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Desequilíbrios externos agravaram-se entre as economias desenvolvidas

O fosso entre economias com excedentes e défices excessivos nas contas externas concentrou-se no mundo desenvolvido desde 2013, revelou o relatório do FMI sobre o sector externo agora divulgado. Os países com excedentes excessivos vão ter de fomentar o investimento e o consumo. Os com défices excessivos terão de proceder a uma ‘desvalorização interna’

Jorge Nascimento Rodrigues

Os desequilíbrios externos a nível global representam atualmente 0,7% do PIB mundial e confirma-se a tendência, desde 2013, do fosso entre países com excedentes e défices excessivos na balança corrente se estar a concentrar entre as economias desenvolvidas, alerta o Relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre contas externas à escala global agora publicado. O risco é que esses desequilíbrios alimentem uma reação protecionista e de aumento das políticas mercantilistas dentro do mundo desenvolvido.

Numa amostra de 47 economias coberta pela base de dados do FMI, o peso dos países com saldos excessivos – sejam superavits ou déficits - aumentou nos últimos 20 anos, chegando a representar mais de 40% em meados dos anos 2000, depois de uma escalada desde 1995, quando pesava apenas 10%. O peso reduziu-se significativamente desde a crise financeira para próximo de 20%, mas continua muito acima dos níveis atingidos em qualquer ano entre 1965 e final dos anos 1990. Por excessivo, o FMI considera um saldo (défice ou excedente) corrente superior a 3% do PIB nos últimos três anos.

A balança corrente é composta pela balança de bens, a balança de serviços, a balança de rendimentos e a balança de transferências correntes, e dá uma imagem da conta externa do país.

Portugal não se encontra atualmente entre as economias com défices excessivos, tendo registado excedentes entre 2013 e 2016, variando entre um máximo de 1,56% do PIB em 2013 e um mínimo de 0,06% em 2014, fechando no ano passado com um excedente de 0,8%. De 2008 a 2011, registou défices excessivos, tendo caído de 12,13% no ano da crise financeira para 6% em 2011 e 1,8% em 2012. O FMI prevê défices externos crescentes até 2022, mas muito abaixo do nível que os classifica de excessivos. Portugal não está abrangido pelo relatório do FMI.

Mudança no perfil dos desequilíbrios externos mundiais

Apesar da redução do peso dos saldos excessivos no mundo, ocorreu uma mudança de perfil nos últimos anos pós crise financeira. A concentração de excessos deslocou-se para as economias desenvolvidas.

Os excedentes que eram registados por algumas economias exportadoras de petróleo desapareceram e passaram a défices. Num dos casos, a Arábia Saudita, que pertence ao G20, a situação passou de um excedente de 18% em 2013 para uma posição substancialmente fraca, com um défice excessivo de 4% do PIB em 2016.

A China, a segunda maior economia do mundo, reduziu substancialmente o seu excedente externo, de 10% em 2007 para 1,7% em 2016. As restantes economias emergentes e em desenvolvimento reduziram os défices externos, nomeadamente Brasil e Índia, e, no caso da Tailândia, saltou espetacularmente de um défice de 1,2% em 2013 para um excedente significativamente excessivo, de 11,5%, em 2016.

Pelo contrário, entre as economias desenvolvidas, Alemanha, Coreia do Sul, Dinamarca, Holanda, Singapura e Taiwan mantêm superavits excessivos persistentes, acima de 6% do PIB nos últimos quatro anos, enquanto Austrália, Canadá, Estados Unidos e Reino Unido registam défices externos acima de 2% do PIB no mesmo período. A Grã-Bretanha lidera com um défice de 4,4% em 2016. Globalmente, por ordem decrescente, Reino Unido, Arábia Saudita, Turquia e Canadá registaram em 2016 défices excessivos, acima de 3% do PIB.

Uma situação de contrastes entre excedentários e deficitários excessivos dentro das economias desenvolvidas não é nova, recorda o FMI. No período entre as duas grandes guerras mundiais, o agravamento daquele fosso levou à grande depressão e ao aumento das tensões geopolíticas. A situação de desequilíbrio agravou-se ainda mais por falta de flexibilidade cambial e por adoção de políticas orçamentais de austeridade por parte das economias com excedentes externos.

Alemanha e Holanda não estão em lista negra, mas devem estimular a economia

O FMI admite que economias com marcado envelhecimento da população e nível já elevado de dependência dos idosos em relação à população ativa devem precaver-se, acumulando excedentes externos. Por isso, não colocou numa lista negra a Alemanha ou a Holanda. “Não vemos necessariamente os excedentes da Alemanha como uma ameaça à economia global. Mas, parte desse excedente é excessivo e mais alto do que o desejável”, referiu-se explicitamente na conferência de imprensa de apresentação do relatório.

Por isso, o Fundo sublinha que as economias que disponham de folga orçamental devem reduzir a sua dependência da política monetária expansionista e enveredar por maiores estímulos orçamentais ao investimento público e privado e ao consumo, sem que isso implique necessariamente um sobreaquecimento da economia.

Políticas de aperto orçamental desadequadas nos últimos quatro anos reforçaram os excedentes na Alemanha, Coreia do Sul, Holanda e Suécia, sublinha o FMI. É, agora, necessário corrigir a estratégia para uma “valorização interna” nos países onde não haja independência monetária, como nos casos da Alemanha e Holanda, que participam na moeda comum do euro, cuja política é definida pelo Banco Central Europeu.

Mas, noutros casos da zona euro onde permanecem défices externos, ainda que abaixo do limiar excessivo, como em França (1% do PIB), é indispensável uma “desvalorização interna”.

O estudo do FMI abrange dois periféricos do euro, Espanha e Itália, que registam excedentes externos crescentes desde 2013, ainda que abaixo de 3% do PIB em 2016.