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As mil e uma vidas de Patrick Drahi

luís barra

Em 15 anos, Patrick Drahi construiu um gigante de telecomunicações e media que atravessa oceanos. É o terceiro homem mais rico de França, fez-se do nada, cresceu sempre assente na dívida. Corta a direito, deixa os trabalhadores sob pressão. Paga bem aos líderes de topo, mas esmaga os salários de quem está por baixo. Gosta de antecipar tendências e acredita agora que o futuro passa pelos conteúdos. Se estiver certo ficará na história, se correr mal porá em causa um império com mais de 50 mil milhões de euros de dívida e o posto de trabalho de quase 50 mil trabalhadores. Tem passaporte português desde o final de 2016 e poderá ser o futuro dono da TVI

Quando, em 2014, se lançou sobre a Portugal Telecom (PT), ainda em estado de choque com o impacto desastroso do colapso do BES, o franco-israelita Patrick Drahi era um ilustre desconhecido. Foi olhado com desconfiança, mas também curiosidade. A PT era a joia da coroa e a Altice, apesar de ser dona da Cabovisão, não passava de fundo de investimento, com fama de usar métodos agressivos com os trabalhadores e de espremer os fornecedores. Hoje, Patrick Drahi é capa de revista, tem nacionalidade portuguesa e começa a tornar-se um nome incontornável: O grupo que lidera e do qual é acionista maioritário não só controla 100% do antigo operador histórico, um caso único na Europa, como está prestes a concretizar a compra de uma televisão em sinal aberto, a TVI, líder de audiência.

Em França, porém, já se tinha ouvir falar dele, e de que maneira. Patrick Drahi é conhecido não só como um ousado homem de negócios, uma etiqueta que se lhe agarrou sobretudo quando em 2014 comprou à Vivendi um dos grandes operadores franceses, a SFR, como também como o terceiro homem mais rico de França, e o patrão melhor remunerado. Não é coisa de menos. Nascido em Casablanca, e filho de dois matemáticos emigrantes marroquinos, não herdara uma fortuna que multiplicara, fizera-se a si mesmo, graças a investimentos e opções que se têm revelado, para já, acertadas. Uma década bastou-lhe para construir um império, a Altice — um fundo de capital de risco criado em 2011 e que se está a transformar num grupo de telecomunicações, com um pé crescente nos media e uma lança nos EUA, onde acabou de se estrear, com sucesso, na emblemática Wall Street. Os últimos três anos foram cruciais, a Altice afirmou-se como o novo gigante francês e um consolidador de cabo norte-americano. Foi uma ascensão meteórica. Patrick Drahi deu todos os passos da cadeia do negócio – engenheiro, técnico, comercial e agora um patrão empenhado em construir um poderoso grupo familiar. É, na prática, um gestor europeu com uma história com cheirinho a american dream.

É-lhe apontada uma audácia desarmante, uma enorme capacidade para decidir rápido e uma ambição que vem de longe. “Queria ser milionário quando era jovem. Fiquei fixado na classificação da ‘Forbes’. Olhei para o top 100 das maiores fortunas norte-americanas e reparei que 10 vinham dos negócios de cabo. Decidi lançar-me. Não inventei nada, disse apenas a mim próprio que tinha hipótese de lá chegar”, contou Drahi, num artigo citado pelo jornal francês “Les Echos Weekend”. Saiu-se bem. Hoje é dono de cerca de 60% da Altice, uma multinacional que detém 20 operações em áreas que vão desde o cabo às telecomunicações móveis, passando pelos media, com negócios espalhados por França, Portugal, Bélgica, Israel, EUA e República Dominicana. Começou a apostar no cabo quando a moda no sector era o móvel, e em 1994 lança a Sud Câble Services, o seu primeiro grande projeto. Foi visionário, pouco mais de uma década depois, com a crescente importância da televisão paga, a rede fixa volta a dar cartas. Em 2000, aproveitando a euforia em torno da internet, vende a sua participação ao parceiro UPC e encaixa 150 milhões de francos. Um ano depois avança com a Altice. Fê-lo em parceria com Armando Pereira, um emigrante português que fez fortuna a abrir valas para infraestruturas de telecomunicações, e é o operacional do negócio, o homem que vai à frente para reorganizar a empresa quando a Altice faz uma nova compra.

