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Negócios à antiga

“A nossa casa foi feita do palavra passa palavra!” A frase é de Avelino Apolónia, mas podia ser de qualquer um dos proprietários de algumas mercearias finas 
de norte a sul do país que ao longo dos anos têm contrariado o declínio do chamado comércio tradicional. São pequenos negócios cuja premissa é 
ter sempre qualidade e serviço, fugindo assim ao chavão redutor da crise tal como os seus clientes fogem à reduzida oferta das grandes superfícies

“Está de ananases!”, exclamou Eça ao atrapalhar-se nas palavras quando conheceu o ficcionado poeta Fradique Mendes. A ardência de agosto, verbalizada nesta metáfora de recorte queirosiano, justifica-se por estes dias se a frescura pedir um sorvete de ananás nos Gelados Caravela, em Torres Vedras. “É tudo feito ao natural, com leite, ovos, açúcar e frutos. O meu padrinho aprendeu a fazer gelados na Veneziana, com os italianos, nos Restauradores”, explica-nos com prontidão Maria Alice, que ali trabalha desde os 12 anos e que ao fim de seis décadas mantém uma energia invejável na explicação dos diversos produtos que vende. “Fomos os primeiros a trazer gelados para Torres Vedras, e também os iogurtes da Bom Dia e da Ocidental, que vinham em frasquinhos de vidro”, relembra aludindo à oferta diferenciadora para a época que o seu padrinho Abílio Joaquim Gonçalves trouxe para o comércio torriense depois de ter tido vários negócios em Lisboa. A temporada dos gelados vai desde a segunda metade da primavera até meio do outono, com sabores intemporais, à base de leite com baunilha, chocolate ou marrasquino (licor de cerejas), e os de água e fruta fresca com sabores a limão, laranja, morango, kiwi, manga e ananás dos Açores — “Quando está maduro!” —, adverte a dona Alice sublinhando o critério de escolha dos artigos existentes na loja.

Hoje, a oferta que vai muito além dos gelados e inclui, por exemplo, uma surpreendente gama de vinhos do Porto: “Há desde 1900 até 2014, vintages e ‘colheitas’ de todas as marcas”, indica Joaquim com a bengala, enquanto escolhe alguma fruta tocada que se vai acumulando nas caixas. Começou a trabalhar na Caravela com 22 anos, ainda era solteiro, e foi ali que conheceu Maria Alice. Casaram e tiveram dois filhos. Pedro, o mais novo, dá-lhes uma ajuda no negócio com o qual cresceu. A diversificação da oferta começou ainda no tempo do padrinho, refere Alice: “A primeira coisa a ter sucesso foram os enchidos, os queijos... Ele foi acrescentando uma coisa hoje, outra amanhã... Trazia os paios da terra dele, de Arganil, e sempre teve o cuidado de procurar qualidade.” Joaquim completa a explicação da esposa. “Tenho ali uma linguiça de Moura pendurada que o senhor já só faz para nós. Manda-me por correio com a fatura e a gente manda-lhe o dinheiro”, conclui denotando uma satisfação pessoal de quem faz negócios à moda antiga, com seriedade e rigor. A nossa conversa é interrompida por um cliente que pede “uma garrafinha de genebra”. Alice começa a detalhar o que tem para oferecer ao cliente além do destilado ancestral do gin, referindo algumas raridades como a genebra da Ideal, uma outra antiga em garrafa de barro, ou o licor anisado Évora. Uma das bebidas mais populares é o cup (vinho branco misturado com frutas diversas muito picadinhas), cuja receita o padrinho de Alice trouxe da Feira Popular e se tornou uma espécie de tradição da casa durante os festejos carnavalescos de Torres Vedras. “Este ano tivemos o melhor Carnaval de sempre”, diz Joaquim, formulando o desejo de que houvesse um Carnaval de três em três meses, pois as épocas altas do negócio são só o Natal e a Páscoa, apesar de fazerem questão de ter bons produtos todo o ano.

As quadras festivas são também sinónimo de pico de vendas para a Mercearia Tradicional em Benavente. No Natal, o vasto e raro sortido de mais de 120 variedades de bombons faz as delícias da clientela assídua que procura a simpatia de Carlos Santos e da esposa Rosa Maria, para adoçar a boca em família ou entrar no novo ano brindando com um dos muitos uísques, vinhos do Porto e licores que a loja tem para oferecer. No entanto, é na Páscoa que a montra se reveste de originalidade com uma coleção de mais de 60 tipos de amêndoa diferentes, que mobilizam a visita de clientes de paragens mais longínquas. “Na Páscoa aparece-me muita gente de fora e há casas boas deste tipo em Santarém”, conta-nos Carlos, com um misto de espanto e alguma modéstia pela procura que a sua casa tem, sobretudo na Páscoa e no Natal. A aposta no sortido diferenciado é a chave do negócio, aliada à forma tranquila como atende cada cliente e ao facto de saber aquilo que está a vender.

