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Inteligência artificial vai destruir e criar empregos

Algumas profissões vão transformar-se ou até mesmo desaparecer nos próximos anos com os avanços da inteligência artificial. Haverá máquinas inteligentes que vão desempenhar tarefas que eram feitas por recursos humanos qualificados em áreas como a medicina ou advocacia. Qual será o tamanho do impacto?

João Ramos

Será que dentro de 10 anos vão existir máquinas com inteligência artificial a desempenhar muitas tarefas atribuídas até agora aos humanos? Qual o impacto que os avanços desta tecnologia vão ter na destruição de emprego? Estas foram as principais questões discutidas esta semana, em Lisboa, no Watson Portugal Summit 2017, evento organizado pela IBM Portugal, ao qual o Expresso se associou.
Sendo certo que ninguém tem a bola de cristal para antever o futuro, os membros do painel, oriundos de diferentes quadrantes, deixaram transparecer um certo otimismo, embora admitam que o advento dos sistemas cognitivos e dos robôs possa implicar a destruição de alguns postos de trabalho. António Raposo de Lima, presidente da IBM Portugal, concorda que possam existir profissões que “se vão tornar obsoletas ou se vão transformar”, tal como aconteceu na primeira revolução industrial e com o aparecimento da internet. Mas defende que a revolução da inteligência artificial terá um balanço positivo, referindo que em algumas áreas até “pode vir a criar um número significativo de novas profissões”. Antecipa que algumas atividades vão sofrer uma forte transformação. Dá o exemplo dos advogados. “Com a ajuda dos sistemas cognitivos como o Watson, os juristas vão poder libertar 30% do tempo que é gasto na tarefa de encontrar jurisprudência para os casos dos seus clientes”. Ou seja, os advogados vão poder ter a possibilidade de trabalhar mais casos em menos tempo e prestar um melhor serviço à comunidade”. De entre as novas profissões de grande futuro, destaca a dos cientistas de dados (data scientists) que terão aplicação em várias áreas de atividade.

Ajudar na prevenção
Isabel Vaz, presidente-executiva da Luz Saúde, também tem uma visão otimista, recusando a ideia de que inteligência artificial possa implicar redução de pessoal no sector da saúde. “Os sistemas cognitivos já começam a ser uma ferramenta que permitem aumentar a rapidez e a precisão de alguns diagnósticos”, diz. Dá o exemplo dos exames radiológicos automáticos, em que a inteligência artificial liberta alguns profissionais mas eles são necessários noutras tarefas porque há muito para fazer, nomeadamente no campo da prevenção. “Com a ajuda dos sistemas cognitivos, a melhor estratégia seria usar os profissionais de saúde em tarefas de prevenção da doença e não tanto no tratamento”, diz a gestora. E faz a analogia ao tema dos incêndios florestais: “O dinheiro não vai chegar se apostarmos apenas em bombeiros e água e esquecermos a prevenção. Na saúde acontece o mesmo: devemos usar sistemas cognitivos para fazer a prevenção e não apena no tratamento”. Por outro lado, a presidente da Luz Saúde admite que a introdução destas tecnologias desencadeia outros desafios na área da saúde, nomeadamente no que diz respeito à privacidade dos doentes. E antecipa o grande esforço que o sector terá de fazer, até maio de 2018, quando entrar em vigor a diretiva mundial de proteção de dados.

Por sua vez, Madalena Tomé, presidente-executiva da SIBS, também afina pelo mesmo diapasão. Apesar de ter havido nos últimos anos cortes de pessoal significativos em alguns bancos e o encerramento de balcões, esta responsável considera que chegou a hora de estarem preparados para prestação de serviços multicanal. “Assim como existem clientes das novas gerações que usam apps num telemóvel, há clientes híbridos (vão aos balcões e usam os canais online)”. Como consequência, não prevê que o advento da inteligência artificial possa ter um grande impacto na redução de pessoal. Madalena Tomé refere que Portugal está na linha da frente em tecnológicas financeiras (fintechs) e sistemas de pagamento móvel, recordando, a esse propósito, que a SIBS dispõe há alguns anos do serviço MB Way.

Também na área da segurança informática, a gestora deste consórcio interbancário defende que há razões para os utilizadores se sentirem confiantes, uma vez que a segurança é implementada na rede SIBS é “sete vezes superior à média europeia”. E acrescenta: “Foi possível alcançar este nível porque foram introduzidos mecanismos robustos ao nível da prevenção e monitorização das transações”.

Paulo Ferrão, presidente do Conselho Diretivo da FCT-Fundação da Ciência e Tecnologia, não se mostra apreensivo em relação à chegada inexorável da inteligência artificial às organizações portuguesa uma vez que “o país tem vindo nos últimos anos a preparar uma geração de profissionais com boa formação e talento, preparada para participar (ou tirar partido) do desenvolvimento de sistemas cognitivos “. O presidente da FCT diz não ser por acaso que existem em Portugal empresas inovadoras que procuram tirar partido das oportunidades de negócio neste domínio. Ao mesmo tempo, Paulo Ferrão recorda que também foram anunciadas medidas que procuram ajudar na requalificação digital dos portugueses.

