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“Não há uma varinha mágica para produzir mais barato”

Paul Appleby diz que os preços do petróleo podem subir quando o excesso de stocks começar a acabar. 
Mas ressalva que é muito difícil prever se será taxativamente assim

Nuno Botelho

O mundo da energia está a mudar. Usam-se menos combustíveis poluentes, há menos consumo, menos emissões de CO2 e um empenho global nas energias limpas. Mas está tudo “a acontecer de forma muita lenta”, disse o economista-chefe de Energia da BP, Paul Appleby. O especialista esteve em Lisboa para a apresentação do BP Statistical Review of World Energy 2017, um estudo anual que mostra quase ao pormenor o se passou na energia no ano anterior e lança dados para o que será o futuro.

Ana Baptista

Qual foi o maior acontecimento de 2016?
Provavelmente, o declínio da produção e do consumo de carvão. Foi a maior queda na produção que alguma vez vimos.

E foi só por causa da transição para as energias limpas?
Parte tem que ver com uma alteração real do comportamento, mas em 2016 houve alguns acontecimentos que proporcionaram essa quebra histórica. Nos EUA havia um excesso de gás natural barato e no Reino Unido aconteceu algo de muito interessante [ver dados na infografia ao lado]. As empresas têm um preço-base que pagam pelo carbono que emitem e que é de 20 euros por tonelada, ou seja, mais elevado do que os cinco euros pagos na União Europeia. Foi uma lei que entrou em vigor em 2015 e que teve impacto em 2016 e fez as empresas trocar o carvão pelo gás natural.

Defende que o preço do carbono deve ser alto?
Há já uns anos que a BP defende que só se o carbono tiver um preço é que se consegue cortar no consumo de carvão e, assim, controlar as emissões de CO2. E há cada vez mais especialistas a dizer o mesmo. Agora, o valor tem de ser decidido pelos governos. O que se passou no Reino Unido pode é ser visto como um exemplo do valor que se pode aplicar para ter um impacto real.

Além do carvão houve outros acontecimentos de relevo no ano passado que antecipam mudanças ainda maiores no mundo da energia. Mas parece que não se sabe bem quando vão acontecer…
O ritmo muda quase sem aviso. Não dá para fazer previsões. Tem muito que ver com tecnologia e ela pode surpreender-nos. Mas também tem muito que ver com as escolhas das pessoas e isso é muito difícil de prever. O que sabemos é que está a acontecer algo de muito importante, mas está a acontecer de forma muita lenta.

Por exemplo, há uma estagnação no consumo de energia primária. Para onde caminhamos?
Acreditamos que o consumo vai subir, mas não sabemos se já em 2017. A China contribuirá para isso porque, em 2016, o consumo foi muito mais fraco do que em anos anteriores, mas espera-se que volte a subir quando a economia melhorar e as indústrias do aço e do cimento, que consomem muita energia, começarem a recuperar.

É preocupante que haja um consumo tão baixo?
Só por si não é mau e até é bom para as emissões de carbono que o ano passado voltaram a crescer apenas 0,1% e, portanto, também estão estagnadas. O que é preocupante é que ainda há 1,2 mil milhões de pessoas que não têm acesso à energia e vai ser um desafio conseguir isso sem aumentar o consumo.

Como se consegue isso?
Uma das formas é através da eficiência energética. Nos países da OCDE, o consumo de eletricidade não cresceu praticamente nada, e a nossa perceção é de que isso tem que ver com lâmpadas LED e eletrodomésticos mais eficientes. Ou seja, conseguimos melhorar a economia sem aumentar o consumo de eletricidade. E depois temos cada vez mais eletricidade a ser produzida por renováveis e gás natural e isso vai crescer ainda mais.

