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FMI confirma retoma mundial e revê em alta crescimento da zona euro

GEORG HOCHMUTH/GETTY

A desaceleração da economia mundial desde 2011 terá terminado em 2016 e o crescimento vai subir para 3,5% e 3,6% este ano e no próximo. A zona euro vai crescer mais do que se previa no World Economic Outlook em abril, segundo a atualização de projeções divulgada esta segunda-feira em Kuala Lumpur

Jorge Nascimento Rodrigues

O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem, agora, uma certeza: a economia mundial está em “recuperação firme”. A trajetória descendente de crescimento desde 2011 terá terminado em 2016.

Em abril, quando publicou a edição da primavera do ‘World Economic Outlook’ (WEO) – o seu mais importante documento de previsões económicas e sugestão de políticas que é publicado duas vezes por ano -, o FMI ainda se interrogava se a economia mundial estava a “ganhar impulso”. Na atualização das projeções que publicou esta segunda-feira de manhã em Kuala Lumpur, a capital da Malásia, a dúvida desfez-se.

“A recuperação do crescimento global que projetámos em abril está numa base mais firme. Agora já não há ponto de interrogação sobre o ganho de impulso da economia mundial”, disse Maurice Obstfeld, o economista-chefe do FMI, na declaração de apresentação do documento pelas 11 horas locais.

O Fundo confirma, agora, a previsão que fizera no WEO de abril apontando para taxas de crescimento do produto mundial de 3,5% em 2017 e 3,6% em 2018, e melhorou inclusive ligeiramente a estimativa de crescimento em 2016 de 3,107% para 3,2%. O crescimento tinha vindo a abrandar desde 2011, com a taxa a descer de 5,4% em 2010 para 4,2% no ano seguinte, caindo para o patamar dos 3% desde 2012, chegando a próximo de 3,1% em 2016, um mínimo de sete anos.

O bom andamento da economia mundial em 2017 e 2018 assenta numa aceleração do crescimento do comércio mundial, que passará a ser superior ao crescimento do produto, o que não acontecia em 2015 e 2016. A taxa de crescimento do comércio mundial para 2017 foi inclusive revista em alta para 4%, uma aceleração clara em relação a 2,6% em 2015 e 2,3% em 2016, apesar do FMI continuar a considerar que há riscos de médio prazo ligados ao protecionismo e ao recuo do multilateralismo.

Boa notícia para a zona euro

O FMI deu esta segunda-feira, bem longe, na Ásia, uma outra boa notícia que toca a Europa, onde ainda é madrugada.

A atualização reviu em alta o crescimento para a zona euro em 2017 e 2018, salientando o bom comportamento da economia dos 19 da moeda comum, e antevendo inclusive “a possibilidade de um crescimento ainda mais forte na Europa continental, dado que os riscos políticos diminuíram”. As projeções foram revistas de 1,7% para 1,9% em relação a 2017 e de 1,6% para 1,7% para o ano seguinte. Contudo, manter-se-ão abaixo das projeções para o crescimento dos Estados Unidos, que se manterá em 2,1% nos dois anos, apesar de estas terem sido inclusive revistas em baixa.

As revisões em alta mais significativas na zona euro registam-se para Espanha e Itália. Em 2017, o Fundo melhora em cinco décimas o crescimento dos dois periféricos, colocando a Espanha a liderar o crescimento das economias desenvolvidas, com uma taxa de 3,1%. Fruto das revisões em alta para Itália, a economia transalpina vai sair do patamar de crescimento abaixo de 1% que registou em 2015 e 2016. Também os crescimentos da Alemanha e da França, as duas mais importantes economias da zona euro, registam revisões em alta, no entanto, inferiores às verificadas para Espanha e Itália.

As projeções do FMI para a zona euro abrangem apenas as quatro economias referidas, três das quais representam os principais destinos das exportações portuguesas (Espanha, França e Alemanha, em 2016), sendo, por isso, indiretamente, uma boa notícia para as perspetivas da economia portuguesa.

