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Portugal tem talento. Mas ainda complica

Os investidores estrangeiros estão de novo a olhar para o país e a aplicar cá o seu dinheiro, diz o Inquérito para a Atratividade da consultora EY. E não é só pelos salários baixos

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

As empresas estrangeiras já não olham para Portugal como um país de mão de obra pouco qualificada que recebe salários baixos. Para os investidores internacionais, uma das principais vantagens de Portugal é, agora, a qualidade-preço dos trabalhadores. Ou seja, esses salários — que aumentaram nos últimos dois anos, mas continuam baixos em relação a outros países da Europa — serem pagos a trabalhadores com elevadas qualificações técnicas e académicas, principalmente nas áreas da engenharia, informática ou tecnologias da informação.

“Os investidores dizem que os recursos existentes são altamente qualificados e flexíveis e que os custos de trabalho são muito competitivos”, conclui o Inquérito à Atratividade de Portugal 2017, realizado pela consultora EY e apresentado esta terça-feira na conferência Expresso do Meio-Dia. De facto, diz o estudo, “Portugal tem talento: 26% dos graduados têm licenciaturas em ciências, engenharia e tecnologia, o que está acima da média Europeia; 60% da população falam pelo menos uma língua estrangeira; duas das faculdades de gestão estão no ranking do ‘Financial Times’ das 25 melhores na Europa”. Mas há mais. Portugal tem mais estudantes no ensino secundário do que países como a Alemanha ou França e está quase tão bem cotada como esses países no que respeita à qualidade do ensino de matemática e ciências e à disponibilidade de cientistas e engenheiros, diz ainda o estudo.

“Ao contrário do que se fez durante o período de ajustamento em que se passou muito a ideia de que Portugal era competitivo apenas por ter salários baixos, a perceção que temos tentado passar agora é de que é um país com trabalhadores com muita capacidade tecnológica”, disse ao Expresso o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral. O governante encerrou a conferência Expresso do Meio-Dia que contou com a presença do CEO da Mercedes, Niels Kowollik, do representante da Fosun em Lisboa, Lingjang Xu, do presidente do AICEP, Luís Castro Henriques, e ainda do diretor-executivo da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, José António Cortez.

Recursos a escassear
E já há exemplos concretos desta nova realidade. “Não vêm apenas à procura do chão de fábrica. Muitos dos investimentos recentes que foram feitos em Portugal não foram para aquelas áreas onde os salários são mais baixos, mas sim para as áreas onde há talento e trabalhadores mais qualificados como as tecnologias de informação, software... e é isso que queremos ver ainda mais”, acrescentou Caldeira Cabral.

De facto, de acordo com o estudo da EY, em 2016 foram instalados em Portugal um total de 59 projetos de investidores estrangeiros, o número mais alto dos últimos 20 anos e mais 25,5% que em 2015. Destes, a maioria são indústrias com capacidade exportadora, como a fábrica de comida congelada vegetariana da norte-americana Amy’s Kitchen, ou centros de serviços, ou seja, uma espécie de call centers especializados que, através de Portugal, dão apoio técnico aos clientes de uma determinada marca ou empresa, principalmente os que estão noutros países da Europa. Foi o caso da Mercedes, que o ano passado abriu um centro destes no norte do país e já abriu outro no início deste ano.

Para José António Cortez é precisamente esta área “que está a precisar de atenção”. Portugal devia tentar atrair mais projetos destes e promover o país lá fora nesse sentido. Mas há um problema: segundo os investidores, os talentos já começam a escassear, disse Florbela Lima, a autora do estudo durante a apresentação de terça-feira. “Há engenheiros com boa reputação em Portugal, mas se as empresas continuarem a trazer para cá os seus centros de serviços, nos próximos anos não haverá engenheiros e técnicos especializados suficientes”, completou o CEO da Mercedes. Aliás, o estudo da EY atesta isso mesmo: “Portugal, como em todo o lado, começa a mostrar sinais de recursos escassos em algumas áreas como engenharia de tecnologias de informação, programação ou línguas”.

Estabilidade e segurança
A isto, acresce que Portugal está na moda e não é só para o Turismo, mas também para viver. “Portugal tem gerado uma atratividade muito grande para os engenheiros estrangeiros que preferem Lisboa a outras capitais europeias”, acrescentou ainda o CEO da Mercedes. Porque, diz o estudo, além da relação qualidade-preço dos trabalhadores, Portugal tem inúmeras vantagens que o permitem competir com outros grandes países europeus. A localização é uma delas, como reparou o representante da Fosun durante a conferência. “Viemos para Portugal no final de 2013 e foi quando o país se abriu a outros investidores sem ser os tradicionais, como os europeus. Identificámos boas oportunidades cá e vemos o país como uma ponte para a Europa e a África”, disse.

