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A revolução saiu à rua. Empresas familiares chegam-se à frente

No quarto “Encontro Fora da Caixa”, o panorama do tecido empresarial na mão de famílias esteve em foco, numa análise do que podemos esperar com as alterações da indústria 4.0

Numa das muitas cenas emblemáticas da saga “O Padrinho”, Michael Corleone lembrava o seu infeliz irmão Fredo para, em tradução literal, “nunca ir contra a família” (conselho que acabou por não cumprir, com consequências que não revelamos, caso nunca tenham visto o filme). A frase podia ser quase o slogan motivacional para muitas empresas familiares, embora à harmonia das ligações de sangue se tenha de juntar uma estrutura cada vez mais profissionalizada e a atenção a um ecossistema em constante mutação. No final de contas, ainda é de uma componente essencial do tecido económico que falamos e que muito se discutiu esta semana em Braga.

O auditório VITA na cidade minhota foi palco do quarto “Encontro Fora da Caixa”, subordinado, desta feita, ao tema “A indústria 4.0 na dinâmica das empresas familiares.” Organizado pela Caixa Geral de Depósitos, e com o apoio do Expresso, o certame contou com muitos empresários da “região mais dinâmica do ponto de vista económico do país, assente nas empresas de cariz familiar” como apontou o membro da administração da CGD, José João Guilherme.

São mais de 40 mil as empresas do género no norte do país, de acordo com dados provisórios do estudo levado a cabo por Ana Paula Marques, da Universidade do Minho, que se propõe mapear a dispersão e impacto destas unidades no território. Mas, antes, importa esclarecer uma questão: “O que é que não são empresas familiares?” A investigadora sustenta que “ainda não há um consenso quanto à definição exata” e que isso acaba por contribuir para alguma confusão. Importa esclarecer quando “muitas têm problemas e dilemas como o de ter de estar sempre a acompanhar a inovação digital” e ainda possuem “estruturas de microempresas, pouco profissionalizadas e com mais dificuldade em atrair talento.”

No contexto de mudança, não reconhecer esta realidade, pode fazer a diferença. Daí a pertinência da discussão, garante o presidente da Comissão Executiva da CGD, Paulo Macedo, numa altura em que se vive o “clima económico mais elevado dos últimos anos”, o que se reflete na vontade de investimento, mas também “numa quebra de poupança.” Encontrar o equilíbrio será a solução para aproveitar a conjuntura.

Síndrome ADN
Claro que as empresas não deixam de ser familiares e vice-versa. Encontrar uma fórmula eficaz para lidar com essa dimensão é que significa o sucesso de negócios de gerações. José Miguel Coelho Lima, da terceira geração do Grupo Lameirinho, “por herança”, não tem dúvidas de que é uma componente essencial. Administrador de uma empresa “do mais tradicional”, do ramo do têxtil, até confessou perante a audiência que quando foi convidado não sabia se se sentia “fora da caixa ou fora do contexto.” O que não o impede de considerar que a “indústria 4.0 não é uma ameaça, mas sim um desafio. E não é uma revolução, antes um conjunto de processos que se estão a adaptar.”

Ideias que só podem resultar se as empresas familiares souberem enfrentar os riscos para manterem a sua posição maioritária na economia portuguesa. De acordo com Rafael de Lecea, da AESE Business School, é necessário desenvolver estruturas que recompensem o talento acima de tudo e com mecanismos para enfrentar os problemas inerentes a um grupo familiar. A sucessão é um deles. “Tem de ser bem definida e antecipadamente”, para evitar a noção de que “filho de empresário tem de ser bom empresário, a síndrome ADN”. Por outro lado, é importante “contar com sistemas para resolver os conflitos antes que ocorram”, preparar o crescimento e “deixar espaço para empresa e para a família.”

Já o economista José Manuel Félix Ribeiro não lhe chama indústria 4.0, porque acha “que é uma invenção alemã” (“desculpem-me a sinceridade”, disse) e recorda que “estes movimentos se estruturam sempre à volta de inovações radicais, coisas que não existiam antes.” Para estar preparado, importa aproximar as empresas dos “grandes centros de investigação”, como acontece no noroeste do país, que constitui um “verdadeiro ecossistema de inovação.” Um processo que se deve acentuar, como relembrou o CEO do Grupo DST, José Teixeira, para quem o “conhecimento é o fator X da competitividade, a grande solução.” No seu caso, esta ligação já é feita com a Universidade do Minho, com quem se associou no lançamento de uma “cátedra inovadora” para “percorrer o caminho até à indústria 4.0.” A “revolução”, como faz questão de lhe chamar, “já saiu à rua”.

Números

84
por cento da economia 
em Portugal é composta 
por empresas familiares, de acordo com os últimos dados

1,47
por cento foi em quanto 
a performance das empresas familiares foi superior às outras durante os anos da crise

2
milhões de euros ou menos é quanto faturam 92% das empresas na União Europeia, que não chegam também
 aos dez funcionários

Olhem para o exterior

O ex-ministro e atual comentador da SIC, Luís Marques Mendes, foi um dos convidados do quarto “Encontro Fora da Caixa” 
e em conversa com o diretor do jornal “Público”, David Diniz, fez questão de contextualizar a discussão: “Portugal está a viver essencialmente uma 
boa fase”. Beneficiamos 
de uma conjuntura favorável e elementos 
de “estabilidade política”, 
mas as boas notícias 
não nos podem deixar “anestesiados”, algo muito “perigoso, quando temos tantos desafios pela frente.” Disse que há ainda o “risco português” de “aproveitar folgas para deitar tudo a perder” com aumento de gastos ou investimentos sem os padrões necessários. “É um grande teste”, garante, e é aqui que as empresas familiares podem ter 
um papel importante. A recomendação que deixa é “virarem-se para o exterior” e aproveitar a globalização. Um processo que “reforçou a nossa centralidade” e que devia contribuir para acabar com o “mito da periferia.” Não há dúvidas, por isso, de que, “sem prejuízo do mercado interno”, a aposta tem de estar “no aumento contínuo das exportações.” Da parte de empresas e do Estado.

Discurso Direto

“Temos de olhar para 
a estrutura empresarial que temos em Portugal. As revoluções por vezes acontecem, e não mudam nada, mas 
nós estamos mesmo no meio desta. Vai obrigar-nos a pensar e a refletir sobre as mudanças que vamos viver, sobretudo numa economia 
(como a nossa) 
cada vez mais global”
Ana Paula Marques
Investigadora do Centro 
de Investigação em Ciências Sociais 
da Universidade do Minho


“Estamos perante 
um tema que deve ser discutido dentro das empresas e famílias. Nós, por exemplo, somos assumidamente uma empresa familiar. Mas o foco 
é a competência 
e o conhecimento. 
Se algum membro familiar o tiver, muito bem. Se não, fica 
só como acionista. Identificar é fácil, 
mas praticar é muito mais complicado”
José Teixeira
CEO do Grupo DST



“Estivemos aqui em Braga para analisar 
o futuro da economia 
e o que se passa 
na relação da Caixa com as empresas. Temos tido um crescimento económico muito assente 
nas exportações. 
Não temos dúvidas 
de que muitas das empresas que aqui estão vão fazer parte desse futuro. Têm capacidade para se afirmar, para inovar”
Paulo Macedo
Presidente da Comissão Executiva 
da Caixa Geral de Depósitos

Textos originalmente publicados no Expresso Economia de 1 de julho de 2017