Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Dívida portuguesa. Juros desceram em junho, apesar da turbulência provocada por Draghi

Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam junho em 3,03% no mercado secundário, ligeiramente abaixo do encerramento no mês anterior. Subidas significativas para juros dos títulos alemães, britânicos e irlandeses alimentadas pela interpretação de palavras de Draghi e Carney no Fórum do BCE em Sintra

Jorge Nascimento Rodrigues

Apesar da turbulência provocada no mercado da dívida soberana da zona euro por algumas palavras de Mario Draghi em Sintra no dia 27, os juros (yields) das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência a 10 anos fecharam esta sexta-feira em 3,03%, ligeiramente abaixo de 3,07% no encerramento do mês anterior.

Os juros das OT a 10 anos atingiram um mínimo do mês no dia 14 tendo fechado em 2,83% no mercado secundário e o Tesouro português pagou uma taxa de colocação de 2,851% no leilão daquela linha obrigacionista realizado naquele dia. Muito abaixo da taxa de 4,227% que o Tesouro teve de pagar na operação de sindicação de lançamento daquela linha em janeiro.

A decisão do Ecofin de declarar oficialmente a 16 de junho a saída de Portugal do Procedimento de Défice Excessivo culminou o clima favorável para a dívida portuguesa.

Regresso ao patamar de 3%, depois de pagar 2,85% em leilão

Mas, a situação alterou-se no final do mês com a turbulência desencadeada pela interpretação dada a algumas frases de Mario Draghi no Fórum anual do Banco Central Europeu (BCE) em Sintra.

O efeito das declarações sobre a natureza “temporária” das pressões desinflacionistas na zona euro proferidas pelo presidente do BCE na abertura daquele Fórum, interpretadas pelos operadores e analistas financeiros como apontando para um abrandamento em breve da política monetária expansionista, provocou o regresso dos juros da dívida portuguesa a 10 anos ao patamar dos 3% durante esta última semana de junho. No caso de uma redução do valor mensal em 2018, ou mesmo descontinuação, ainda que gradual, do programa de compra de dívida pública pelo BCE, os periféricos do euro, e designadamente Portugal, serão os mais afetados.

No entanto, as boas notícias para Portugal não pararam. No último dia do mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) elogiou o “progresso louvável” realizado pelo país, reviu significativamente em alta o crescimento económico e o saldo orçamental primário (sem juros da dívida) para 2017 e 2018, e considerou que a meta de défice de 1,5% do PIB para o ano em curso será “confortavelmente” atingida.

Até final de agosto, o Tesouro português irá reembolsar 3,5 mil milhões de euros do empréstimo do FMI no âmbito do resgate, dos quais mil milhões foram pagos esta sexta-feira.

Prémio de risco desceu e retorno anual subiu

O prémio de risco da dívida portuguesa reduziu-se em 20 pontos base durante junho, uma descida maior do que a registada para os prémios relativos às dívidas espanhola e italiana. O prémio de risco da dívida portuguesa é, ainda elevado, está em 256 pontos base, o equivalente a um diferencial de 2,56 pontos percentuais exigido pelos investidores em relação ao custo da dívida alemã.

O custo de segurar a dívida portuguesa contra um incumprimento num horizonte a 5 anos, através dos derivados financeiros conhecidos por credit default swaps (cds), reduziu-se de 206,21 pontos base no final de maio para 196,27 pontos base no final de junho. Quanto mais baixo o risco de bancarrota mais baixo o preço dos cds.

O retorno da dívida obrigacionista portuguesa melhorou ainda mais em junho. Segundo o índice da Bloomberg, o retorno medido desde início do ano subiu de 6,55% em final de maio para 6,91% no final de junho, enquanto a rentabilidade para o conjunto da dívida da zona euro se afundou ainda mais em terreno negativo, piorando de -0,34% para -0,73% naquele mesmo período. Em junho, o retorno desde início do ano para a dívida espanhola conseguiu passar a positivo, mas a rentabilidade para a dívida italiana e irlandesa manteve-se em terreno negativo, inclusive piorando no último caso.

A maior redução de juros e do prémio de risco na União Europeia em junho ocorreu com a dívida grega. Os juros a 10 anos desceram 59 pontos base, mais de meio ponto percentual, e estão, agora, abaixo de 5,5%. O prémio de risco caiu 75 pontos base. O retorno da dívida obrigacionista grega, medido desde início do ano, é o mais elevado da Europa, tendo subido de 11,2% em maio para 16,8% em junho. A decisão do Eurogrupo de fechar o segundo exame ao terceiro resgate helénico retirou Atenas do foco da crise e deverá permitir ao Tesouro grego regressar a emissões no mercado primário ainda este ano.

'Efeito Sintra' atinge sobretudo Alemanha, Irlanda e França

Os títulos alemães, irlandeses e franceses foram os mais afetados na zona euro pela interpretação dada pelos traders e analistas às palavras de Draghi em Sintra.

Os juros para as obrigações alemãs a 10 anos subiram 16 pontos base, de 0,31% no final de maio para 0,47% no final de junho, registando um aumento forte nos dias 27 e 29 de junho, sendo os mais marcados pelo 'efeito Sintra'. Depois de terem estado em terreno negativo na maior parte das sessões durante cinco meses no ano passado, os juros dos Bunds (designação alemã para os títulos) naquele prazo de referência aproximam-se, agora, de 0,5% - um nível que não se regista desde o início de janeiro de 2016.

No conjunto da União Europeia, o impacto altista mais significativo registou-se nos juros dos títulos britânicos, que subiram 21 pontos base, de 1,05% no final de maio para 1,26% no final de junho, com quatro sessões consecutivas de aumento na última semana de junho.

A interpretação de uma parte de uma frase proferida por Mark Carney, o governador do Banco de Inglaterra (BoE), no painel final do Fórum do BCE em Sintra a 28 de junho, acelerou a subida dos juros na ponta final do mês. A referência de Carney à possibilidade de uma “retirada de estímulos monetários” por parte do BoE juntou-se às palavras de Draghi no dia anterior e reforçou a tendência altista nos juros da dívida.

Alguns analistas sublinham, contudo, que o mercado reagiu com excesso às declarações em Sintra dos dois responsáveis de bancos centrais, retirando do contexto determinadas palavras que se tornaram incendiárias ("temporário" e "retirada") e ignorando o que era dito a seguir na própria frase ou frases subsequentes.