Mistura. A Mercearia Gomes esconde uma espécie de gruta de Ali Babá, com um rol de produtos incomuns selecionados difíceis de encontrar num raio de muitos quilómetros

Mistura. A Mercearia Gomes esconde uma espécie de gruta de Ali Babá, com um rol de produtos incomuns selecionados difíceis de encontrar num raio de muitos quilómetros

mário joão

Encaminhamo-nos para os bastidores da pequena loja onde uma estante repleta de caixas de cima a baixo guarda amêndoas clássicas que vão desde as do tipo francesa, de Milão, molar ou de Coimbra, até variedades com sabores a tiramisu, caramelo com flor de sal, creme de nougat ou framboesa. “Arranjei um fornecedor de bombons que é o mesmo há 40 anos e depois ele começou a ter amêndoas. Vêm de Itália, da Alemanha e de França”, explica-nos Carlos enquanto vai abrindo mais algumas caixas mostrando que as amêndoas de Páscoa podem ser um mundo à parte e atual... Numa linha com diversas variedades sem glúten há sabores como pera com ricotta, maçã verde, iogurte e frutos do bosque, a que se juntam algumas de sabor mais intenso com mirtilo, pistachio ou cereja, além dos confeitos de licor com formas diversas que vão desde manjericos, periquitos e até porquinhos. Outra possibilidade são as amêndoas cobertas com chocolates de origem como o México ou a ilha de Java. Apesar dos fornecedores já saberem aquilo que ele pretende, o senhor Carlos gosta de escolher os produtos que vende, mesmo que por vezes a agilidade já o impeça de fazer algumas pesquisas. Os dois filhos têm sido uma ajuda muito importante nos picos de vendas e mantêm a casa divulgada através das redes sociais.

Quando, em março de 1959, a porta da Mercearia Tradicional se abriu pela primeira vez, tinha a dupla função de mercearia e casa de tecidos, uma versatilidade que era habitual em muitos estabelecimentos distantes dos grandes centros urbanos. “Quem abriu isto foi o meu cunhado. Eu trabalhava em Lisboa, numa casa de pronto a vestir que era a Old England, na Rua Augusta”, e aponta para uma prateleira com artigos de mercearia seca que antes estava reservada às malhas. Quando tomou conta da loja começou lentamente a modificar a casa. “Já depois de estar aqui estabelecido havia uma casa em Lisboa onde eu ia sempre ver a montra deles, que era o Manuel Tavares.” A popular charcutaria na Rua da Betesga, ainda em funcionamento, serviu-lhe de inspiração para ter queijos e enchidos de qualidade, além de frutos secos de várias origens. “A amêndoa inteira vem do Norte, e se for palitada é de Espanha. Os figos são do Algarve, as uvas passas são do Chile, as ameixas de Elvas, e as sem caroço de França. Agora há muitas nozes e o pinhão é da zona de Alcácer do Sal”, e remata sabiamente dizendo que os melhores compradores de pinhão em Portugal são os italianos, apesar da fama que o país tem neste produto. “Procuro ter sempre o melhor. De queijos só tenho um fornecedor do Alentejo, e se eu gosto e os meus clientes gostam, eu mantenho.”

A eloquência com que Carlos Santos fala acerca dos produtos é semelhante à facilidade com que o senhor Joaquim da mercearia Gelados Caravela disserta acerca das variedades de castanhas que vende no outono: “Em outubro vem a ‘judia’ e a ‘martainha’, e depois vem a ‘longal’, que é mais miúda e que se mantém a par da ‘martainha’, sublinhando que prefere esta última por ser de calibre mais equilibrado. Nas cerejas, o conhecimento continua com a enumeração do calendário das colheitas, onde primeiro surge a de Resende e só depois a da Gardunha. As explicações são prontas e diretas, mas tanto Joaquim como Maria Alice revelam nostalgia por alguns frutos já desaparecidos, como o ‘pero camoês’ que era rijo, e os ‘peros amoreiros’ que eram amarelos por fora e branquinhos por dentro. No entanto, segundo Joaquim, ainda há espaço para ter alguma oferta diferenciada e saber aquilo que se compra, pois “quem nos engana uma vez já não engana a segunda”, assevera. “Pera pérola’ e ‘carapinheira’ tenho sempre, na época. Temos a ‘maçã Casanova’ de Alcobaça, e laranjas do Algarve, a da ‘baía’, a ‘Newhall’, a ‘Valencia Late’, e as ‘navelinas’. Pedro, o filho mais novo, acrescenta: “Muitas vezes, nas nozes, procuramos saber como é que foi a colheita e o secar das nozes.” E Maria Alice remata esboçando um sorriso confiante: “Se estiverem bem sequinhas não falha uma.”

