moeda de troca são juros que vão de 3 
a 6,5% em depósitos a prazo imobilizados entre três 
a cinco anos

É o tudo ou nada para que a venda do Novo Banco (NB) à Lone Star chegue a bom porto. A proposta comercial do banco liderado por António Ramalho já chegou aos detentores de dívida de 36 séries de obrigações, com um valor global de €8,3 mil milhões e cujas maturidades vão de 2019 a 2052. Porém, para alcançar o objetivo negociado, o NB terá de comprar não aquele montante mas cerca de €3 mil milhões, e preferencialmente a quem tenha maturidades mais curtas. Não vai haver troca, como tinha sido anunciado, mas sim recompra de parte destas obrigações abaixo do valor nominal, com perdas entre os 11% e 30% (maturidades mais curtas) e 90% (para maturidades mais longas).

António Ramalho avançou com trunfo forte para que a oferta comercial tenha sucesso: quem vender, e já se sabe que com perdas face ao valor nominal, poderá fazer um depósito no banco que estará imobilizado durante um determinado período (entre três a cinco anos) e beneficiar de juros elevados. O que permitirá aos detentores com maturidades até 2022, por exemplo, a recuperação do capital investido. Nestes casos, os juros pagos a quem fizer um depósito a prazo com o dinheiro que recebeu das obrigações deverão oscilar entre os 3% e os 6,5%. Números já noticiados pelos jornais “Público” e “Jornal de Negócios” esta semana. Já quanto aos obrigacionistas que têm maturidades mais longas, a taxa de juro é bem mais curta: poderá rondar 1%.

Tendo em conta o cenário que hoje existe nos juros para os depósitos a prazo nos maiores bancos, incluindo o NB, é alguma coisa. As taxas de remuneração nos depósitos estão, na sua esmagadora maioria, abaixo deste patamar, longe dos 3% e ainda mais distante dos 6,5%.

Soluções do mesmo tipo já foram acolhidas no passado para outros detentores de dívida do NB aplicados em veículos criados pelo ex-BES e está a ser trabalhada uma solução para os emigrantes no mesmo sentido.

Desta vez, nesta proposta decisiva para a venda, o argumento é minorar as perdas necessárias para que se possa criar uma almofada de capital no banco, que ascenderá a €500 milhões, um montante que o NB ficou obrigado a conseguir quando foi assinado o acordo com a Lone Star a 31 de março — e que contou com a chancela das autoridades europeias, que já aprovaram o controlo da Lone Star no NB. Falta ainda a luz verde ao plano de negócios do fundo norte-americano para o banco e a sua viabilidade por parte da Concorrência Europeia (DG Comp).
36 assembleias a caminho

Nada está garantido, pois os obrigacionistas terão de, em Assembleia-Geral (AG), aprovar a recompra, e para isso serão precisas 36 reuniões, correspondentes a 36 séries de obrigações. A maioria destas obrigações está na mão de institucionais, mas os particulares podem viabilizar a operação, segundo afirmou fonte do sector. O veredicto final chega no dia 1 de outubro. A proposta comercial parece agradar a alguns obrigacionistas particulares que têm esta dívida nas suas mãos e cujas maturidades são mais curtas, apurou o Expresso. Isto porque, aceitando fazer o depósito a prazo, recuperam o capital investido. A pressão de que caso o NB não consiga ultrapassar esta condição indispensável e possa ter de ser liquidado terá algum peso.

E, mais uma vez, a frase batida “do mal o menos” aplica-se às inúmeras decisões e soluções que fazem parte da história do NB. A resolução foi tomada como um mal menor, tal como a transferência de um conjunto de obrigações seniores para o BES mau (quase €2 mil milhões), entre outros episódios que medeiam entre agosto de 2014 e agosto de 2017. A venda de 75% do Novo Banco à Lone Star (que conta com uma injeção de capital de €1000 milhões, €750 milhões dos quais quando o negócio se concretizar) e o facto de o Fundo de Resolução ter ficado com 25% da instituição, quando era suposto vender 100%, foram outros males menores. O banco tem mesmo de ser vendido.

Artigo publicado no Expresso de 12 de agosto.