Um milionário discreto

Tornou-se rico, muito rico. Com 53 anos, já ultrapassou inclusive em riqueza o seu mentor e fonte de inspiração, John Malone, o norte-americano que nos anos 60 e 70 apostou forte na televisão por cabo, criando um grupo que vendeu em 1999 à AT&T, por 50 mil milhões de dólares, e que surpreendeu recentemente, em 2015, com a compra da Time Warner. A fortuna de Patrick Drahi ascende a 14,7 mil milhões de dólares, o 92º lugar na tabela da “Forbes”. A de Malone são uns mais modestos 9,3 mil milhões de dólares. Tem um jato particular para se deslocar entre a Europa, os EUA e Israel, e visitar as subsidiárias. Faz questão de as visitar todos os meses. Não lhe são conhecidas grandes extravagâncias. Prefere não dar nas vistas. Tem, no entanto, um barco sumptuoso, uma mansão em Israel e outra na Suíça, em Genebra — para onde se mudou aos 35 anos e onde vive com a sua mulher de sempre e quatro filhos. É um homem decidido e de certezas. Consta que uma hora depois de conhecer a mulher, uma síria, de religião católica ortodoxa, a pediu em casamento. Foi amor à primeira vista. A opção pela Suíça faz porém com que alguns dos seus críticos lhe chamem um “exilado fiscal”.

Israel, cuja nacionalidade também adquiriu, é apontada como um lugar de eleição. “Foi o primeiro sítio em que me senti em casa”, costuma dizer. Faz questão de promover o país com doações, canaliza milhões de euros para o centro de pesquisa da Universidade de Jerusalém. O saber interessa-lhe, e gosta de o estimular. Estudou engenharia na École Polytecnique, a prestigiada universidade de Paris. O novo dono da PT é um produto da elite republicana. Não é um outsider. “É um homem sensível ao sucesso escolar e ao desempenho. É um jogador com apetite pelo poder, e que gosta de dominar pela sua superioridade mental e rapidez de pensamento”, diz dele o presidente da Orange e seu concorrente, Stéphane Richard.

Ambição. Patrick Drahi sempre sonhou ser um dos homens mais ricos do mundo. Ocupa atualmente o 92º lugar na tabela da “Forbes”

Ambição. Patrick Drahi sempre sonhou ser um dos homens mais ricos do mundo. Ocupa atualmente o 92º lugar na tabela da “Forbes”

foto Sebastien LEBAN/REA/4SEE

Quando, aos 15 anos, os seus pais decidiram emigrar para França e se instalaram em Montepellier, aprendeu a ser discreto. Confessou já que “o seu tom de pele bronzeado, associado ao facto ser o melhor aluno da turma”, não lhe granjeava grande popularidade entre os colegas, o que o levou a prometer a si mesmo resguardar-se. Não é um homem que goste de dar entrevistas ou expor-se, embora se perceba que não é por uma questão de timidez, mas de defesa e autopreservação. Na mais recente compra que fez em Portugal, a Media Capital, entrou mudo e saiu calado, de uma conferência de imprensa onde falaram apenas os gestores: Michel Combes, presidente executivo da Altice, Alan Weill, presidente da Altice Media e Paulo Neves, presidente do conselho de administração da PT.

Drahi e Armando Pereira fugiram às perguntas dos jornalistas, evitando-os. Um silêncio a que não será alheio também o facto de a operação da Altice em Portugal estar debaixo de fogo, por causa das medidas draconianas que têm aplicado aos trabalhadores da PT. Os protestos subiram de tom nas últimas semanas, perante o receio de uma onda de despedimento, que temem estar a iniciar-se, e que levou a uma greve histórica a 21 de julho — a última paralisação tinha sido há 11 anos. Os ventos estão agitados em Picoas, na sede da PT. O Bloco de Esquerda tem chamado à Altice um “fundo abutre”. O PCP fala em “despedimento encapotado” a propósito da transferência de trabalhadores para subsidiárias da Altice, e quer que o Governo impeça a compra da TVI, pedindo mesmo que seja equacionada a possibilidade de a PT voltar a ter controlo estatal. Por causa dos recentes incêndios e das falhas do SIRESP, a Altice já irritou o primeiro-ministro. “Receio bastante que a forma irresponsável como foi feita aquela privatização [pelo anterior Governo PSD/CDS-PP] possa dar origem a um novo caso Cimpor, com um desmembramento que ponha não só em causa os postos de trabalho como o futuro da empresa”, declarou António Costa, a 12 de julho, no rescaldo dos incêndios de Pedrógão.

