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Investimento na ferrovia em risco de derrapar

A modernização das infraestruturas ferroviárias e dos comboios portugueses está a gerar polémica, aumentando as dúvidas sobre a execução dos investimentos

FOTO ANTÓNIO PEDRO ferreira

Especialistas duvidam da capacidade de o Governo concretizar todos os investimentos previstos em 2019

As linhas ferroviárias que ligam Portugal a Espanha separam duas realidades tecnológicas muito diferentes que “nem os €2,703 mil milhões do Plano de Investimentos Ferroviários 2020 conseguirão aproximar”, segundo admitem várias fontes do sector contactadas pelo Expresso. Além disso, os especialistas duvidam da capacidade de o Governo executar os investimentos programados para os anos que concentram o maior volume de obras, como é o caso de 2019, em que o investimento total se aproxima dos €1000 milhões.

Do lado do Governo não são feitos comentários à dificuldade de concretização, e a equipa do Ministério do Planeamento e das Infraestruturas mantém a confiança na execução dos cronogramas das obras, que se prolongam até 2021. Mas os especialistas do sector ferroviário dizem que as perspetivas não são tranquilizantes, e há ex-presidentes da CP que admitem que será difícil executar em Portugal o investimento total pretendido pelo Governo sem recorrer a empresas estrangeiras que forneçam equipamento e realizem obras.

Arménio Matias, um “histórico” do sector ferroviário português, considera que os problemas de planeamento dos investimentos nacionais na ferrovia decorrem da fragilidade técnica dos organismos que programam aqueles investimentos em Portugal.

“Ao contrário de Espanha, que mantém uma estrutura técnica profissional altamente qualificada — na Direção-Geral do Fomento —, em Portugal foram encerradas e extintas ao longo de décadas as principais instituições que programavam os investimentos ferroviários, desde os Serviços Centrais do Caminho de Ferro até aos organismos como o Conselho Superior de Obras Públicas”, comenta Arménio Matias.

“Isso fez com que a maior parte dos projetos de investimento tenham sido decididos por quadros técnicos que seguem uma orientação mais centrada no aproveitamento dos fundos comunitários disponibilizados para as redes ferroviárias, sem tomarem decisões com grande coerência ao nível das verdadeiras necessidades de modernização da rede ferroviária portuguesa”, explica.

Comboios velhos

O resultado desta situação a nível ibérico é que atualmente Espanha tem uma rede ferroviária atualizada, além de dispor de um transporte de alta velocidade eficiente, sobretudo nas linhas Madrid-Barcelona e Madrid-Sevilha. Em termos gerais, Espanha tem comboios modernos, com os melhores padrões tecnológicos europeus, enquanto Portugal tem linhas ferroviárias decrépitas e comboios velhos, que em alguns casos circulam com mais de 50 anos, como reconheceu o ex-presidente da CP, Manuel Queiró.

João Cravinho, ex-ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território do Governo de António Guterres, considera que, “atualmente, o mais importante para o sector ferroviário português é saber o que Portugal deve fazer na próxima legislatura”, e para isso “será importante que a comissão nomeada pelo atual ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, para estudar a mobilidade no horizonte de 2030, apresente o seu relatório para dizer qual será o lugar da ferrovia portuguesa a nível nacional e internacional”.

Atrasos nas obras

A tradicional derrapagem nas obras em Portugal também piora esta realidade. Não faltam exemplos. As obras de modernização do troço Caldas-Meleças, na Linha do Oeste, não devem arrancar antes do segundo semestre de 2018, o que reflete um atraso de um ano e meio em relação ao cronograma inicial. Há mais de nove meses de derrapagem nas obras de modernização da Linha do Douro para a Régua. A eletrificação do troço da Linha do Douro entre Marco de Canavezes e Caíde, que devia estar operacional no final de 2016, só estará pronta no segundo semestre de 2017. O troço Évora-Évora Norte, na linha de mercadorias Évora-Caia, deveria ter sido terminado em junho, mas ainda está a ser ponderado um traçado alternativo — o que também acontece em relação ao traçado do troço principal Évora-Elvas...

Número

2,7

mil milhões de euros 
vão ser investidos 
na ferrovia até 2021, 
cabendo 48,4% 
deste montante 
a obras, 27,8% a estudos 
e projetos, 7,2% a materiais 
e 1,7% a expropriações