Lojas vivas

Deixamos estas duas casas de feição pitoresca em Torres Vedras e Benavente para conhecer um estabelecimento secular situado junto ao famoso Mercado do Bolhão. A Sociedade Papelaria e Coloniais Lda. foi fundada em 1916 e é uma das charcutarias mais prestigiadas da Baixa do Porto. A designação que nos remete para o mundo ultramarino diz pouco do universo de iguarias regionais portuguesas que pontuam nas vitrinas, mas não deixa de espelhar a história desta casa que hoje todos conhecem pela expressão “Comer e chorar por mais”, inscrita no toldo da entrada. Fernando Barandas, sem betacismo no apelido, faz a cronologia do lugar inaugurado há 100 anos pelo avô Aníbal Barandas, e continuado pelo seu pai Fernando. A família é originária de Foz Côa e tem reminiscências no outro lado da fronteira, mas cedo o seu pai se estabeleceu no Porto continuando o negócio assente na venda grossista de material de papelaria para África em troca de produtos das colónias. “Era uma mercearia típica da época, mas com especiarias e as pimentas. Com o 25 de Abril deixámos de ter esses produtos coloniais e ficámos a ser uma mercearia como as outras: com o açúcar, o feijão o grão, etc.”

Ao recordar a evolução da casa, aponta aquele que foi o primeiro produto diferenciador há cerca de quarenta anos: “Fomos os primeiros a ter alheiras aqui na cidade do Porto. O meu pai fez uma parceria com as alheiras AMIL e durante dois, três anos éramos os únicos, e já vendíamos umas toneladas por mês. Depois das alheiras começámos a apostar nos produtos regionais. Eu e o meu pai começámos a fazer pesquisa. Fomos buscar o que era o melhor produto de Lamego, de Vinhais”. Fernando relembra os fins de semana que passava com o pai a ir para Mirandela e Bragança à procura de bons produtos até que uma reportagem sobre a casa publicada no “Comércio do Porto” em maio de 1993, onde o título sugestivo era “É de comer e chorar por mais...”, serviu de mote para a nova identificação de marketing adotada em 1994 e que em breve dará nome a uma linha de produtos selecionados. Fernando Barandas explica com entusiasmo o novo projeto que tem em mãos. “Este ano vai haver uma linha de fumeiro com esta marca, e depois compotas, azeites e queijos. A ideia é serem feitos em exclusivo para nós com a melhor qualidade.”

O queijo é encarado por aqui como um produto bandeira. “Trabalhamos com os terrinchos, os queijos de cabra transmontanos, os queijos de Serpa, de Nisa, o queijo de São Miguel, e o queijo de São Jorge.” Além destes, há os emblemáticos queijinhos de ovelha com o rótulo próprio da casa e que são provenientes de pequenos produtores das regiões de Celorico da Beira e de Seia. Chegam amanteigados para serem depois curados e ‘afinados’ por Fernando, em câmaras de cura próprias. Uma raridade no panorama nacional de comércio de queijos. O pão é outro caso sério, tendo direito a um cantinho exclusivo dentro da loja. “Todos os dias da semana temos uma origem diferente: à segunda-feira é Vinhais, à terça é Bragança, à quarta é Mirandela, à quinta é Foz Côa, à sexta é Favaios e Bragança também, e ao sábado Moncorvo. Vêm sempre broas, centeio, mistura, trigo, pães de dois quilos ou de quilo e meio.” A diversidade permite-lhe tornar a loja mais viva, reforça. “Assim, tenho sempre clientes diferentes e certinhos todos os dias, que gostam de produtos daquela região, porque não vem só o pão. Vêm os folares, as bolas, as súplicas e alguma doçaria também.”

