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Mudança na 'narrativa' do BCE provoca disparo dos juros da dívida no centro da zona euro

Declarações de Draghi em Sintra na semana passada e revelações nas atas da reunião do BCE de junho, divulgadas esta quinta-feira, geraram subidas de mais de 50% nos juros das obrigações da Alemanha, Holanda e França nas últimas oito sessões. Portugal regista subida ligeira e prémio de risco desceu

Jorge Nascimento Rodrigues

A mudança de 'narrativa' operada pelo Banco Central Europeu (BCE) nas últimas semanas gerou uma vaga de subidas dos juros (yields) das obrigações soberanas no prazo de referência no mercado secundário da dívida pública na zona euro.

Depois da agitação causada a 27 de junho por algumas frases proferidas por Mario Draghi, o presidente do BCE, no Fórum anual da organização em Sintra, foi a vez das atas da reunião de início de junho do banco em Tallinn, publicadas esta quinta-feira, fazerem uma revelação que acelerou o disparo dos juros.

Soube-se, agora, pelas atas, que a equipa de Draghi discutiu a eliminação na declaração sobre política monetária, que é publicada após as reuniões, da menção à possibilidade de expandir no tempo ou aumentar mensalmente o programa de compra de ativos. O comunicado oficial costuma sublinhar que "o Conselho do BCE está preparado para aumentar o volume e/ou a duração do programa [de compra de ativos]", caso se torne necessário. Essa menção não foi alterada na reunião na capital da Estónia. Considerou-se que a mexida na comunicação deve ser gradual.

Na altura, o BCE apenas eliminou do comunicado oficial a referência à possibilidade de taxas de juro mais baixas, se necessário, uma precaução que era mantida em declarações anteriores.

Quem não perde o momento em afirmar a necessidade de recuo na política expansionista do BCE é Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, o banco central alemão, e um dos membros influentes do BCE. Em declarações proferidas hoje, e citadas pela Reuters, o alemão disse que a mexida necessária "não se trata de uma travagem completa ... mas de tirar um pouco o pé do acelerador".

Subida de 137,5% para os juros alemães

Desde 26 de junho, registaram-se disparos acima de 50% para os juros das obrigações alemãs, holandesas e francesas no prazo a 10 anos, para referir três das mais importantes economias do centro da zona euro. As subidas do custo de financiamento no prazo de referência foram de 137,5% para a Alemanha, 68,9% para a Holanda e 50,8% para França.

Naquele período de oito sessões, entre os periféricos, a maior subida, em termos relativos, no prazo a 10 anos, ocorreu com os juros das obrigações irlandesas, que aumentaram 29%, passando de 0,76% para 0,98%.

Portugal registou a subida de juros mais pequena em termos relativos, apenas de 5,5%, e a Grécia foi mesmo exceção, pois os juros das suas obrigações no prazo de referência desceram 10 pontos base. A exceção grega resulta do efeito positivo prolongado do fecho do segundo exame ao resgate na última reunião do Eurogrupo e da expetativa dos investidores em relação a um regresso do Tesouro helénico ao mercado obrigacionista.

Prémio de risco da dívida portuguesa desceu

Os juros das Obrigações do Tesouro português, a 10 anos, subiram de 2,92% em 26 de junho para 3,08% no fecho de hoje. Contudo, como a subida dos juros para a dívida alemã foi muito maior, o prémio de risco para Portugal caiu 17 pontos base naquele período, fechando esta quinta-feira em 251 pontos base - o equivalente a um prémio de 2,51 pontos percentuais em relação ao custo da dívida germânica a 10 anos exigido pelos investidores.