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Nos Açores, o leite não é só de vaca. Também é de burra

Marcos Couto é um dos fundadores da Asinus Atlanticus, empresa criada em 2013 para produzir leite de burra 
para a indústria cosmética. No ano seguinte, decidiu reconverter a atividade para o consumo humano

Rui Caria

A Asinus Atlanticus, na Ilha Terceira, é a única produtora 
de leite de burra biológico 
da Península Ibérica

O Totoloto não fez de Marcos Couto um excêntrico. Afinal, só ganhou €500. Mas fez do terceirense e professor de Educação Física um empresário a sério. “Se um há momento determinante no percurso da Asinus Atlanticus, foi esse”, conta o próprio. Alguém lhe disse que tinha “uma burrinha” para vender. O preço? €500, precisamente. Mas Marcos, que já tinha alguns asnos autóctones dos Açores, os burros-anões da Graciosa, e estava a dar os primeiros passos na produção de leite de burra em Angra do Heroísmo, recusou. “Na altura, disse que não, não tinha. Isto aconteceu numa quinta-feira. Na sexta, joguei no Totoloto e saíram-me €500. Fui comprar a burrinha, como é óbvio”, recorda.

A sorte saiu-lhe em meados de 2013, quando já havia meses que tentava dar forma a um projeto empresarial. Até aí, a sua vida era o desporto: além de dar aulas numa escola, é também treinador profissional de basquetebol feminino (atualmente, é também o candidato pelo PSD à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo). Mas com a mulher, médica, e a irmã, alimentava a ideia de ter o seu próprio negócio. Depois de verem uma reportagem televisiva sobre a produção de leite de burra em Portugal Continental, acharam que podia ser esse o projeto. Afinal, o leite dos Açores não tem de ser só de vaca. Na Ilha Terceira, de onde provém 1/3 do leite consumido pelos portugueses do Continente, agora o leite também pode ser de burra.

Começaram a comprar os primeiros animais, alugaram uma pequena quinta, mas parecia difícil arrancar. “Não há coincidências tão grandes, aquele prémio foi um sinal”, diz Marcos Couto — que não esquece, porém, que a vida de empresário nem sempre é fácil e isenta de dificuldades e peripécias, “como daquela vez em que alguns dos nossos burros, comprados no Continente, foram apanhados na greve dos estivadores do Porto de Lisboa, ou quando o nosso equipamento de produção de leite em pó ardeu”.

Consumo de leite 
de burra a crescer

Volvidos estes anos e contornados certos episódios, a Asinus Atlanticus é, segundo o seu fundador, a “única produtora de leite de burra biológico da Península Ibérica”. Tem também o maior liofilizador desta região, um equipamento que permite produzir leite em pó, através de um processo de secagem a frio: “No final, temos um produto com menos de 2% de humidade, em pó. Uma vez adicionada água, temos um leite idêntico ao inicial, com todos os micro-organismos conservados. É um leite vivo e com dois anos de validade: isto permite-nos retirar o leite dos Açores a um custo muito mais baixo e com um tempo de prateleira muito maior”, explica.

A empresa nasceu inicialmente para produzir leite convencional e servir a indústria da cosmética. Já na Antiguidade, o leite de burra era usado para fins médicos e estéticos e Cleópatra acreditava que banhando-se no líquido conseguia preservar a sua juventude.

Contudo, em 2014, quando adquiriu o liofilizador (o que absorveu metade do investimento inicial aplicado pela família Couto no negócio, perto de €160 mil) e passou a ser participada pela Portugal Ventures, a sociedade pública de capital de risco, a Asinus reconverteu a sua atividade não só para a produção em modo biológico como também para servir um segmento em franco crescimento: o consumo humano de leite de burra. “É o mais idêntico que existe ao leite materno. Por isso, é ideal para crianças cujas mães não as conseguem amamentar ou para aquelas que tenham alergias, como à proteína do leite de vaca”, conta o empresário.

Aposta na exportação

Em 2016, com um efetivo de 30 animais (que incluem crias, machos reprodutores e 12 fêmeas à ordenha), a Asinus produziu 220 quilos de leite de burra em pó e vendas de €30 mil. Em 2017, a faturação deverá crescer, entre os €50 mil e os €70 mil.

Para aumentar a produção, a empresa tem vindo a adquirir burros de outras raças, como o Mirandês, com maior capacidade produtiva — têm uma lactação média de dois litros por dia, contra os cerca de 700 mililitros produzidos pelas burras da Graciosa. A estratégia da Asinus passa agora por estabelecer parcerias com outros proprietários terceirenses. A primeira já foi firmada: “Temos um produtor que acabou de adquirir 26 burros, vindos do Continente. Estão agora num período de reconversão para o sistema biológico, até janeiro de 2018”, prevê Couto. Em 2019, o objetivo é produzir uma tonelada de leite de burra em pó e chegar a uma faturação na ordem dos €300 mil.

A quase totalidade da produção segue para França, República Checa, Arábia Saudita e Hong Kong. “O consumo de leite de burra começa a crescer um pouco por todo o mundo. Os países asiáticos mostram grande apetência e, na Europa, começamos a ver o crescimento gradual do interesse por este tipo de produto. Tanto mais que a maior produtora mundial de leite de burra é europeia, de Itália, e tem praticamente 1000 animais”, aponta Marcos Couto.

Entretanto, a Asinus lançou recentemente, com marca própria, um pacote de 100 gramas de leite de burra em pó (o equivalente a um litro) e que está a ser comercializado em algumas lojas da cadeia de produtos biológicos Celeiro, a preços que rondam os €70. Se fosse vendido ao litro custaria cerca de €15 — mas com um prazo de validade muito limitado.

Mantém ainda um pé no mundo da cosmética, vendendo leite embalado em vácuo para a indústria. Mas o foco está no consumo humano, sobretudo pelo valor acrescentado do seu produto: “Através de vários estudos que temos feito com a Universidade dos Açores e com o departamento de Engenharia Zootécnica da Ilha Terceira, percebemos que o leite da Asinus tem uma característica altamente diferenciadora: tem um alto teor de Ómega 3, um poderoso antioxidante. Chega a ser o dobro de outras marcas de leite de burra testados. E isso tem que ver com a influência permanente do mar nas nossas pastagens, durante todo o ano”, explica Couto.