Antecipar tendências

Será Drahi um visionário? É possível, mas só o tempo o dirá, a verdade é que seguindo as pegadas de Malone — o seu ídolo confessado — está a tentar liderar aquilo que crê ser a nova tendência do mercado de telecomunicações: a fusão vertical entre os operadores de telecomunicações e os media. Foi, aliás, isso que o fez avançar em força sobre a Media Capital.

Inspirado pelos EUA, Drahi acredita que o poder está nos conteúdos, e começou a navegar nessas águas. Uma decisão em contracorrente, já que nenhum dos grandes operadores europeus avançou ainda nesse sentido. É também uma tentativa de travar o poder dos agregadores de conteúdos, como a Google, cuja força tem feito ajoelhar os operadores. É, assegura, essa convicção e crença que levou, no dia 13 de julho, a Altice a anunciar a compra da dona da TVI aos espanhóis da Prisa. Não é a primeira vez que as empresas de telecomunicações se atiram aos media, fizeram-no no início do século. Em 2000, a PT comprou a Lusomundo (“DN”/“JN”/TSF), seguindo a tendência europeia. O que estava a dar era os operadores comprarem empresas de media. Revelou-se uma má ideia e a PT acabou por vender e sair. As telecomunicações meteram os media na gaveta — o negócio era complexo, com margens pequenas e tendência para se deteriorar — agora a Altice quer desenterrá-los. Não vai ser fácil. Já teve um contratempo, tentou comprar a gigante norte-americana Time Warner, mas foi derrotada.

Será que desta vez a estratégia está certa? Os concorrentes em Portugal, nomeadamente a NOS, torcem o nariz. Miguel Almeida considera um movimento irracional, já o disse frontalmente, mas o presidente da NOS sabe que não pode ficar à margem. Já está, aliás, a estudar uma resposta. O contra-ataque pode passar por uma aproximação à Impresa, dona da SIC e do Expresso. É cedo para dizer qual será o desfecho. Mas as peças do xadrez estão a mexer-se.

Drahi é um empreendedor nato, diz quem o conhece. O que mais o entusiasma é a estratégia e o futuro. Nas reuniões que costuma ter em Portugal, integradas no périplo que habitualmente faz pelas suas subsidiárias, gasta a maior parte do tempo a falar das tendências que aí vêm e gosta de desafiar os seus quadros de topo a olharem para a frente. É ele quem conduz as reuniões, e não gosta de ser contrariado. “É um homem inteligente, impõe-se pela capacidade de olhar para a frente, e quer saber como é que os quadros de topo acham que o negócio vai evoluir. Gosta de mostrar quem manda, é duro com as equipas de gestão, e pode ser agressivo com os trabalhadores”, diz quem já se cruzou com ele, mas pede anonimato. “Percebe de telecomunicações, e envolve-se em questões de detalhe, o que nem sempre é comum nos grandes acionistas, e que deixa a gestão mais limitada”, acrescenta.

É um homem que procura a eficácia e a impõe às equipas. Não pode perder tempo, até porque tem feito questão de acompanhar as operações da Altice espalhadas por três continentes.

