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MSF vive novo pesadelo. Agora no Gana

O projeto de referência The Exchange será concluído por uma construtora africana

D.R.

Construtora foi afastada da principal obra em África. Dívida no Qatar vale €347 milhões, 46% do total

Esmagada por uma dívida de €750 milhões, a MSF Engenharia sofreu novo revés no exterior. O pesadelo no Qatar, que a conduziu à beira do abismo, conhece uma nova versão, agora no Gana. A construtora foi afastada de uma das principais obras da sua carteira. Uma segunda empreitada está parada.

Há um ano, a Mabani Holdings, o braço imobiliário do conglomerado Forewin Group, adjudicou à MSF por 90 milhões de dólares (€81 milhões) um polo de negócios e residencial numa das principais avenidas de Acra. O projeto The Exchange combina torres residenciais (100 apartamentos) e escritórios, com um hotel da cadeia Radisson, um centro comercial (12.000 m2) e equipamentos desportivos. Mas percalços e atrasos na execução levaram o promotor a romper com a MSF, uma construtora em processo de viabilização e sem acesso a financiamento. A Mabani tomou conta do estaleiro, entregando a obra à sucursal do Group Five (África do Sul) para tentar que o complexo seja inaugurado em julho de 2018.

Há duas semanas, “os técnicos expatriados foram forçados a abandonar Acra e a regressar de urgência”, conta uma fonte ao Expresso. “O pessoal e fornecedores locais ficaram sem receber”, acrescenta. A MSF reconhece o conflito mas desmente a expulsão. A construtora diz que “pediu a rescisão do contrato por incumprimento do cliente”. No caso de não se chegar a acordo “caberá ao tribunal determinar as responsabilidades das partes” em confronto. E o que esteve na base do incumprimento? “As razões em concreto são discutidas apenas com o cliente”, responde a MSF.

Uma segunda empreitada no Gana — conceção e execução do terminal de contentores e edifícios de apoio no porto de Tema, na costa atlântica — é outro foco de tensão. A obra portuária (€68 milhões) está em modo de suspensão e o estaleiro já esteve bloqueado por operários e fornecedores, reivindicando pagamentos em atraso. A versão da MSF é diferente. O cliente “está com dificuldades pontuais em pagar as faturas vencidas, mas acreditamos que elas sejam passageiras”. A obra, do universo público e com financiamento garantido, “não está parada, nem a MSF suspendeu a execução”. Mas tudo indica que o desfecho seja a rescisão do contrato e a saída da construtora do Gana.

Estes conflitos replicam os incidentes que ditaram o colapso da MSF no Qatar, comprometendo uma carteira de €900 milhões.

Na altura, a MSF alegou que os percalços eram “reconhecidamente da responsabilidade dos clientes”. E se há “dívidas aos bancos locais, há também créditos sobre os clientes”. Ao contrário do Qatar, o Gana não é um mercado recente. A estreia aconteceu em 2006 com a reabilitação de estradas.

A banca portuguesa (€330 milhões) e sociedades do Qatar (€347 milhões) são os grandes blocos credores da MSF, de acordo com a dívida apurada no âmbito do Processo Especial de Revitalização (PER) apresentado há dois meses. A dívida total é de €750 milhões. O Novo Banco surge como o principal lesado (€163 milhões), beneficiando de penhores sobre equipamentos e ações da Indubel, o fabricante de betão do grupo. Seguem-se a CGD (€96,2 milhões), o BCP (€34 milhões), o Santander Totta (€17,2 milhões) e o Montepio (€6,2 milhões). A lista é gigantesca, por incluir uma extensa comunidade laboral externa de 785 nomes com créditos insignificantes e não reclamados. O Estado regista €3944 ao Fisco e €1,6 milhões à Segurança Social.

Na lista dos credores comuns, o que mais ressalta é a dimensão das dívidas a bancos de Qatar. O crédito reconhecido ao Qatar National Bank é de €144 milhões e ao Masraf Al Rayan de €62,2 milhões. Na lista surgem ainda duas sociedades detidas pela família Al-Mustafaw, a parceira local da MSF: a Qatar Building Company (€133 milhões) e a Qatar Contracting Group (€7,3 milhões).

Na apresentação do PER, Novo Banco e BCP manifestaram apoio à administração e abertura para “iniciarem negociações conducentes à revitalização”. A MSF confia que a aprovação do PER permita “dotar a empresa de meios financeiros” que assegure a sobrevivência.