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Heliotextil já faz casacos que aquecem o corpo

Miguel Pacheco, à esquerda, e David Macário estão a cruzar têxteis tradicionais com tecnologia

Rui Duarte Silva

Empresa está a usar sensores e algorítmos para inovar nos têxteis

Como é que uma empresa habituada a fazer fitas, elásticos e etiquetas abre as porta à indústria 4.0 e tem já duas tecnologias desenvolvidas internamente à espera de patente? “Com criatividade, investimento em inovação, flexibilidade”, responde Miguel Pacheco, presidente executivo da Heliotextil, de São João da Madeira, apostado em cruzar eletrónica com têxteis tradicionais para seguir uma rota de crescimento.

A representar a segunda geração de uma empresa fundada em 1964, o empresário mantém a oferta tradicional e, na verdade, ainda tem aqui “o pão com manteiga” que alimenta a Heliotextil, mas à tecelagem, processamento, tinturaria, acabamento do produto, está a juntar, cada vez mais a impressão digital, a integração de tecnologia, para ir explorando novas áreas de negócio.

“Acabamos por estar em dois segmentos diferentes o que exigiu equipamentos novos, uma aposta no laboratório e na engenharia dos materiais, a criação de um departamento de investigação e desenvolvimento (I&D), o esforço para apresentar novos produtos que estão na vanguarda do mercado”, sintetiza Miguel Pacheco. Ao mesmo tempo, cruzou características técnicas com a oferta tradicional, o que pode significar fazer uma etiqueta com tratamento antifogo ou antibacteriano que valoriza automaticamente o produto.

Investiu €2,5 milhões nos últimos três anos e quer manter este ritmo no futuro, “concentrado na área eletrónica”, com o apoio de David Macário, que arriscou continuar uma carreira focada no desenvolvimento de produtos eletrónicos como diretor de inovação de uma empresa têxtil, procurando criar novas soluções com aplicações tecnológicas.

É o caso do novo casaco para trabalhar em câmaras frigoríficas que tem uma banda de aquecimento com sensores para medir, regular, manter constante a temperatura do corpo e, até, dar alertas se houver algum desvio, sempre em ligação a uma aplicação que pode estar num telemóvel. Para isso, foi preciso criar algoritmos de controlo específicos e oferecer baterias com uma autonomia de quatro horas.

A proposta ainda não está no mercado, mas é uma das soluções da Heliotextil que está a atrair a atenção de novos clientes, a par de outras inovações como as luvas com capacidade de toque nos ecrãs táteis, premiadas na última edição da Ispo, a maior feira mundial para artigos de desporto, ou os bolsos funcionais com impressão de teclados táteis, luz e possibilidade de escolher diferentes níveis de intensidade luminosa.

Outra das apostas da empresa são as pulseiras em material têxtil com incorporação de RFID (tecnologia de identificação por radiofrequência) num chip que permite, por exemplo, interagir, fazer o registo e o controlo de acessos e de consumos em eventos. No radar da Heliotextil está, ainda, o segmento do vestuário de proteção.

Flexibilidade total

Nesta estratégia assente na inovação, a presença na Techtextil, a feira de têxteis técnicos de Frankfurt, é uma paragem obrigatória, de dois em dois anos, para transmitir a dinâmica de desenvolvimento do produto aos potenciais clientes e, simultaneamente, “ver o que os outros estão a fazer”, sublinha Miguel Pacheco, que vê, aqui, “um motor de desenvolvimento contínuo”.
“Conseguimos acompanhar as tendências de mercado, vemos as novas aplicações, validamos a aceitação de novas linhas de investigação. E voltamos para a fábrica com a cabeça a fervilhar de ideias novas”, acrescenta David Macário.

A estratégia recomenda ”flexibilidade total”. “Muitas vezes, nestas áreas tecnológicas, o cliente apresenta-nos projetos, ideias, não um produto. E é a versatilidade para integrar diferentes competências e fazer desenvolvimentos personalizados para diferentes segmentos, dos têxteis-lar à indústria automóvel e ao vestuário de proteção que nos distingue”, defende o diretor de inovação da Heliotextil, a trabalhar para dominar a técnica de impressão de materiais condutores, as suas características e reprodutibilidade.

A investir em I&D 3% do volume de negócios, a empresa fechou 2016 com vendas de €5 milhões, o que representa um crescimento de 10% face ao ano anterior. As exportações diretas e indiretas respondem por 90% deste valor, tendo como principais destinos França, Alemanha, Itália e Inglaterra. Dos 120 trabalhadores atuais, 20 já foram contratados este ano para ajudar a Heliotextil a cumprir a sua ambição de crescimento.