Drahi é um homem pragmático. Está atento às oportunidades, e foi talvez isso que o levou a ressuscitar as suas origens judias sefarditas, com raiz no Algarve, e pedir a nacionalidade portuguesa. É português desde o final de 2016. Conseguiu-o ao abrigo da lei de março de 2015, que permite aos descendentes de judeus nascidos em Portugal, antes da ordem de expulsão em 1496, pedir nacionalidade lusa. Patrick Drahi, conta a “Visão”, provou ser descendente de três famílias oriundas de Portugal, os Adrehi (nome que terá evoluído para Drahi), os Sicsú e os Amouyal. Os seus antepassados, explica a revista, terão sido influentes membros da comunidade judaica, em Faro. Deu frutos. Em setembro de 2016, o patrão da PT veio a Lisboa entregar um cheque de 1,2 milhões de euros ao futuro Museu do Judaísmo, em Alfama, em nome da fundação que tem com a mulher, a Patrick e Lina Drahi.

Um império de €50 mil milhões de dívida

Tem fama de comprar caro. E a verdade é que acabou por ser uma surpresa os €440 milhões que se propõe pagar pela Media Capital. O mercado apontava para valores quase cem milhões de euros abaixo. Gastar dinheiro parece não ser um problema para Drahi. É estranho para quem é conhecido como “cost killer” pela forma como corta a direito nos custos e esmaga os salários. A justificação está talvez por isso no facto de a Altice ser construída em cima de uma montanha de dívida que não para de crescer. O valor consolidado da dívida ascendia a €50,7 mil milhões em 2016, mais cerca de €10 mil milhões do que em 2015, quando comprou a PT por €5,7 mil milhões à brasileira Oi. Um calcanhar de Aquiles sublinhado amiúde por analistas e concorrentes, que não se cansam de dizer que a Altice é uma bolha especulativa que mais ano, menos ano, rebenta. Não deixa de criar perplexidade o facto de que, menos de uma década depois de uma crise financeira e de dívida da banca que atirou ao charco grandes grupos económicos em todo o mundo, se volte a destacar um grupo que dá nas vistas pela catadupa de grandes aquisições, todas elas feitas a crédito, financiadas pela banca ou pelo mercado de capitais.

Já lhe chamaram, por isso, na imprensa francesa, bulímico. Os alarmes não soam?

Drahi defende-se. “Não sou bulímico de absolutamente nada. (...) Propõe-me aquisições todos os dias, de todas as partes do mundo. Quando compro uma empresa tenho um plano na minha cabeça para a melhorar. E se ao fim de seis meses vejo que estamos na trajetória que fixei, avanço para a próxima compra. Se não,espero. É tudo. É racional. Há 15 anos que isto dura, sem que eu tenha vendido uma empresa”, frisa, citado pelo “Les Ecos-Week-End”. Há alguns anos que a Altice não tem problemas em levantar dinheiro. Segundo a imprensa francesa entre os seus financiadores já estiveram a Lehman Brothers, a Morgan Stanley, o Crédit Lyonnais e até o fundo norte-americano Carlyle.

A máxima de comprar com dívida aplica-se à sua vida pessoal. Conta a imprensa francesa que comprou a sua primeira casa, aos 27 anos e acabado de ser pai, sem um tostão de entrada. Custou-lhe dois milhões de francos e foi totalmente financiada pela banca. Convenceu a Société Général que perdia um futuro grande empresário como cliente se não o fizesse.

O mercado de capitais foi uma opção recentemente nos EUA, a sua nova coqueluche. Em meados de junho, a filial da Altice nos Estados Unidos estreou-se na Bolsa de Nova Iorque, e com enorme sucesso. O grupo conseguiu levantar 1,8 mil milhões de euros, o que lhe dará uma almofada para se lançar sobre novos desafios. Os investidores acreditam num empreendedor que tem dado provas em matéria de reestruturação e corte de custos. Em poucos meses, a Altice conseguiu colocar a SFR, o segundo maior operador francês, no verde, à custa de uma forte redução de custos... A polémica foi grande, o Governo francês interveio, mas a coisa foi avançando.