O seu pai, Fernando Barandas, faleceu em 2014 com 94 anos, e foi uma figura presente no dia a dia da loja até ao fim. Estava sempre de fato, em pé, num canto da loja, a cumprimentar os clientes como que fazendo uma passagem de testemunho silenciosa para o filho. Em 2007, Fernando fechou o negócio que tinha em Lisboa para dar apoio a tempo inteiro ao pai. Comprou uma máquina de fechar embalagens a vácuo ao aperceber-se que os emigrantes compravam poucas coisas para levar devido ao transporte de avião. Em pouco tempo o investimento ficou pago, pois os clientes passaram a levar queijos e chouriços embalados no regresso a casa. Não esconde o orgulho de ter a loja a crescer há alguns anos em termos de vendas, mas sabe que em parte isso se deve ao boom turístico que a cidade atravessa. “O turismo é o que nos salva neste momento. Não digo que salve o país, mas salvou o Porto, porque 50 a 60% dos nossos clientes são estrangeiros. Na altura da Páscoa e do Natal, 90% do nosso negócio é com os clientes portugueses, mas no resto do ano é com os turistas.” Assegura que o serviço é fundamental para cativar o cliente. “Temos que ter pessoas que falem bem o inglês, o francês e o espanhol. Os clientes chegam aqui e gostam de ter a informação do produto, porque chegam à grande superfície e escolhem o que tem a embalagem mais bonita”, afiança, e dá um exemplo dessa falta de informação que muitas vezes as pessoas sentem na hora de escolher. “Há chouriços que são bons para assar, mas não servem para cozer. Há clientes que chegam aqui e perguntam qual é o melhor chouriço para o arroz de pato, por exemplo. E nós ainda perguntamos: quer mais picante, mais sabor a vinha d’alhos... E esta informação só se consegue com pessoal especializado e conhecedor, e no comércio tradicional”, afirma sem rodeios.

Versatilidade. Seriedade e rigor, aliados a uma oferta diferenciadora, são fundamentais para o sucesso das mercearias finas

Versatilidade. Seriedade e rigor, aliados a uma oferta diferenciadora, são fundamentais para o sucesso das mercearias finas

mário joão

A descoberta de novos produtos é permanente, e muitos deles entraram para o sortido devido à procura por parte dos clientes, como a cacholeira ou o chouriço de abóbora, enquanto outros têm clientela fiel e cada vez mais alargada, como são o caso do butelo e do chouriço azedo. Todas as quartas-feiras reúne os colaboradores para falarem e darem a sua opinião, e garante que todos têm carta branca para provarem os produtos. “Tenho uma equipa muito jovem e qualquer um deles vestiu a camisola e dedicam-se muito à casa.” Das suas três filhas, Fernando tem a esperança que uma delas esteja mais inclinada para continuar e avançar para a quarta geração da família à frente do negócio.

Em contraste com o fervor turístico da baixa portuense está a acalmia que habitualmente se vive na Comporta. A tranquilidade das praias e o ambiente pacato da localidade não faz imaginar que na Mercearia Gomes se esconde uma espécie de gruta de Ali Babá com um rol de produtos incomuns selecionados, e certamente difíceis de encontrar num raio de muitos quilómetros. Nas prateleiras bem apetrechadas de artigos desfilam frascos de sal de várias origens, especiarias do mundo, um vinagre Moira Alves Reserva, ou os molhos da gama de Jamie Oliver. Há também uma zona dedicada aos melhores champanhes e espumantes, e na parte dos congelados surgem vieiras, lagostas e carabineiros, que na época alta de verão também chegam à loja frescos, juntamente com ostras, lingueirão e lombos de salmão e atum.

