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O mapa que o Norte fez para não deixar fugir investidores

Euronext escolheu fixar o seu centro tecnológico no Porto devido à alta qualificação profissional

JOSÉ COELHO/LUSA

Nos próximos dois anos, deverão ser criados pelo menos 5000 postos de trabalho na região norte

Rute Barbedo

O país já começou a perder oportunidades de investimento devido à escassez de profissionais qualificados, sobretudo na área das tecnologias de informação, e esse é um cenário que a região norte não quer ver agudizar-se. É assim que pensam a Câmara Municipal do Porto (CMP) e a plataforma Talent Portugal, que reuniram mais de 60 entidades públicas e privadas com o objetivo de mapear a procura e a oferta de profissionais e competências na macrorregião do Porto e Norte (inclui os distritos do Porto, Aveiro, Braga, Viana do Castelo, Vila Real, Viseu e Coimbra).

TI na linha da frente

Nos próximos dois anos, as 37 empresas inquiridas para esta análise (entre as quais se encontram a Euronext, Vestas, Farfetch, Blip, Critical Software, Bosch ou Veniam) preveem criar 4740 postos de trabalho. Se novos investimentos e marcas chegarem, mais intensa será a competição por profissionais qualificados. Só na área de tecnologias da informação (TI), poderão ser necessários mais 1500 profissionais, sugere-se na análise “Mapa de Talento Porto Norte”, divulgada ao Expresso esta semana.

A parte que não surpreende é precisamente essa: que grande parte da procura por talento incida nas TI (ver tabela “Número de trabalhadores a contratar nos próximos dois anos”), domínio em que a disputa se tem acentuado nos últimos anos e que muitas vezes desagua num cenário de “canibalização”. Engenheiros e programadores terão, por isso, emprego garantido, mas também os contabilistas e os técnicos de finanças serão cada vez mais procurados. Ainda assim, a leitura dos dados não é linear: a maioria das empresas (21) que participaram na configuração deste ‘mapa’ operam na área de TI e as restantes enquadram-se em atividades ligadas às áreas financeira, industrial e de engenharia e no apoio ao cliente (neste último plano, as línguas estrangeiras são apontadas como um fator diferenciador, com predomínio do inglês e francês).

Se, de um lado, a análise inclui previsões de oferta de emprego na região, do outro, indica e tipifica os alunos em formação nas principais instituições de ensino superior e os profissionais disponíveis, qualificados e por requalificar. A “fotografia”, como lhe chama Ricardo Valente, vereador do Desenvolvimento Económico e Social da CMP, ajudará a “resolver os problemas de ligação entre a oferta e a procura por área funcional”.

Mudança de paradigma

O problema que motivou a construção deste mapa já não é de hoje. “Enquanto durante muitos anos Portugal tinha uma base de recursos em que esta questão [da falta de profissionais] não se colocava”, a partir do final de 2014, o cenário começou a inverter-se, analisa o autarca do Porto, sublinhando a transição para “uma lógica de captação de investimento que assenta muito em pessoas”. “Já não se discute o preço do metro quadrado”, afirma.

No entanto, identificar os profissionais atualmente disponíveis não chega, pelo que o estudo incide também no que o ensino está a formar para os próximos anos. “Estas empresas têm ciclos de vida de dez anos. Se não tiverem [recursos humanos] aqui têm de procurar noutro lado”, expõe o também professor de Economia. Ainda assim, a falta de profissionais em algumas áreas do conhecimento tem uma face reluzente. Mais de metade das empresas inquiridas neste estudo recrutaram expatriados portugueses nos últimos dois anos. “Isso mostra que eles estão a começar a voltar, tanto por haver mais emprego no país como pela fase de vida em que se encontram”, ilustra Luís Sottomayor, diretor da Talent Portugal, uma plataforma de contacto entre empresas e candidatos criada no ano passado.

Por outro lado, há um enigma por resolver: “Há muito talento disponível mas escondido” e uma desadequação entre as competências e as necessidades do mercado, acredita Sottomayor. Um exemplo: um técnico de finanças poderá ter emprego imediato na área caso domine a língua inglesa (81% das empresas questionadas consideram-na obrigatória), mas, sem esta valência, os conhecimentos de contabilidade e finanças poderão não se traduzir num encaixe no mercado de trabalho.

Do visit Portugal ao work in Portugal

Além das línguas, é nas vertentes da programação, tecnologia SAP, análise de dados, design de experiência do utilizador, automação, controlo industrial e desenho 3D que deverá haver maior investimento. Em paralelo, as engenharias mecânica e eletrónica também estão em alta. Nem todos os percursos são, no entanto, assegurados pelas universidades, mas outras entidades ligadas à educação e à formação, nomeadamente no ensino profissional (67% das empresas consideram “muito ou extremamente importante a disponibilidade de candidatos com formação técnico-profissional”), poderão responder com eficácia. Além disso, as “instituições de ensino estão disponíveis para adaptar os seus currículos, bem como as empresas para as ajudar a fazê-lo”, depreende Luís Sottomayor.

Outra mancha deste ‘mapa de talento’ retrata a relação dos estrangeiros com o ensino e o mercado de trabalho nacionais. Atualmente, 11% das equipas destas 37 empresas da região norte são constituídas por estrangeiros, sendo que para 89% delas, a língua portuguesa não é, sequer, uma competência necessária.

Muitos dos atuais colaboradores de outras nacionalidades concluíram os estudos em Portugal, mas é preciso que os mais de 30 mil estudantes estrangeiros que hoje frequentam o ensino superior do país saibam que o mercado tem condições para absorvê-los, aponta Ricardo Valente, da CMP. É também nessa mensagem que o Porto quer trabalhar (ler “Apoio ao talento”), através de uma estratégia de comunicação. “Temos vistos gold para a compra de imobiliário e facilidades para instalar empresas mas eu diria que, na economia do conhecimento — e esse é um dos segredos da economia americana — é preciso um visto gold na lógica do cérebro”, defende o autarca.

Os passos seguintes ao estudo são envolver mais autarquias, empresas, centros de emprego e instituições de ensino para o levantamento de informação e procura de soluções, que passam pela requalificação e integração de desempregados e subempregados (ou seja, pessoas cujo conhecimento não está a ser rentabilizado da melhor forma). Depois, virá a vez de comunicar oportunidades quer para investidores quer para trabalhadores nacionais, estrangeiros e expatriados.