O método é quase sempre o mesmo, usaram-no em Portugal, onde cortaram a direito, impondo assim que chegaram uma redução unilateral de cerca de 30% nos contratos com os fornecedores. À grande massa de trabalhadores cortaram parte dos extras, empurrando-os para o salário base, e foram avisando que não iam avançar com despedimentos coletivos, mas que a PT tinham o dobro dos trabalhadores de que precisava. O tratamento que dá aos fornecedores e aos trabalhadores dá-lhe má fama em Portugal. A popularidade também não é extraordinária em França. Após as compras da SFR, as críticas subiram de tom e têm havido cartões vermelhos das autoridades. Desde intervenções do Governo para travar despedimentos, até multas. A autoridade da concorrência francesa aplicou-lhe, a 9 de março, uma coima de 40 milhões de euros por desrespeito aos compromissos assumidos durante a compra da SFR, nomeadamente ao nível do desenvolvimento da fibra. E a Numericable — SFR tem estado a perder clientes e em grande dimensão. Em dois anos e meio abandonaram a operadora da Altice 1,5 milhões de clientes móveis. Nos EUA Drahi comprou dois operadores de cabo, a Suddenlink e a Cablevision (por 27 mil milhões de dólares) — um mercado caracterizado por monopólios regionais, muito rentáveis, mas confrontados com a degradação da rede, situação que levou à saída de 700 mil clientes no primeiro trimestre, revoltados contra os “preços exorbitantes” e um “serviço medíocre”. As participadas americanas da Altice têm conseguido resistir à sangria, e segundo a empresa houve um crescimento de 36 mil clientes (para 4,905 milhões) entre o segundo trimestre de 2016 e o período homólogo de 2017.

A levantar questões está também a estratégia de investimento massivo em fibra ótica, com a Altice a espalhar rede de alto débito em todo o território, um caminho que tem seguido tanto em Portugal como em França. Os concorrentes questionam o que dizem ser a falta de racionalidade económica do investimento (feito sem subsídios estatais). Em Portugal, os críticos dizem que o objetivo é dar lucro a subsidiárias da Altice que trabalham como fornecedores da PT, sobretudo as construtoras Tnord e Sudtel. O presidente da rival Orange, Stéfane Richard, diz que espalhar “rede de muito alto débito em toda a França, incluindo zonas rurais, não faz qualquer sentido”.

Patrick Drahi está a construir um megagrupo que integra telecomunicações e media

Patrick Drahi está a construir um megagrupo que integra telecomunicações e media

foto Denis Allard/REA/4SEE

A opacidade do grupo Altice também tem merecido reparos. Foi construído através de engenhosas técnicas de alavancagem financeira (leverage buy-out), com aquisições através de dívida. Mecanismo que lhe permitiu comprar diversas empresas, e constituir um grupo em cascata, retirando-lhe transparência. As suas sedes fiscais estão em regimes fiscais favoráveis (e opacos) como Luxemburgo ou Amesterdão.

Não gosta de pagar salários à grande massa de trabalhadores, mas paga principescamente aos seus homens de grande confiança. Estão entre eles Dexter Goei, ex-quadro da JP Morgan e da Morgan Stanley, e hoje administrador financeiro da Altice e um relevante conselheiro de Drahi, um verdadeiro braço-direito. Outro deles é Jérémi Bonnin, secretário geral e uma peça-chave na internacionalização do grupo. Arthur Dreyfuss, o jovem diretor de comunicação, também é um dos homens do leme. Nesse naipe está também Michel Combes, o presidente executivo da Altice, conhecido de Drahi há mais de duas décadas e recrutado a peso de ouro à Alcatel-Lucent, de onde saiu com um prémio milionário depois de despedir milhares de trabalhadores (limpando a empresa para esta ser vendida à Nokia). “O Zeinal Bava e os seus homens de confiança na gestão ganhavam uma sombra do que Drahi paga aos seus homens de topo. Ele costuma dizer que quem está ao seu lado, se for confiável, bom e tiver um compromisso longo, tornar-se-á um homem rico”, diz um antigo quadro de topo da PT.

Porquê Portugal?

A escolha de Portugal é uma resposta que verdadeiramente só Drahi e Armando Pereira poderão dar. Uma coisa é certa, a aposta é forte e em grande — compraram o operador histórico e avançam agora para a televisão líder de audiências. Vão investir globalmente €6,140 mil milhões. Um sinal de que os ativos portugueses não lhe são indiferentes. Embora, como têm sublinhado vozes críticas, €5,7 mil milhões tenham voado para o Brasil e €440 milhões para Espanha.

