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O adjetivo que está a fazer subir os juros da dívida

Janet Yellen, presidente do FED (à direita) com Mario Draghi, presidente do BCE

David Stubbs

FED diz que são transitórios os fatores que a impedem de começar a emagrecer o seu gordo balanço. Bolsas continuam exuberantes

A Reserva Federal norte-americana (FED) adotou a palavra mágica “transitório”, similar ao “temporário” usado por Mario Draghi, no Fórum do Banco Central Europeu (BCE) em Sintra, que agitou no final de junho os mercados financeiros. A palavra surge em destaque nas atas da última reunião da FED realizada a 13 e 14 de junho, divulgadas esta semana.

O adjetivo está a servir para transmitir aos mercados a ideia de que a inflação baixa está a ser gerada por causas que mais tarde ou mais cedo vão desaparecer, permitindo à inflação subir sustentadamente para a meta de 2% da política monetária. Os decisores têm sobretudo em mente a volatilidade dos preços do petróleo, que, desde final de maio, estão abaixo de 50 dólares no que respeita ao barril WTI de referência nos EUA. Mas, se essa influência descendente for “transitória”, e as expectativas de inflação melhorarem, os banqueiros centrais em Washington sentir-se-ão livres para apertar ainda mais a política monetária. Ora, na última reunião, a equipa de Janet Yellen concordou que a inflação desceu dos 2% em maio em virtude de “fatores aparentemente transitórios”.

Mas nem todos estão seguros do que isso possa querer dizer quanto ao futuro próximo. Segundo as atas, “vários” dos participantes no comité de política monetária temem que essa trajetória descendente “possa persistir”. Ora, esta dúvida trava o ímpeto dos banqueiros centrais norte-americanos, que se dividem entre iniciar o emagrecimento do balanço “dentro de meses” — o que foi interpretado pelos analistas como implicando a decisão de aplicação do plano aprovado em junho já na reunião de setembro —, ou adiá-lo até final do ano.

Os mercados responderam ao uso do adjetivo “transitório” com um movimento altista dos juros da dívida pública. As yields dos títulos do Tesouro, no prazo de referência a 10 anos, subiram de 2,21%, antes da conclusão da reunião do comité de política monetária de junho, para perto de 2,4% no fecho de quinta-feira passada quando foram divulgadas as atas. Contudo, este aumento é quase ínfimo, em termos relativos, face ao disparo dos juros das obrigações alemãs em resposta ao que se tem passado com a mudança de retórica no BCE (ver caixa).

Exuberância bolsista 
estabilizou

Enquanto a FED não se decide por emagrecer os ativos do seu balanço, as bolsas em Nova Iorque têm aproveitado. O índice MSCI para as bolsas dos EUA registou ganhos de 8,4% no primeiro semestre. Alguns analistas falam de exuberância bolsista, apontando para a subida consecutiva nos últimos oito meses de um rácio usado como sinal de ‘bolha’, conhecido pela sigla inglesa CAPE e atualizado mensalmente pelo Nobel de Economia Robert Shiller. O rácio indica se o preço das ações do índice Standard & Poor’s 500 está caro ou não, em relação à média dos ganhos realizados nos últimos dez anos, ajustados pela inflação.

Esse múltiplo desceu marginalmente em junho, mas mantém-se acima de 30, um nível muito superior à média histórica de 20 nos últimos 50 anos. Segundo a atualização realizada esta semana, o múltiplo desceu de 30,06 no início de junho para 30,05 no começo de julho. O múltiplo de 30 é muito inferior ao pico de 44,2 registado aquando do final da bolha das dot-com em dezembro de 1999 e mais baixo do que o pico de 32,56 verificado em setembro de 1929, aquando do final da bolha que terminaria com a maior crise financeira do capitalismo. Mas está acima do pico de 27,55 em maio de 2007 na parte final da bolha que que conduziria à crise financeira de 2008.

Juros alemães disparam 138%

Em oito sessões, os juros das obrigações alemãs 
a 10 anos, que servem 
de referência na zona euro, mais do que duplicaram. Subiram de 0,24% em 
26 de junho, na véspera das palavras de Mario Draghi 
no Fórum do Banco 
Central Europeu (BCE) que incendiaram os mercados, para mais de 0,5% na quinta-feira passada depois de divulgadas as atas da última reunião do banco de 7 e 8 de junho. Um aumento de 138%. As atas revelaram que a equipa de Draghi discutiu a possibilidade de rever na comunicação da sua política monetária a referência à extensão (por mais tempo) e reforço (do volume mensal de compras) do programa de aquisição de ativos. O conhecimento desse pormenor — que não foi conhecido aquando da reunião — foi o suficiente para o disparo nos juros 
das obrigações alemãs, 
que chegaram a máximos de um ano e meio.