Emergentes puxam pela economia mundial

Nas projeções apontadas para este ano e o próximo não se regista nenhuma situação de recessão entre as 16 maiores economias – desenvolvidas e emergentes - abrangidas por esta atualização. O que contrasta claramente com 2016, quando três grandes exportadores de matérias-primas, dois dos quais dos BRICS, registaram quebras de produto – Brasil, Nigéria e Rússia.

O melhor comportamento do conjunto das economias emergentes e em desenvolvimento levou o Fundo a rever em alta ligeiramente a previsão de crescimento para 2017 e a reafirmar a trajetória de aceleração de 4,3% em 2015 e 2016, para 4,6% em 2017 e 4,8% em 2028.

As economias emergentes e em desenvolvimento, particularmente as da Ásia, continuam a ser o principal motor da economia mundial, com destaque para a Índia (com crescimentos acima de 7%) e a China (com crescimentos acima de 6%).

As projeções da China foram revistas em alta, o que já se sabia desde a publicação em junho pelo FMI da análise daquela economia ao abrigo do artigo IV. O crescimento deverá manter-se em 6,7% em 2017, o mesmo que no ano anterior, e deverá desacelerar para 6,4% em 2018, menos duas décimas do que se antevia em abril. Ou seja, Pequim está a procurar manter o mais ‘suave’ possível o abrandamento, inevitável e indispensável, do crescimento da segunda maior economia do mundo.

Apesar da aceleração que se projeta, a taxa de crescimento do produto mundial continuará abaixo da média anterior à grande crise financeira de 2008 e à recessão de 2009, sublinha o documento do Fundo. Entre 2000 e 2007, a economia mundial cresceu anualmente 4,5% em média.

Incerteza política leva a revisões em baixa para EUA e Reino Unido

A atualização hoje publicada veio confirmar o que já se sabia desde junho sobre a maior economia do mundo. O FMI reviu em baixa o crescimento para os EUA, cortando duas décimas na previsão para 2017 e, ainda mais, quatro décimas, na projeção para o ano seguinte, como já apontava no relatório publicado em junho ao abrigo das análises permitidas pelo artigo IV.

A principal ‘culpa’ é da incerteza em torno da política da Administração Trump, um dos grandes riscos de médio prazo que pesam sobre a economia mundial. O principal fator por detrás da revisão em baixa do crescimento, sobretudo para 2018, “é o pressuposto de que a política orçamental será menos expansionista do que previamente [no WEO em abril] se assumia, em virtude da incerteza sobre o calendário e a natureza das mudanças na política orçamental dos EUA”.

A atuação do banco central, a Reserva Federal (FED), no processo de emagrecimento em breve da sua carteira de ativos e a trajetória de subida das taxas de juro é outro dos riscos que condicionam o crescimento norte-americano, apontado pelo FMI, no caso daquele processo ser menos gradual do que se espera. Recorde-se que a atual presidente da FED, Janet Yellen, um dos pilares da defesa do gradualismo, termina o seu mandato em fevereiro do próximo ano.

A incerteza sobre o primeiro ano de negociação do Brexit levou, também, o Fundo a rever em baixa, em três décimas, o crescimento do Reino Unido em 2017, que se ficará por 1,7%, abaixo do alemão (1,8%) e do norte-americano (2.1%). “O impacto final do Brexit sobre o Reino Unido ainda não está claro”, sublinhou Maurice Obstfeld no documento de apresentação.

O WEO é publicado duas vezes por ano, em abril e em outubro, aquando das assembleias da primavera e do outono do FMI, e é atualizado, intercalarmente, em janeiro e em julho. O próximo WEO será divulgado aquando da Assembleia anual entre 9 e 15 de outubro em Washington.

Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo, falará esta segunda-feira sobre a atualização de projeções do WEO no Center for Global Development em Washington pelas 10h30 (15h30 hora de Portugal).

  • Os 10 riscos que ameaçam a economia mundial, segundo o FMI

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