A primeira ligação a Portugal chega-lhe através do seu sócio português, que conhece há mais de 25 anos. Terá sido ele a dar o impulso inicial com a compra da Cabovisão. Depois foi uma questão de esperar pela oportunidade certa: ela chegou com a crise, a troika e a lenta agonia dos grandes acionistas da PT (muitos deles durante anos totalmente dependentes dos seus dividendos). Portugal é um país estável, e isso agrada à Altice, que também não se cansa de elogiar as virtudes dos portugueses, como a queda para falar línguas — é mão de obra abundante e barata para alimentar uma cadeia de call centers (centros de contacto telefónico) para o grupo, e onde a empresa tem estado a investir em Portugal. É uma espécie de investimento para países de Terceiro Mundo, que tem sido criticado.

Que mais virtudes terá um pequeno mercado de telecomunicações estagnado, como é o português? Drahi e a Altice sublinham a capacidade de inovação e a qualidade dos trabalhadores portugueses. E dizem que é para manter a aposta na PT Inovação (hoje Altice Labs), em Aveiro, uma empresa onde abundam quadros qualificados. A Altice Labs vai dedicar-se ao desenvolvimento de tecnologias de fibra ótica (GPON) e das redes móveis 5G, que deverão chegar aos consumidores em 2022, garantem. Outro investimento de primeira divisão, frisam, é a compra da Media Capital. A Altice assegura que quer que a produtora Plural tenha um papel de relevo na produção de entretenimento e ficção, e que irá usá-la para as plataformas de distribuição do grupo, e não só.

E para que interessará mais um negócio de margens difíceis como os media? A resposta pode estar apenas na importância dos conteúdos, mas não é de descartar o interesse do grupo na influência política. Drahi não faz parte do establishment, mas gosta de cultivar as suas relações políticas, diz a imprensa francesa. Em Portugal foi notícia a sua aproximação ao poder político quando comprou a PT, durante o governo de Passos Coelho. O então ministro da Economia, Pires de Lima, teceu-lhes elogios. É de notar que escolheu para o representar na compra da PT, Daniel Proença de Carvalho, conhecido por ser um dos centros de poder do lóbi em Portugal. Voltou a escolhê-lo agora na compra da TVI.

Armando Pereira jura que a Altice é um investidor industrial, e diz mesmo até que não percebe a hostilidade que António Costa lhe tem reservado. Pairam, no entanto, receios de que esteja em curso um desmembramento da PT, com a transferência de trabalhadores para empresas fora do grupo, onde as garantias de que tudo ficará na mesma em relação aos direitos adquiridos não duram mais que um ano. Por agora foram 155 trabalhadores, mas suspeita-se que mais transferências vêm a caminho. Uma coisa é certa, o nome da PT vai, em breve, desaparecer, pondo fim a uma marca histórica, e uma das bandeiras do país. E a PT irá assumir o seu papel de mera subsidiária.

Mon ami armando

Cumplicidade. Patrick Drahi e Armando Pereira são amigos há 25 anos

Cumplicidade. Patrick Drahi e Armando Pereira são amigos há 25 anos

rui duarte silva

É um operacional e o homem do terreno da Altice, é ele quem vai à frente para reorganizar as empresas quando o grupo faz uma nova compra. Foi assim na PT, onde o minhoto Armando Pereira, natural de Guilhofrei, assumiu o leme nos primeiros tempos. É ele quem avança com os cortes, e faz o trabalho duro de enfrentar as primeiras hostilidades. Na PT teve a ajuda de Hernâni Vaz Antunes, um empresário de Braga que acompanhava desde a Cabovisão, e ficou conhecido como ‘comissionista’, por ter pedido à brasileira Oi €69 milhões, alegadamente por ter apresentado a Altice aos então donos da PT. Chegou a admitir-se que tinham empresas juntos, e que estas se haviam tornado grandes fornecedoras da PT. Duas das empresas que se apontavam como sendo suas eram a Tnord e Sudtel, criadas em 2015, e recentemente compradas pela Altice. Nunca foi provado que assim fosse. Mas o episódio dos €69 milhões caiu mal no quartel-general da Altice, e Hernâni Vaz Antunes, uma visita frequente em Picoas, passou a ter um comportamento mais resguardado.