E qual é o papel que que a inteligência artificial poderá ter na restauração? O chefe Kiko, que lançou vários restaurantes em Lisboa, mostra-se recetivo à ideia de ter um sistema cognitivo, como o IBM Watson, “a ajudar no dia a dia a validar e a tomar decisões na cozinha”. Mas é perentório em afirmar que uma máquina inteligente “nunca na vida me poderá substituir”. E concretiza: “Há o lado de autenticidade, carisma, jeito e capacidade de leitura do momento que não são substituíveis”. Poderia um robô inteligente ter uma estrela Michelin? “Possivelmente sim, porque os critérios da Michelin têm de ser objetivos e parametrizados a nível mundial”, diz o chefe Kiko. Provavelmente seria uma cozinha sem alma.

Blockchain invade todos os sectores

A tecnologia que serve de base à moeda bitcoin será adotada em vários segmentos de atividade

Não vão ser apenas as instituições financeiras e os sistemas de pagamento eletrónico a beneficiar da adoção do blockchain. Louis de Bruin, especialista da IBM Global Business Services, demonstrou durante o Watson Summit Portugal que esta tecnologia, associada à moeda virtual bitcoin, também se aplica a sectores tão variados como retalho, saúde, entretenimento ou seguros. A onda de entusiasmo em relação a esta obra-prima da tecnologia não para de crescer porque permite fazer transações de uma forma segura rápida e transparente, sem precisar de uma entidade central (por exemplo um Banco Central ou um emissor de cartões de crédito).

As instituições financeiras podem liquidar títulos em tempo real ou em alguns minutos, em vez de levarem dias para fazer a operação tal como acontece na atualidade. Outro exemplo: com o blockchain, as empresas de produtos alimentares podem retirar artigos da distribuição partilhando dados de produção com outras empresas e entidades reguladoras. Louis de Bruin também fez referência ao lançamento de um projeto blockchain pioneiro, numa parceria entre a IBM e as seguradoras AIG e Standard Chartered, que deu origem a uma solução que permite aumentar a segurança e transparência na subscrição de apólices múltiplas de seguros em vários países em simultâneo. Ou seja, a tecnologia blockchain tem a grande vantagem de simplificar operações de elevada complexidade.

Ao nível das melhores escolas do mundo

Ministro da Ciência realça qualidade do Ensino Superior em Portugal, que segue o modelo norte-americano e que traz competências digitais para o país

Manuel Heitor não tem dúvidas: “O que se faz em Portugal, faz-se ao nível das melhores universidades do mundo.” Na intervenção que marcou o final da Watson Portugal Summit, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior fez questão de realçar o trabalhado desenvolvido pelas instituições educativas nacionais, de acordo “com o modelo norte-americano” e que permite que as parcerias de prestígio internacional neste campo se mantenham. Importa agora perceber o impacto de ferramentas cognitivas e como a mudança para o paradigma das competências digitais está a mudar a sociedade.

Uma das consequências “é que passamos de falar de internet das coisas para a internet dos trabalhos”, processo mais complexo devido “às consequências sociais e económicas que implica.” Antes de mais, significa “partilha de riscos” entre economias cada vez “mais globalizadas” e se é um facto que estamos “a aumentar a riqueza global”, torna-se essencial perceber como distribuí-la de forma mais equitativa, ao contrário “do que se fez nas últimas três décadas.” Numa fase em que é preciso “criar e reinventar novas formas de gerar emprego”, seria, porventura, “a questão crítica a colocar ao Watson”.

Melhores Frases

“Desde 2011, com 
o Watson, que estamos 
a dar espaço a um grande número de dados que antes eram invisíveis. Não é apenas uma plataforma 
de inteligência artificial, mas sim inteligência aumentada. 
A era cognitiva 
é uma inevitabilidade”
António Raposo de Lima
Presidente da IBM Portugal

“O sistema cognitivo 
já está a revolucionar 
a nossa área. 
As ferramentas 
de prevenção como 
estas vão permitir reduzir custos para a sociedade no geral. Toda 
a capacidade de inteligência artificial 
em maximizar tratamentos é poupança”
Isabel Vaz
Presidente-executiva da Luz Saúde

“Hoje assiste-se cada vez mais a uma padronização do gosto a nível mundial. O que mais me assusta numa plataforma de ajuda, como o Watson, 
é acentuar isso, mas não me coloco em risco 
se me souber reinventar 
e manter o elemento 
de singularidade”
Kiko Martins
Chefe

“O futuro é muito diferente do que pensávamos há dez anos. É importante perceber que na época de mudanças tecnológicas em que vivemos há uma certeza: as economias estão mais globalizadas”
Manuel Heitor
Ministro da Ciência, 
Tecnologia e Ensino Superior