O cliente tem sempre razão

E pensar que tudo começou com um chutney, o primeiro pedido incomum que fizeram a Carlos Gomes quando começou a ajudar a gerir o negócio da família. Faz parte da segunda geração à frente da casa que o pai recebeu para arrendar e explorar há cerca de 35 anos em jeito de indemnização quando se desvinculou da Atlantic Company, a atual Herdade da Comporta. “Ainda hoje pagamos a renda e trabalhamos aqui todos. O meu pai tem 81 anos e ainda trata da papelada com a minha mãe.” O irmão António trata da logística, enquanto ele se encarrega da loja. “Sempre vivi aqui. Nem acabei o 12º ano, fui aprendendo e aprendi muitas coisas. As maçãs que vinham feias eu dava-me ao trabalho de as lustrar. Fiz muitos serões aqui até às 4 da manhã para no outro dia as coisas estarem em condições. É preciso amor e dedicação naquilo que se faz.” A nossa visita por cada recanto da labiríntica loja é interrompida por uma colaboradora que lhe mostra uma embalagem de esparguete que uma cliente quer trocar. Carlos não hesita um segundo e diz que aquele fica para ele levar para casa, dando instruções para que seja aceite a devolução permitindo à senhora levar o artigo inicialmente pretendido. Antes de prosseguir a visita, diz: “Prefiro perder alguma coisa do que armar um conflito ou que o cliente saia insatisfeito.” É esse o lema da casa que tantos clientes exigentes tem conquistado. Não é segredo que nas imediações desta pacata localidade da costa alentejana fazem férias personalidades internacionais ligadas às artes ou à moda, além de algumas famílias de elite da região de Lisboa. Acerca dessa clientela mais exclusiva, Carlos diz apenas que para ele são clientes como os outros e que tenta satisfazer todos os pedidos, ainda que por vezes não seja possível atender a desejos de última hora, como por exemplo caviar. “Arranjo, mas demoro uma semana”, afirma enquanto cumprimenta um cliente que lhe devolve a simpatia com um irónico: “Como está, senhor ourives...” Carlos solta uma gargalhada, mas não acusa o toque pelo facto de ter vários artigos de preço elevado.

Outra particularidade da Mercearia Gomes reside na oferta de alguns produtos inusitados para um espaço que se perceciona como tendo um perfil gourmet. Carlos guia-nos por uma mesa repleta de especialidades regionais, como as empadas de pato, galinha, leitão, perdiz e javali, feitas nas Alcáçovas, e que disputam o apetite com a vasta doçaria composta por bolo real, bolo rançoso, tarte de requeijão, queijadas de pinhão, broas de batata-doce ou pupias. O contraste vem de cima: “Uma imagem de marca da casa desde sempre são os cestos pendurados no teto. As pessoas compram muito para piqueniques. Depois tenho mantas de Mértola e calçado da Dream Boots... Uma das coisas que a loja tem é estas misturas, e ser um bocadinho louca...” e, segundo diz, os artigos vendem muito bem, pois as pessoas gostam desta diversidade. Logo a seguir mostra-nos a sua última aquisição. Uma faca de chefe em aço e forjada à mão da autoria do artesão caldense Paulo Tuna. Está apreçada em €350 e certamente irá encontrar cliente.

Carlos Gomes assume com sinceridade que nunca sentiu a crise: “Há anos que são melhores, outros que são piores, mas anda tudo no mesmo registo.” A par da família desdobra-se em viagens para descobrir novos sabores, pois como refere o gosto é muito importante para fazer este tipo de negócio, e ele gosta de fazer coisas novas, como o próximo projeto que vai abrir em outubro num antigo celeiro ao lado da mercearia. “Vai chamar-se Gomes Casa de Vinhos e Petiscos, e o conceito é transferir alguns produtos para lá e ter pessoas da terra a cozinharem coisas simples, mas com sabor.” Em jeito de saída afirma: “O cliente está mais exigente, as pessoas querem experimentar coisas estrangeiras, mas não prescindem do produto nacional e há coisas com muita qualidade. Temos coisas muito boas em Portugal.”

Foi o mesmo perfil de cliente e a orientação para servir o melhor possível que fizeram Avelino Apolónia começar com uma mercearia de 104 m2 em Almancil até inaugurar em 2015 o seu terceiro supermercado em Lagoa após terem decorrido pouco mais de três décadas da abertura de portas em 1983. Hoje, os supermercados Apolónia são uma marca forte da região do Algarve e estão nos lugares cimeiros do ranking de satisfação dos clientes. A aventura começou com o regresso da família Apolónia do Canadá, onde esteve emigrada alguns anos. Avelino tinha trabalhado como cozinheiro numa empresa de catering canadiana e o plano era abrir um snack-bar. “Foi a minha mulher que insistiu para que fosse um minimercado. Ela tinha uns tios que tinham umas mercearias e disse-me que se fosse nesse ramo que me ajudava.” Avelino conhecia bem os produtos de qualidade que se vendiam lá fora, então contactou alguns importadores para abrir a casa com um sortido diferenciador do que havia na época. O facto de falar inglês ajudou muito a comunicar com os clientes estrangeiros que residem na região. “Os primeiros clientes foram um casal de estrangeiros que ainda hoje são meus clientes”, recorda. “Abrimos em março, eu e a minha mulher, e no fim do verão já éramos oito.” Comprou uma Toyota Hiace e vinha todos os 15 dias a Lisboa, buscar mercadoria. “Vendia muita comida para animais, que vinha no fundo da carrinha, depois trazia de tudo, molhos, massas, chocolates e os corn flakes, que ainda não havia aqui.” Paulo tinha então 15 anos e ajudava a fazer os verões. O crescimento foi sustentado e o sucesso foi obrigando a ampliações ao longo dos anos, sempre sem falhar no atendimento ao cliente, conforme recorda Avelino: “Passámos de 104 m2 para 280 m2, sem fechar um dia, e depois para 650 m2, e depois para 1000 m2, onde fechámos das oito ao meio-dia para alcatroar a entrada dos clientes.”