Armando Pereira conhece bem as entranhas do sector das telecomunicações. Foi por aí que se afirmou. A escalada começou aos 30 anos, em 1985, quando criou a Sogetrel, uma empresa de instalações de redes de telecomunicações, que se torna fornecedora da France Telecom. Os dados estavam lançados, Armando Pereira iria tornar-se um homem rico, deixando para trás o adolescente de 14 anos, que emigrou para França com a roupa que trazia no corpo. Casou-se entretanto com uma francesa, de quem teve uma filha. A sorte sorriu-lhe quando se cruzou com Drahi, já dono de uma fortuna de €42,5 milhões. É juntamente com ele que funda a Altice. Não se sabe ao certo quanto detém no grupo, tem-se apontado para montantes entre os 20% a 30%, mas há quem duvide que seja tanto. É um mistério. Maior ou menor acionista da Altice, a verdade é que Armando Pereira está apontado pela “Le Parisien” como o 19º homem mais rico de França. Uma fortuna de €3,2 mil milhões, que lhe permite alimentar uma paixão pelos carros de rali, que conduz regularmente, e aterrar de helicóptero na sua mansão em Vieira do Minho. Pereira e Drahi conhecem-se há mais de duas décadas e meia, são fiéis um ao outro, embora se admita que não são visitas de casa, até porque vêm origens e níveis de educação diferentes. Dificilmente, porém, ficarão de costas voltadas. Foi pela mão de Armando Pereira que Drahi entrou no mercado português, e o líder da Altice, que vem regularmente a Portugal, já o visitou no Minho.

Armando Pereira é tímido e não gosta de se expor. Diz-se, inclusive, que tem indicações para falar pouco, um silêncio que costuma ser interrompido nas inaugurações de call centers minhotos. Da última vez, lamentou que o primeiro-ministro não compreendesse os investimentos da Altice em Portugal.

Os três pilares do império

Compra. A aquisição da Media Capital aos espanhóis da Prisa abre as hostilidades. A Altice acredita que o futuro passa pela convergência entre as telecomunicações e os media, e deu o pontapé de saída em Portugal

Compra. A aquisição da Media Capital aos espanhóis da Prisa abre as hostilidades. A Altice acredita que o futuro passa pela convergência entre as telecomunicações e os media, e deu o pontapé de saída em Portugal

foto josé oliveira

A velocidade a que Patrick Drahi tem vindo a fazer aquisições para construir o seu império — comprou 20 empresas de telecomunicações e media nos últimos 15 anos, nos dois lados do Atlântico — surpreende os seus concorrentes. A Altice agigantou-se nos últimos três anos e num movimento que parece ter sido feito em contraciclo, em época de crise económica e apostando num sector (os media) de que os operadores históricos europeus se afastaram, após algumas tentativas de convergência mal sucedidas. Em Portugal, a própria PT tinha comprado a Lusomundo no início da década de 2000 e retirou-se. Mais tarde, durante os Governos de José Sócrates, a PT tentou comprar a TVI, mas gerou-se alguma polémica e o negócio (com contornos políticos) acabou por não acontecer. Curiosamente, será a Altice, uma década depois a protagonizar a união da PT e da Media Capital/TVI. Um caminho que já começou a trilhar em França, causando algum espanto. Em janeiro de 2015 avançou para a compra do “Libération” e do Group Express. O pontapé de saída foi dado com Israel (canal de notícias i24). Nos Estados Unidos, uma história mais recente, a Altice detém os canais de notícias Newsday e News12. A TVI é o primeiro canal de sinal aberto que compram, é aí que está a novidade.

Hoje não restam dúvidas de que a Altice quer estar na linha da frente na chamada convergência entre as telecomunicações, os conteúdos media e a publicidade. Uma tendência na qual os líderes dos operadores no Velho Continente não parecem acreditar, mas que para Patrick Drahi é uma certeza incontornável. Acredita piamente que a propriedade dos media e dos produtores de conteúdos permite aos operadores de telecomunicações diferenciarem-se, ficarem com mais poder num mercado onde a concorrência é feroz e tornarem-se mais atrativos em caso de venda. Sem conteúdos, e o cada vez mais desejado entretenimento (sobretudo séries), os operadores ficam coxos e dão o ‘ouro ao bandido’, ou seja, aos gigantes da internet over the top (OTT), como a Google e o Facebook.