Do que se passou em 2016 e deverá manter-se ainda durante algum tempo, o que é mais relevante para os consumidores?
Saber que existem elevados stocks de petróleo, de gás natural e de carvão que têm de ser escoados e que, por isso, não é de esperar que os preços subam no curto ou no médio prazo. Por outro lado, a descarbonização tem custos que são subsidiados e têm impacto nos consumidores. Contudo, a expectativa é de que o desenvolvimento da tecnologia faça esses subsídios descer e, consequentemente, descer os preços para os consumidores.

Não sobem para já os preços, mas também não vão descer…
Não consigo pensar noutra forma de os preços descerem sem ser o Governo a dar apoios ou a baixar os impostos. Isso é muito pouco provável, ainda mais tendo em conta as restrições económicas que existem atualmente. Não há nenhuma varinha mágica para, de repente, produzirmos energia mais barata para os consumidores. Temos de ser pacientes e esperar que a tecnologia reduza os custos dos investimentos.

Ou seja, para os consumidores, para já, fica tudo na mesma...
Praticamente sim, porque as mudanças que estão a existir são cumulativas e não é possível prever em que ano acontecerão. Depende muito do desenvolvimento da tecnologia, principalmente nas renováveis.

E no geral, o que podemos esperar para 2017?
O crescimento das renováveis vai continuar e o carvão vai continuar a cair ou a crescer muito pouco. O petróleo deve continuar a crescer, por causa dos preços baixos, mas temos de ver se será muito ou pouco. E no gás natural, esperamos que seja um ano de forte crescimento do Gás Natural Liquefeito. Mas há uma grande parte do mercado do qual não fazemos ideia do que vai acontecer e temos de esperar para ver.

O consumo de petróleo cresceu em 2016. Parece que voltamos sempre ao petróleo…
Há sectores onde não há grande alternativa, como nos transportes.

Só nos carros ligeiros…
Sim, mas esses são apenas 20% do consumo. Os navios, os camiões e comboios, e os aviões representam muito mais. Claro que os camiões e os comboios podem andar a gás natural ou eletricidade, mas ainda são tecnologias caras.

E os preços do petróleo vão continuar baixos?
Não conseguimos prever. Temos um excesso de stocks e isso é que está a colocar o preço para baixo, ou seja, temos de ver quando é que esses stocks baixam, talvez na segunda metade do ano, e se isso acontecer então os preços podem subir. Mas podemos estar enganados.

É melhor para a economia mundial que os preços estejam altos ou baixos?
O que é preciso é que os preços estejam a níveis em que seja possível continuar a produzir e hoje, com preços de cerca de 45 dólares o barril, há alguns países que já não estão a conseguir manter a produção e estão a ter problemas económicos. A Venezuela é um exemplo disso.

Mas com preços baixos, os combustíveis descem…
Para os países consumidores é bom que os preços estejam baixos, mas se estiverem muito baixos durante muito tempo deixa de haver investimento, logo deixa de haver stocks e os preços aí vão subir e vão subir muito. O que seria mau.

O consumo de energia primária cresceu substancialmente em Portugal. Porquê?
Teve que ver com a energia hidroelétrica. 2015 foi um ano muito seco e em 2016 choveu mais.

Tem só que ver com o clima e não com melhorias da economia.
Exato. Por exemplo, o consumo de petróleo desceu em Portugal em 2016.

Do que conhece das políticas energéticas de Portugal, o que acha mais relevante?
As interligações são um tema importante. A União Europeia tem este sonho de ter um mercado único de energia, mas está a levar muito tempo e tudo o que Portugal fizer junto da UE nesse sentido será muito importante para que esse sonho se torne realidade.

Seria bom para o Reino Unido poder participar neste mercado único?
Sim, porque mesmo com o ‘Brexit’, o país continua no mesmo sítio e já existem ligações e espero que possamos manter alguma forma de ligação à Europa nesse sentido e partilhar energia.

A falta de estratégia energética dos EUA vai ter algum impacto?
Não devemos sobrestimar o papel do Presidente. Há políticas estatais e há empresas a fazer coisas. Não tem só que ver com aquilo que o Presidente decide.

Entrevista originalmente publicada no Expresso Economia de 1 de julho de 2017