Mas há mais qualidades apontadas pelos investidores contactados para realizar o estudo (num total de 203). É o caso da estabilidade social e a segurança (está em terceiro lugar no ranking Global Peace Index que lista 163 países no mundo), ou a qualidade de vida e das infraestruturas (por exemplo, 99,8% da casas têm cobertura de rede). Segundo o estudo, os investidores destacam ainda a facilidade com que se fazem negócios e 76% acreditam que o país tem um elevado potencial de crescimento e de aumento de produtividade. Aliás, o relatório da EY mostra que Portugal voltou a estar no radar dos investidores e que os próximos anos têm tudo para atrair ainda mais projetos estrangeiros.

Contudo, ainda há queixas, nomeadamente na demora na tomada de decisões, nos impostos cobrados às empresas ou nas leis do trabalho, consideradas pouco flexíveis. Problemas a que as entidades públicas estão atentas. “Temos de diversificar investidores de outras latitudes, mas acarinhar os que cá estão para que estejam a longo prazo”, concluiu o presidente do AICEP, Luís Castro Henriques.

Três ideias para o país atrair mais dinheiro

Manuel Caldeira Cabral

Ministro da Economia

Promover Portugal 
lá fora

“Uma das principais questões é divulgar mais aquilo em que Portugal é bom. Já o estamos a fazer, aliás, o estudo refere isso quando mostra que as empresas que já estão a trabalhar aqui e conhecem o país têm uma perceção da nossa capacidade de inovação que é quase o dobro da perceção das empresas que não estão a trabalhar em Portugal. O que significa que o nosso reconhecimento lá fora ainda não está ao nível das empresas que já cá estão e, portanto, temos de continuar a trabalhar. Termos conseguido subir quatro posições no Innovation Scoreboard este ano [Portugal ocupa o 14º lugar neste ranking que atesta a capacidade de inovação dos países na Europa] mostra bem que esse trabalho de melhoria da perceção externa está a acontecer, mas temos de continuar a trabalhar para que mais e mais empresas multinacionais conheçam Portugal e venham investir num país que é inovador e capaz de acolher os investimentos mais exigentes”.

Lingjang Xu

Representante-chefe da Fosun

Pequeno-almoço 
chinês

“Qualquer coisa que se faça que seja relacionada com Turismo é uma boa aposta. Portugal tem recursos naturais fantásticos e ainda tem um potencial enorme para atrair mais viajantes, da China e da Ásia, por exemplo, e por isso acredito que se Portugal conseguir fazer mais unidades que sejam confortáveis para os chineses e asiáticos é uma boa ideia. Por exemplo, se Portugal tivesse mais pessoas a falar mandarim seria muito útil e também se pudéssemos ter, nos hotéis, comida chinesa como dim sum ou mesmo um pequeno- -almoço chinês isso seria fantástico. Além disso, e apesar de não estar muito familiarizado com as políticas públicas em Portugal sei que existe um gabinete de turismo muito ativo e penso que, dependendo do orçamento, essas autoridades podem promover ainda mais eventos não só na China, mas também em novos mercados. Outra sugestão, de uma forma mais geral, seria que Portugal criasse uma espécie de regime especial como o visto gold, mas relacionado com impostos ou com a indústria. Uma espécie de microzona especial económica numa região específica para atrair investimentos. Isso evidenciaria o país. Portugal é um país único.”

Niels Kowollik

CEO da Mercedes

Menos 
modéstia

“Aprecio muito a modéstia e a humildade dos portugueses, mas podiam ser mais agressivos na forma como promovem a beleza do país. Deviam ser um pouco mais convencidos. Há muitos outros países que têm muito menos para oferecer do que Portugal e são muito mais agressivos na forma como se promovem. E também penso que, apesar de haver já muitas organizações de apoio que são muito prestáveis, seria útil haver uma plataforma única onde se pudessem discutir vários temas sobre investimento. Porque, na minha opinião, há dois aspetos muito importantes que Portugal podia mudar. Um deles é a comunicação. As empresas que já estão em Portugal têm uma experiência boa e são mais fáceis de convencer do que as que não estão cá e estão à procura de um local para investir no mundo. Seria importante tentar chegar a essas empresas que não estão cientes das vantagens que existem no país. O outro aspeto são as leis do trabalho. Precisamos de mais flexibilidade e de um equilíbrio entre os contratos efetivos e os temporários que são demasiados, mas que percebo porque existem, porque as empresas têm receio de fazer contratos efetivos e, consequentemente, perder a flexibilidade de um contrato temporário”.