Inspira a sua estratégia no que tem vindo a acontecer nos Estados Unidos nos últimos anos. Uma tendência que foi inaugurada em 2011, quando o operador de cabo norte-americano Comcast comprou a NBC Universal e mais tarde a DreamsWorks Animation. Depois foi a vez do gigante operador móvel AT&T protagonizar uma megafusão com a TimeWarner (que detém o serviço HBO, canal de notícias CNN e a produtora de cinema Warner). Não ficou por aqui, pouco depois, em 2015, comprou o serviço de distribuição de canais DirectTV. A Verizon, o terceiro operador americano, não quis ficar atrás e avançou entretanto para os serviços internet AOL e Yahoo.

Se esta tendência de convergência media/telecoms vier a generalizar-se na Europa, como Drahi acredita, a Altice leva assim alguns anos de avanço em relação aos 120 operadores que operam no continente. Uma proliferação que contrasta claramente com o que acontece nos Estados Unidos, onde existem apenas quatro operadores. Michel Combes, o presidente executivo da Altice que Drahi foi recrutar à Alcatel/Lucent, defendeu, em entrevista à revista da consultora Idate, que há na Europa uma “pressão de competição excessiva” e antevê, por isso, fusões e a criação de mais operadores pan-europeus. Um deles será, espera, claro, a Altice, um grupo que em 2016 teve um volume de negócios de €23,5 mil milhões. Nessa corrida pela consolidação nas telecomunicações na Europa estarão os grandes players: Vodafone, Telefónica, Orange (France Telecom) ou a Vivendi (que controla a italiana TIM).

A Altice prepara-se também para concorrer com as empresas distribuidoras de vídeo streaming online. Quer produzir conteúdos de entretenimento para plataformas de distribuição de vídeo on demand. E vai ter um canal de cinema. Para o efeito, fez um acordo de distribuição de filmes e documentários com a Netflix, uma parceira que no futuro poderá ter a Altice como concorrente. A Plural, produtora de telenovelas da Media Capital — que irá juntar-se à israelita HOT, que já produziu séries de sucesso como “Médicis” e “Taken” —, insere-se nesta estratégia de criação de conteúdos próprios. Paralelamente, a Altice tem vindo a apostar forte nos conteúdos desportivos, não hesitando em abrir os cordões à bolsa para ficar com os direitos para França de importantes competições futebolísticas, como a Liga dos Campeões e a Premier League inglesa. Em Portugal, os direitos sobre a Primeira Liga estão blindados na SportTV, mas a Meo acabou por fazer um acordo de patrocínio com o FC Porto de €457 milhões por 10 anos. Correm rumores que terá procurado comprar os direitos da Benfica TV para poder disponibilizar os jogos da equipa da Luz aos emigrantes portugueses em França.

O terceiro pilar da estratégia de expansão de Patrick Drahi é a publicidade online — o primeiro é a propriedade de redes de telecomunicações e o segundo a produção de conteúdos. A ideia do fundador da Altice é mais uma vez concorrer com os gigantes da internet, como a Google ou a Facebook, que fazem fortuna a vender publicidade na internet. Enquadra-se nesta estratégia, a aquisição no passado mês de março da Teads, especialista em vídeos publicitários online (coloca publicidade no meio dos artigos). A ideia é personalizar a publicidade. A cereja no topo do bolo, para permitir o acesso a mais fluxos financeiros dos clientes, será colocada por volta de 2020, com o lançamento do banco Altice online.

Resta saber o que irá fazer Drahi daqui a alguns anos quando todas as peças do puzzle estiverem montadas. Vai fazer crescer o império, entrando em outros países além de França, Israel, Portugal, EUA e República Dominicana? Ou vender ativos, pagando dívidas e retirando as mais-valias? Só o futuro o dirá... A especulação tem apontado para a Telefónica como um dos candidatos, algo que a Altice nega sempre. / a.C. e J.R.