Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Diferenciar para competir: o guia para a sobrevivência das PME

5º “Encontro Fora da Caixa” foi em Leiria. Os casos de sucesso da região foram ponto de partida quando muitas empresas tentam encontrar lugar num mundo cada vez mais global

Resiliência. Foi uma palavra repetida muitas vezes ao longo da conferência que marcou o quinto “Encontro Fora da Caixa” por empresários e académicos para se referirem à região de Leiria e à forma como as suas empresas, em muitos casos, souberam reagir à crise financeira para se manterem fortes e geradoras de emprego. Falta agora aproveitar as bases sólidas já estabelecidas para dar o salto para o próximo nível, com um repto sempre presente: deixem-nos trabalhar.
Tudo isto (e mais) esteve presente na montra principal do certame organizado pela Caixa Geral de Depósitos, com o apoio do Expresso, que tem percorrido Portugal para ir ao encontro das pessoas que fazem o país mexer e dar-lhes um palco para discutir as suas preocupações e expectativas. Desta feita, sob o mote “PME: Diferenciação rumo à competitividade”, a cidade do Lis foi a eleita por se tratar do centro nevrálgico de uma área territorial onde os bons exemplos são vários. “Uma região muito variada em que cada uma das partes é naturalmente competitiva”, lembrou o economista José Manuel Félix Ribeiro, com destaque para a importância do trabalho desenvolvido pelo Instituto Politécnico de Leiria.

“Acho que estamos no bom caminho”, atirou António Bernardo, perante o praticamente lotado teatro José Lúcio da Silva. O líder dos consultores de estratégia Roland Berger em Portugal apontou para a taxa de desemprego de 6,5% (em comparação com os 10% do resto do país) e o crescimento de 37% das exportações entre 2011 e 2016 (por oposição a 17% em Portugal) na região como indicadores de “uma resposta muito positiva aos anos da crise.” Mas não se enganem, nem tudo vai bem no reino da Dinamarca, e o responsável acredita que a “inovação é o calcanhar de Aquiles do investimento na região”, onde ainda se verifica um “certo desalinhamento com os fatores de desenvolvimento de futuro.”

É o processo de digitalização que, perante o advento da indústria 4.0, urge acentuar para que estas empresas (e as portuguesas no geral) estejam preparadas para os desafios que se avizinham. “Na nossa região estamos praticamente com pleno emprego e podemos é sofrer com falta de pessoas”, revelou Jorge Manuel Cordeiro Santos. Para o presidente da NERLEI, a Associação Empresarial da Região de Leiria, uma questão essencial a resolver é a da “capitalização das empresas”, campo onde o programa Capitalizar do Governo pode ser uma “iniciativa importante.” Devem ser também criados “incentivos” no sentido de “haver mais capitais próprios nas empresas.” Na sua opinião ainda “não temos um país alinhado para as empresas”, o que pede uma “iniciativa que junte todos os ministérios”, num campo onde as “finanças não devem ser o inimigo dos empresários, mas sim um aliado.”

O empresário falava numa edição especial do programa da SIC Notícias, “Negócios da Semana”, que foi gravada como parte deste encontro com a apresentação do diretor-adjunto de informação do canal, José Gomes Ferreira. Durante a conversa, Paulo Macedo, presidente da comissão executiva da CGD, deixou a opinião de que “as estruturas das empresas são mais profissionais” e que, “com o aumento de informação” prestada, a sua instituição tem de (e quer) ser “líder nas PME. Entre os convidados estava também Jorge Marques dos Santos, o presidente da Agência para a Competitividade e Inovação, o IAPMEI. Responsável pela análise das candidaturas aos fundos comunitários do Portugal 2020, revelou que este quadro, “em termos de candidaturas está a ser o dobro do QREN em igual período” e que “globalmente está a correr a muito bom ritmo.”