mário joão

Foi com esta última ampliação que a presença de Paulo na gestão da empresa foi reclamada pelo pai. “Fui estudar para Lisboa, trabalhei como engenheiro informático na Telecel e quando o meu pai fez um destes aumentos, isto estava a ficar um barco já muito grande, e apesar de gostar muito da profissão que tinha achei que tinha de ajudar. Não sou gestor, mas o nosso negócio tem muito a ver com a cultura, com a satisfação do cliente. O facto de ter vivido no Canadá deu-me uma perspetiva muito diferente porque é uma cultura de atendimento, de respeitar sempre o cliente, a forma como se é atendido...”, e elenca as dificuldades de gerir um negócio que aposta primeiro na qualidade em vez de apostar nos números. Atualmente são 450 colaboradores distribuídos entre as lojas de Almancil, Galé e Lagoa, além do centro de logística em Estoi. Paulo afirma que têm a maior oferta do género em Portugal. “São 25 mil referências em loja e 50 mil no sortido. Temos produtos que só são comprados por um cliente, mas se a rotação está garantida nós encomendamos.” Acerca dos preços praticados no estabelecimento, Paulo refere que não limitam a gama: “Temos vinho a um euro e pouco e de 10 mil euros. O cliente é que é o árbitro. Temos clientes que compram tudo na nossa loja e outros que compram só parte das coisas.”

A chamada “experiência Apolónia” tem como resultado visível o facto da loja de Lagoa, a maior das três, com 1750 m2 de área de exposição, ter esgotado três livros de elogios no primeiro ano de atividade: “São livros que as pessoas têm que pedir para escrever, pois não estão disponíveis”, enfatiza. Na charcutaria, a variedade impressiona pelos múltiplos tipos de fiambre e terrinas à disposição, enquanto no talho há diversos cortes de carne temperados com misturas exóticas de especiarias, o balcão do sushi tem uma qualidade invulgar para um takeaway, mas Paulo revela ser muito exigente neste capítulo, controlando pessoalmente a qualidade do peixe que é utilizado nas peças.

Os planos de expansão da marca são óbvios, uma vez que as solicitações por parte dos clientes para abrirem lojas noutras localizações são muitas. Em 2010 chegou a ser anunciada uma abertura na região de Lisboa, mas o projeto acabou por ser cancelado por parte do promotor imobiliário. Paulo Apolónia mostra-se assim cauteloso acerca de datas e futuras localizações. “Temos planos para abrir em Lisboa e no Porto, pois temos muitos clientes dessas duas zonas, mas antes disso vamos abrir em Lagos”, além de estar em marcha a deslocalização da loja de Almancil para uma nova área comercial ainda em construção.

A notoriedade da empresa já despertou o interesse de alguns fundos na aquisição dos espaços, e apesar das abordagens não terem sido consistentes Avelino Apolónia é perentório: “Mesmo que algum ficasse com o nosso tipo de supermercado, nunca ia ser o nosso supermercado. Eles iam cortar logo...”, e remata com a essência do negócio. “A nossa casa foi feita do palavra passa palavra. Até o meu filho vir eu nunca fiz publicidade. Tive a casa aberta 15 anos e nunca fiz publicidade em lado nenhum.” Os Supermercados Apolónia já estão noutra fase de crescimento, mas tal como os Gelados Caravela em Torres Vedras, a Mercearia Tradicional em Benavente, a Comer e chorar por mais, no Porto, e a Mercearia Gomes, na Comporta, são negócios familiares em que a orientação é servir com a melhor qualidade possível, e deixar que a mensagem passe entre clientes com a mesma segurança e fiabilidade com que as lojas vão passando entre gerações.