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Ninguém aproveita fundos como os hotéis do Norte

Jorge Albino e Carlos Pinto Ribeiro, administradores do Oporto Boeira Garden, um hotel ligado ao vinho do Porto e o que mais fundos recebeu

Rui Duarte Silva

Incentivos europeus patrocinam construção de 24 grandes projetos turísticos

A região Norte, e o distrito do Porto em particular, estão a construir os maiores empreendimentos turísticos financiados pelos fundos europeus do Compete 2020. Este que é o maior programa do Portugal 2020, só apoia os projetos mais inovadores de quem investe pelo menos €3 milhões nas regiões menos desenvolvidas do Norte, Centro e Alentejo. Desde que o atual quadro comunitário arrancou, o Compete 2020 já aprovou 24 projetos de investimento para construção de novos hotéis ou ampliação e requalificação de unidades hoteleiras já existentes no total de €152 milhões. Dois terços destes projetos e três quartos no montante investido localizam-se na região Norte, sobretudo no distrito do Porto, que atrai mais de metade dos investimentos já em curso ou prestes a arrancar com as obras no terreno. O ranking dos projetos financiados pelo Compete 2020 revela que nove dos dez maiores projetos hoteleiros estão na região Norte e que os cinco maiores estão todos no distrito do Porto (ver tabela nesta página).

O maior projeto imobiliário é o Oporto Boeira Garden, o novo hotel de cinco estrelas de Vila Nova de Gaia, onde estão a ser investidos €19 milhões. Os outros quatro grandes estão mesmo ali ao lado, na outra margem do rio Douro: o Neya Porto Hotel (€12,2 milhões), o Monumental Palace Hotel (€11 milhões), o Hotel Palácio dos Ferrazes (€10 milhões) e o Hotel A Brasileira (€9 milhões). Neste distrito, destacam-se ainda os milhões investidos nas obras do novo Palácio de Canaveses Hotel Resort & Thermal Clinic (€7,4 milhões), do Vila Foz Hotel & Spa (€6,3 milhões) ou do Goldsmith Hotel (€5 milhões).

As novas unidades hoteleiras, apostadas sobretudo em turistas com maior poder de compra, querem tirar partido dos recursos endógenos da região para se diferenciarem da concorrência (o vinho do Porto, a filigrana, etc.), investem no segmento do bem-estar (spa) para qualificar a oferta ou inovam num turismo mais próximo da natureza, caso do FeelViana Ecohotel em Viana do Castelo; do Eco Green Hotel em Ponte de Lima; do Noah Hostel Surf Camp em Torres Vedras; ou do hotel rural de cinco estrelas Quinta do Fontelo, em Vouzela. Já o investimento em Alcácer do Sal visa ampliar o hotel rural e criar novas unidades de alojamento local, recuperando edifícios degradados da Herdade da Barrosinha.

Segmento hiperpremium

O Compete 2020 destaca alguns dos denominadores comuns as estes projetos: são espaços de excelência que privilegiam a oferta de um conjunto de experiências diversificadas (história, o mundo artístico, a cultura, a gastronomia e o lazer); que rompem com a sazonalidade; que promovem um serviço diferenciado e singular; e que se posicionam num segmento de luxo.

Para o gestor do Compete 2020, Jaime Andrez, há dois fatores que justificam o apoio dos fundos comunitários: “O primeiro fator é a importância do turismo para a agenda da competitividade. É uma atividade multissectorial, que mobiliza património edificado e natural e que tem efeitos sobre outras atividades, desde o mobiliário à indústria têxtil, passando pelos materiais de construção e à própria construção. O segundo fator é a qualidade e a inovação associadas aos projetos aprovados e que permitem conceber novos modelos de negócio, mais bem posicionados na cadeia de valor”.

O presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Raul Martins, realçou ao Expresso a relevância do financiamento para a dinamização destes investimentos em torno dos novos investimentos hoteleiro: “Os incentivos que existem através dos apoios comunitários e da linha de apoio à qualificação da oferta — vulgo protocolos bancários — são fundamentais como instrumento de apoio ao financiamento das empresas hoteleiras. Se é certo que uma grande fatia dos apoios concedidos se destina a oferta nova, devemos sublinhar a importância que tem para a renovação e reabilitação da oferta existente, no sentido de dar reposta à procura crescente e cada vez mais exigente e sofisticada”.

O líder dos hoteleiros deixa reparos é aos protocolos bancários. “Parece-nos totalmente injustificado e negativo que estes sirvam, como está agora previsto, para apoiar alojamento mobilado para turistas e outros locais de alojamento de curta duração. Não só não há carência de financiamento nesse domínio como se alimentam situações fugazes e de dificílimo controlo”, critica Raul Martins.