Cultura mais especializada
Caminho que importa ser trilhado em conjunto e não individualmente, porque só assim as empresas conseguem partilhar os recursos e ferramentas necessários para fazer face ao mercado global, “que não é já aqui ao lado.” Daí que tenham reconhecido 20 clusters de competitividade de diferentes sectores. Para dar mais proximidade neste campo (e noutros de ligação ao Estado e apoios), o IAPMEI lançou o Espaço Empresa, projeto-piloto que vai começar pelo NERLEI, como balcão único para resolução de questões. Apesar das dúvidas levantadas por José Gomes Ferreira, Jorge Marques dos Santos acredita que se não for rumo a estas metas, “o país não progride.”

Rui Brogueira, presidente da RESPOL (que produz derivados de resina) falou como um dos responsáveis pelo maior investimento privado português no estrangeiro — a compra em 2013 na Finlândia da maior biorrefinaria do mundo — e vincou que, além de todos os restantes fatores de diferenciação, “temos que cuidar melhor dos nossos produtos exógenos” até porque existe “material suficiente” para soluções inovadoras de futuro. Com obstáculos reconhecidos. Para o administrador da EROFIO (empresa do sector dos termoplásticos), Manuel Novo, “as coisas não estão melhores” e “continuamos a ver mais do mesmo em vários aspetos.” Resta trabalhar para que haja “uma cultura de empresa mais especializada e com o equipamento que nos permita ser mais competitivos”, bem como “um esforço” para integrar com outra eficiência os “talentos do ensino superior.” Porque, “o complicado não é fazer o investimento, é rentabilizá-lo.” Como lembrou o presidente do conselho de administração da CGD, Emílio Rui Vilar, a “competitividade é uma responsabilidade tanto coletiva como individual. Começa no Estado, passa pela sociedade civil e acaba na pessoa.”

Números

23
mil PME já se candidataram 
aos incentivos do Portugal 2020

75,2
por cento é valor das exportações para países dentro do espaço da União Europeia

20
clusters de competitividade foram criados pelo IAPMEI 
para agregar empresas 
dos respetivos sectores

Discurso Direto

“O crédito mudou muito da habitação para outros campos mais sustentáveis, sectores que têm demonstrado dinamismo e que são 
a base das exportações. Temos as taxas de juro no nível mais baixo 
dos últimos dez anos”
Paulo Macedo
Presidente da comissão 
executiva da CGD


“Globalmente o Portugal 2020 está a correr a muito bom ritmo e isso vai arrastar consigo o resto da economia. Os projetos são analisados pela sua natureza. Queremos cada vez mais ser reconhecidos como 
a casa das empresas”
Jorge Marques dos Santos
Presidente do IAPMEI



“A desalavancagem abrupta a que foi sujeita a banca também nos afetou muito. As empresas ainda esbarram na burocracia do Ministério das Finanças e temos de ajudar a recuperar esses negócios mas, mais importante, trabalhar para prevenir”
Jorge Manuel Cordeiro Santos
Presidente do NERLEI


“Exige muita formação e bons quadros técnicos para rentabilizarmos os equipamentos que adquirimos. Temos 
de olhar mais para 
os clientes que temos, em vez de estar sempre à procura de novos. 
O mais importante 
é diversificar, não podemos entrar 
em grandes euforias”
Manuel Novo
Administrador da EROFIO

Os mitos das exportações

Numa das apresentações 
que marcou a tarde, 
o vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, Miguel Athayde Marques, procurou acabar 
com algumas ideias preconcebidas relativamente às exportações. Para 
o académico, um 
dos mitos mais prevalecentes é que exportamos “produtos essencialmente tradicionais”, quando 
as máquinas, veículos e plásticos são os nossos produtos mais fortes. “Uma alteração estrutural”, como lhe chamou, que está a mudar a economia e que, com a ajuda de sectores como o turismo, faz com que Portugal já não tenha uma balança comercial deficitária. Por outro lado, ainda não diversificamos tanto quanto possível os nossos destinos de exportação. Importa também perceber que as vendas para o exterior não vão continuar a crescer e que o caminho deve ser de investimento em “pessoas, talento 
e inovação.” Até porque as exportações não são o único fator-chave 
da economia: 
“Temos que passar 
de exportador passivo 
a vendedor ativo.”

Textos publicados originalmente no Expresso Economia de 8 de julho de 2017