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Custo da dívida alemã em máximo de 18 meses, depois de divulgação das atas do BCE

Os juros das obrigações alemãs a 10 anos, que servem de referência para a zona euro, dispararam esta quinta-feira para mais de 0,5% depois de conhecida a ata da reunião do início de junho, que aponta para a possibilidade de retirar da comunicação a menção à extensão ou reforço do QE do BCE

Jorge Nascimento Rodrigues

Os juros (yields) das obrigações alemãs a 10 anos subiram esta quinta-feira acima de 0,5% no mercado secundário da dívida pública depois de conhecida a ata da reunião de 7 e 8 de junho do Banco Central Europeu (BCE). Aqueles juros haviam fechado em 0,47% na sessão anterior.

A trajetória de subida já de vinha a verificar-se desde 27 de junho, quando frases de Mario Draghi no Fórum do BCE em Sintra foram interpretadas como apontando para uma discussão e decisão sobre uma futura descontinuação do programa de compra de ativos.

Desde o dia anterior às frases do presidente do BCE em Portugal, os juros das obrigações alemãs a 10 anos, que servem de referência na zona euro, já subiram 31 pontos base, 129% em termos relativos, no mercado secundário. Dispararam de 0,24% na véspera da intervenção de abertura pelo italiano no Fórum de Sintra, para 0,55% pelas 12h45 (hora de Portugal) de hoje, depois de conhecidas as atas.

As atas revelam que durante a reunião do início de junho, o BCE discutiu a possibilidade de rever na comunicação pública da sua política monetária a referência à possibilidade de extensão (por mais tempo) e reforço (do volume mensal de compras) do programa de aquisição de ativos, vulgo quantitative easing (QE).

No entanto, os banqueiros centrais repetem a necessidade de "cautela" nas alterações na orientação transmitida publicamente aos mercados financeiros.

A subida dos juros no mercado secundário da dívida soberana dos membros do euro ocorreu nitidamente a partir de 27 de junho, quando Draghi referiu que as causas da atual inflação abaixo da meta de 2% são "temporárias". A palavra "temporária", juntamente com a reafirmação de que o risco de deflação (quebra dos preços, inflação negativa) estava debelado e que as "forças reflacionistas" estavam em campo, provocou o movimento altista nos juros da dívida.

Juros das OT acima de 3%

Para Portugal, as yields nas Obrigações do Tesouro (OT) a 10 anos subiram no mercado secundário acima de 3% desde as declarações de Draghi no final de junho em Sintra, tendo, depois, descido abaixo desse limiar na terça e quarta-feira desta semana, para voltarem a subir acima de 3% esta quinta-feira.

Recorde-se que o Tesouro português pagou 2,851% no leilão de junho da linha obrigacionista a 10 anos. Agora, em julho, deverá regressar ao mercado obrigacionista com novos leilões. Caso volte a reabrir a linha a 10 anos em próximo leilão, restará ver se a taxa de colocação se situará abaixo ou acima do que pagou em junho.

A divulgação dos dados de compra de dívida no mercado secundário pelo BCE em junho mostra que o banco central continuou a reduzir o volume mensal de aquisições de obrigações portuguesas. No mês passado adquiriu 498 milhões de euros, menos seis milhões do que no mês anterior. Em janeiro, adquirira 688 milhões de euros.

'Perda' de €8 mil milhões

Desde abril do ano passado, que o BCE está a comprar mensalmente dívida portuguesa abaixo da regra da ‘chave de capital’, sublinhou a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) na apresentação de julho aos investidores internacionais.

Portugal regista mesmo o desvio negativo mais pronunciado entre os 18 membros do euro cuja dívida é abrangida pelo programa de compra. Um estudo do Commerzbank divulgado esta quinta-feira refere que a 'perda' acumulada, derivada da compra mensal abaixo da regra de capital desde abril de 2016, é de mais de €8 mil milhões. A maior nos 11 membros do euro que registam desvios negativos.

Em virtude da proximidade ao teto de 33% para o total de dívida que o BCE pode ter na sua carteira (juntando as compras ao abrigo do programa em curso com as aquisições no âmbito do programa SMP de 2010 a 2012), é provável que o banco central continue e reduzir as compras de obrigações portuguesas no mercado secundário nos próximos três meses.