Criação de Emprego

2500
postos de trabalho criados. O número de projetos de investimento estrangeiro em Portugal cresceu de 2015 para 2016, mas os empregos caíram. Isto porque o ano passado mmuitos investimentos foram expansões ou projetos na indústria, áreas que empregam menos gente. Em 2015 registara-se a criação de 3500


600
novos empregos na fábrica em Santa Maria da Feira da norte-americana Amy’s Kitchen, o maior investimento estrangeiro em Portugal em número de trabalhadores. Seguiram-se os franceses da Faurecia e da Altran, que criaram, respectivamente, 400 e 200 novos postos de trabalho

170
postos de trabalho criados em 2016 por investidores japoneses, uma escalada face aos 20 empregos criados em 2015. Um dos investidores, disse o presidente do AICEP, Luís Castro Henriques, foi a empresa Howa Tramiko: faz estofos para automóveis e criará 70 novos empregos

900
empregos criados em Portugal pelos franceses. Os alemães investiram em 14 projetos em 2016, mas quem ganha em postos de trabalho são os franceses com apenas oito projetos em desenvolvimento

As seis grandes recomendações do inquérito

O Inquérito para a Atratividade da EY não mostra apenas 
os investimentos feitos 
em 2016 e o que se espera 
para os próximos anos. 
A consultora fez uma ronda por empresas e instituições espalhadas pelo país para saber o que gostavam de mudar em Portugal e o que sugerem que se faça para melhorar o país e atrair mais investimento estrangeiro. 
O resultado são estas seis recomendações.

A marca Portugal
O programa de ajustamento financeiro isolou o país e levou muitos investidores a fugir, mas desde que a troika se foi embora Portugal começou a recuperar espaço na Europa e no mundo, agora como país sofisticado e inovador. Neste momento, é considerado um bom destino para turismo, para viver e para investir, mas pode ser mais. Os investidores que ainda não estão no país conhecem pouco da história e das vantagens de investir em território luso. Esta informação tem de lhes chegar. Por isso, deve haver um investimento cada vez maior na divulgação da marca Portugal, que deve partir de entidades públicas e privadas. A EY sugere mesmo que se crie um clube de embaixadores do país que mostrem lá fora o que Portugal tem de bom.

Apostar nos 
centros de serviços
Os centros de serviços ou de apoio tecnológico são uma espécie de call center especializado que dão apoio técnico aos clientes das marcas em todo o mundo e não só no país onde estão instalados. Como investimento, distinguem-se da indústria por criarem mais postos de trabalho e por serem empregos tecnicamente qualificados. Por isso, a EY considera que os agentes políticos deviam tentar atrair mais projetos destes para Portugal, principalmente para cidades do interior.

Talento 
traz investimento
As competências técnicas dos trabalhadores portugueses são cada vez mais exaltadas pelos investidores estrangeiros e vistas como uma vantagem competitiva e decisiva para investirem no nosso país. Para que esta vantagem não acabe, é preciso continuar a apostar na educação, nas áreas de engenharia, tecnologia da informação, mas também no ensino de línguas estrangeiras e até na formação contínua dos seus empregados.

Capacidade 
de adaptação
Os agentes políticos têm 
de ser capazes de mostrar 
que Portugal é um país inovador que se adapta à evolução da sociedade e do mercado de trabalho e, por isso, devem rever alguns códigos e regimes, nomeadamente a lei do trabalho — que ainda é pouco flexível — e também os incentivos fiscais dados às empresas. Deviam ainda melhorar a regulação das instituições financeiras de modo a que seja mais fácil financiar os negócios, principalmente os das startups.

Comparar Portugal 
com outros
Os investidores sugerem que os agentes políticos definam um benchmark onde se mostre quais os países que Portugal quer superar. Isto é visto como uma ferramenta que pode ajudar a tomar a decisão de investir ou não em Portugal. Além disso, sugerem ainda que se estenda o regime de benefícios fiscais à criação de emprego.

Simplificar
Os regulamentos e os impostos são vistos pelos investidores como complexos. Na verdade, diz o estudo, “os investidores entrevistados queixaram-se mais da complexidade do sistema de impostos do que das taxas que tinham de pagar”. Assim, uma das sugestões passa por definir um quadro fiscal estável para a tributação das empresas, com um horizonte mínimo de cinco anos. Outra sugestão refere-se à simplificação dos processos, tornando-os mais rápidos e reduzindo os custos administrativos.

Textos originalmente publicados no Expresso Economia de 15 de julho de 2017