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“Estamos metidos num grande sarilho”

Este era um dos avisos mais repetidos por Medina Carreira, o advogado de profissão que foi ministro das Finanças após o 25 de abril e chegou a estrela de televisão na última década, graças ao estilo desassombrado com que tentava alertar os portugueses para os desafios económicos do país. Morreu ontem, aos 86 anos, num hospital de Lisboa.

Trabalhou, escreveu e investigou até ao fim da sua vida, sobretudo em torno da economia portuguesa que não cresce e do endividamento do país que não para de subir. Ainda nas últimas semanas, telefonara para o Expresso a querer saber mais sobre uns números que haviam saído numa das últimas edições, como sempre ligava aos seus amigos e conhecidos, sempre atento aos números e gráficos que o podiam ajudar a melhor explicar aos portugueses o “sarilho” em que estavam metidos.

Medina Carreira não perdia tempo com vírgulas nem conceitos económicos mais rebuscados como os multiplicadores, o saldo ajustado do ciclo ou o PIB potencial que podiam desviar a população do essencial. A linguagem era a mais simples possível para chegar ao maior número de pessoas: um défice orçamental de 10%, por exemplo, significava que os portugueses tinham pedido emprestado 10 porque estavam a gastar 110, mas só conseguiam produzir 100.

Os números eram todos redondos para melhor clarificar a “tendência de endividamento galopante” do Estado: A despesa pública está a descer? Quantos milhões pretende o Estado gastar? E a economia está a crescer? Quantos milhões consegue a economia gerar de riqueza para suportar este Estado Social? Estas eram as perguntas que todos os anos fazia quando saía mais um Orçamento do Estado do ministério das Finanças.

Para o fiscalista que foi subsecretário do Orçamento no executivo provisório de Pinheiro de Azevedo (1975/76) e ministro das Finanças nos governos de Mário Soares (1976/78), o problema do pós-25 de abril residiu sempre nesta impossível aritmética entre aquilo que a economia consegue produzir e aquilo que o Estado promete gastar. “O que derrotou o Estado Novo foi a guerra colonial. Aquilo que eu acho que vai derrotar a democracia de 1976 é a economia porque esta economia não sustenta tanta despesa pública”, disse em várias ocasiões. “A democracia não vai sobreviver a tanta gatunagem”, também repetia.

Para Medina Carreira o problema era a justiça: “qualquer pessoa que tenha a tentação de corromper ou ser corrompido tem 99% de hipóteses de não ser apanhado”. Outro problema era a “intrujice” do ensino: “As Novas Oportunidades são uma lástima estatística para enganar a OCDE”. Mas o seu principal foco era a irresponsabilidade dos políticos e dos governos que não admitiam perante os seus eleitores já não ter dinheiro para lhes continuar a pagar tantas benesses. “São uns verdadeiros aldrabões”, resumiu o advogado que chegou a propor a redução do número de deputados da Assembleia da República: “Se saíssem 100, não se perdia nada”.

O estilo de Medina Carreira valeu-lhe uma legião de críticos que não lhe perdoavam, sobretudo, quando avisava que o Estado não ia ter como pagar os salários e pensões. Chamaram-lhe “Cassandra catastrofista”, “paladino da desgraça”, “velho do Restelo” ou “porta-voz da austeridade”. Mas foi este mesmo estilo que também lhe trouxe uma legião de fãs, sobretudo entre as gerações mais novas, que costumavam comentar as suas melhores tiradas da televisão nas redes sociais.

Nos últimos anos, chegou mesmo a circular uma petição pública por um governo de iniciativa presidencial liderado por Medina Carreira, o mesmo que declinou concorrer à presidência da República ou formar um novo partido político: “Já duas ou três pessoas me convidaram… Mas eu disse que casas de mulheres de má vida já há muitas. Mais uma para quê?”.

Da sua passagem pelo governo, o que mais lhe custou foram os conselhos de ministros: “Detesto reuniões, de condóminos só fui a uma na vida, acabei logo com aquilo. Quatro, cinco horas numa sala, pessoas a pedir dinheiro, outras a divagar, a mais pequena coisa motiva uma intervenção de um quarto de hora, e nunca se fica por aí, porque há logo outro que diz a mesma coisa por palavras diferentes. Um horror”, disse em entrevista.

Para Medina Carreira, a solução do país não estava nele, mas na capacidade dos partidos políticos em atraírem pessoas livres, inteligentes e com futuro.