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Solar e biomassa. O próximo passo das renováveis

No debate que se seguiu à apresentação do estudo da BP falou-se do futuro da energia em Portugal e no mundo

Texto: Ana Baptista; Infografia: Xolitos

Quando se olha para o gráfico das renováveis instaladas em Portugal — sem contar com as barragens — a maior parte, cerca de 5,3 GW, são eólicas. O solar e a biomassa são ainda fatias fininhas e que só começaram a crescer nos últimos anos. Aliás, no conjunto das fontes renováveis usadas para produzir eletricidade, as eólicas representam 22% e o solar e a biomassa representam apenas 1% e 5%, respetivamente. É por isso que, para alguns especialistas — e até para o Governo —, é preciso começar a investir mais noutros tipos de renováveis, principalmente em centrais solares e de biomassa.

“Infelizmente exagerámos nas eólicas. Não é preciso fazer mais, mas sim desenvolver o solar e a biomassa”, disse o ex-ministro da Indústria e da Energia Luís Mira Amaral na apresentação do BP Statistical Review of World Energy 2017, que decorreu na terça-feira em Oeiras.

As razões são óbvias, notou o especialista em energia. “Temos um excesso de eólicas que está a roubar a oportunidade ao solar, que até tinha um potencial muito maior do que o vento em Portugal. O sol dá para produzir nas horas de maior consumo [durante o dia], ou seja, não está a produzir em contraciclo. O vento vem mais quando estamos a dormir [quando há menos consumo]”, explicou. Além disso, disse o secretário-geral da Associação Portuguesa das Empresas Petrolíferas (Apetro), António Comprido — que também esteve na sessão de apresentação do estudo da BP (ver principais conclusões na infografia ao lado) — “é preciso começar a produzir onde o sol é abundante. Não faz sentido um dos maiores produtores ser a Alemanha”.

Já a biomassa, acrescentou ainda Mira Amaral, “tem sido negligenciada e esquecida pelas políticas energéticas”, mas é uma fonte que não é intermitente como o solar e o eólico e, além disso, o seu uso pode contribuir para a limpeza das florestas e a prevenção dos fogos. O tema não podia ser mais oportuno depois do incêndio de Pedrógão Grande que matou 64 pessoas, feriu 200 e destruiu cerca de 53 mil hectares de floresta, o equivalente a quase 53 mil campos de futebol (assumindo as dimensões 90X120). “Vejo o meu país a arder todos os anos e oiço que as centrais de biomassa não são rentáveis, e como cidadão pergunto se o que se gasta depois dos fogos não seria menos se se apostasse em centrais de biomassa”, disse António Comprido.

Projetos avançam
O secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, que encerrou a conferência, assegurou que o Governo está empenhado em desenvolver estas duas tecnologias. “A aposta agora é no solar. É este o caminho a seguir. Temos já 500 MW de projetos aprovados e sem subsídios do Estado e muito em breve será inaugurado o primeiro desses parques”, adiantou. Porque, “o ano passado estivemos quatro dias a funcionar a renováveis e se tivéssemos mais solar seriam ainda mais dias”, salientou.

E na biomassa, acrescentou o governante, vai avançar já a construção de três centrais — Fundão, Viseu e Vila Nova de Famalicão — sendo que a de Vila Nova de Famalicão fica pronta em julho. Além disso, acrescentou, foi aprovado um novo regime “mais ágil” para a instalação de centrais de biomassa em Portugal, no qual os municípios são os promotores dos projetos, podendo escolher privados para fazer o investimento. Contudo, Seguro Sanches descartou o oportunismo do incêndio de Pedrógão Grande no que toca à biomassa, lembrando que o novo regime foi aprovado “há três semanas” — muito antes da tragédia de Pedrógão Grande — e que já fazia parte da agenda energética do Governo.

Artigo e infografia originalmente publicados no Expresso Economia de 1 de julho de 2017

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    O mundo da energia está a mudar. Usam-se menos combustíveis poluentes, há menos consumo, menos emissões de CO2 e um empenho global nas energias limpas. Mas está tudo “a acontecer de forma muita lenta”, disse o economista-chefe de Energia da BP, Paul Appleby. O especialista esteve em Lisboa para a apresentação do BP Statistical Review of World Energy 2017, um estudo anual que mostra quase ao pormenor o se passou na energia no ano anterior e lança dados para o que será o futuro.