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Investimento em construção está ao nível de 1980

Portugal investiu tanto em construção em 2016 como em 1980

Rui Ochôa

Séries longas do Banco de Portugal revelam que, descontando a inflação, houve um recuo de quase quatro décadas

“Addio, adieu, auf Wiedersehen, goodbye...” Desde o início do século, já desapareceu mais de metade do volume de investimento em construção na economia portuguesa. Segundo as séries longas agora divulgadas pelo Banco de Portugal, a chamada formação bruta de capital fixo (FBCF) em construção está atualmente nos €13,1 mil milhões, um mínimo ao nível do ano 1980, quando José Cid ganhou o festival da Eurovisão com este refrão que marcaria para sempre o arranque da televisão a cores no país.

De facto, é preciso recuar quase quatro décadas na história do país para encontrar um volume tão baixo de investimento em construção como aquele que a economia concretizou em 2016. Apesar dos sinais de retoma, a verdade é que este tipo de investimento não era tão baixo desde 1980, um ano marcado pelo Caso Camarate, o assassínio de John Lennon e pela vitória de Ronald Reagan sobre Jimmy Carter na corrida à Casa Branca.

A ilusão da inflação

As séries longas agora divulgadas pelo Banco de Portugal têm a vantagem não só de permitirem perspetivar a economia portuguesa ao longo de quatro décadas, mas também de descontarem a inflação que tantas vezes ilude uma análise ao longo de tanto tempo. Descontando a variação dos preços, os dados sobre o investimento são apresentados, não em valor (a preços correntes), mas em volume (preços constantes), permitindo comparar (a preços iguais) quanto se investia então e agora.

Segundo os dados do banco central, a FBCF em construção já caiu do céu ao inferno neste século XXI. Atingiu o pico máximo de €30,2 mil milhões em 2001 para depois colapsar até ao mínimo de €12,9 mil milhões em 2014. Desde então, conseguiu recuperar para €13,4 mil milhões em 2015, mas voltou a cair para 13,1 mil milhões em 2016.

O volume de investimento em construção que foi concretizado no ano passado é tão baixo face a anos anteriores que só consegue superar dois mínimos: os €12,9 milhões da crise de 2014 e os €13 mil milhões de 1980.

Retoma em 2017

Apesar dos sinais de retoma, a verdade é que a recuperação do investimento em construção tem um longo caminho pela frente. Basta notar que, em 2016, só se investiu o equivalente a 43% do volume investido no pico de 2001 ou a 62% do volume investido em 2010, o ano que antecedeu o pedido de ajuda externa que trouxe a troika a Portugal.

O Instituto Nacional de Estatística já veio confirmar o atual impulso do investimento. No primeiro trimestre de 2017, a variável mais dinâmica foi mesmo a FBCF em construção, que cresceu 8,6% em volume face ao primeiro trimestre do ano anterior, um salto em termos homólogos que não se via na economia portuguesa desde o arranque do ano 2002.

Segundo o relatório económico que o Banco de Portugal divulgou na passada semana, o investimento em construção que fez abrandar a atividade económica em 2016 é o mesmo que está a puxar pelos números do PIB em 2017. Os economistas do banco central mostram três evidências da retoma agora em curso. Primeiro, “o crescimento da FBCF em construção no primeiro trimestre de 2017 está em linha com o forte aumento das vendas de cimento do mercado nacional, associado em parte ao aumento da atividade de recuperação de edifícios, num contexto de condições meteorológicas mais favoráveis e melhorias consecutivas da confiança na construção”. Segundo, “um comportamento idêntico é visível no índice de produção da construção, cuja recuperação foi extensível quer à componente de engenharia civil quer à construção de edifícios”. Terceiro, “a informação relativa a concursos e contratos adjudicados de obras públicas também confirma a recuperação deste sector, que estará em parte associada a uma gradual normalização da atribuição de financiamento através de fundos europeus no âmbito do Portugal 2020”.