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Festival de prédios ocupa Marés Vivas

LUCILIA MONTEIRO

O primeiro projeto (Cais da Afurada), em Gaia, arranca em setembro. Um investimento de €17 milhões

Cabe a Sting, Scorpions e Bastille, entre outros, animarem as hostes roqueiras na 17ª edição do festival Marés Vivas que decorre em meados de julho, em Gaia e que no próximo ano vai ter nova localização. E se ficarem fascinados pelo local podem até sinalizar a compra de uma fração no primeiro projeto imobiliário que vai mudar a face do passeio fluvial entre a Afurada e a praia do Cabedelo — o empreendimento Cais da Afurada ocupa, precisamente, a zona do palco principal.

Em setembro, as máquinas avançam pelo lote, adquirido há três anos pela Cais da Afurada, uma sociedade que resulta de uma parceria entre a Imosteeel (75%) e a construtora S. Pintos (25%), de Penafiel. É um bloco de cinco pisos numa operação de €17 milhões que estará concluída em 18 meses. A promotora declina para já fornecer pormenores, alegando “que o processo camarário não está ainda concluído” e o tema “é politicamente muito sensível”. O terreno sempre foi privado e a viabilidade construtiva concedida em 2008. O projeto “será uma obra de referência da marginal de Gaia”, diz João Belo, da Imosteel, que já teve uma experiência feliz, com o Cais do Cavaco, na frente ribeirinha gaiense.

A mediadora Réplica conta fechar 10 reservas, entre os 45 apartamentos disponíveis, antes da construção arrancar, recorrendo à carteira de investidores com que lida. As tipologias dominantes são o T3 (25) e T2 (15) e os preços variam entre os €265 mil e os €460 mil. A mediadora lançou um modelo, em fase de teste num projeto em Leça da Palmeira de €3,5 milhões (25 apartamentos), que salva os promotores do risco do financiamento bancário. Contacta um promotor com um projeto apetecível, organiza um sindicato de investidores interessados no imobiliário de rendimento e procede à montagem da operação articulando os interesses das duas partes.

A zona envolvente do Marés Vivas acolherá uma espécie de comboio urbanístico de oito edifícios e todos eles podem avançar a qualquer momento. Antes das obras da Cais da Afurada, entrará em cena a Câmara Municipal de Gaia (CMG) que promete instalar no local um outdoor gigante a responsabilizar o executivo anterior, de Luís Filipe Menezes, pela ocupação da faixa ribeirinha. “Não é para acusar ninguém”, diz ao Expresso o presidente da CMG, Eduardo Vítor Rodrigues, mas apenas “para datar o licenciamento (2008) e deixar claro que esta pouca vergonha não foi aprovada por este executivo”. O autarca ficou refém dos direitos adquiridos “de uma urbanização espetacular em cima do rio que deveria ter permanecido de usufruto público”.

A zona envolvente do Marés Vivas (3 hectares) acolherá 
um festival de oito edifícios, com uma área total 
de construção de 35.789 metros quadrados. Todos eles podem avançar a qualquer momento — basta o promotor entregar a comunicação prévia e pagar as taxas municipais

A zona envolvente do Marés Vivas (3 hectares) acolherá 
um festival de oito edifícios, com uma área total 
de construção de 35.789 metros quadrados. Todos eles podem avançar a qualquer momento — basta o promotor entregar a comunicação prévia e pagar as taxas municipais

O executivo encomendou uma auditoria “aos processos de licenciamento, que não detetou irregularidades”. Os serviços municipais estimaram em, pelo menos, €40 milhões o valor das indemnizações a pagar aos promotores no caso de impedir os projetos. A urbanização de maior envergadura, junto à marina da Afurada, é da Douro Habitat (nove pisos) ligada a uma gestora de fundos israelita. Mas a sociedade terá retirado a operação das prioridades de investimento. Contactada pelo Expresso, a Douro Habitat respondeu “não estar em condições de prestar esclarecimentos”. Um terceiro lote está no universo da Imogestão, o fundo fechado gerido pela Selecta, uma sociedade da família José de Mello, que promoveu o loteamento.

As urbanizações pressionam a reserva natural de 45 hectares do estuário do Douro e ocupam uma zona de proteção de leito de cheia. Promotores e CMG defendem-se dizendo que Ministério do Ambiente e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte “deram pareceres favoráveis às construções”.

Com infraestruturação já concluída encontra-se o loteamento que transformará uma quinta sobranceira ao Douro num condomínio de 120 moradias. A CMG despachou em março alvarás para 10 lotes unifamiliares.