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Petróleo baixo atrapalha mudanças

Em 2016, a China tornou-se o maior produtor de energias renováveis, ultrapassando os EUA. Solar e barragens são as tecnologias preferidas

Kevin Frayer

Peso das renováveis nas necessidades mundiais ainda é pouco significativo, mesmo sendo a energia que mais cresce

Ana Batista

O preço do barril de petróleo continuou a cair em 2016, mesmo com um “aumento significativo” da procura e uma quebra na produção. Contudo, apesar de serem boas notícias para os consumidores de produtos petrolíferos, como a gasolina ou o gasóleo, esta situação prolongada de preços baixos pode estar a atrapalhar a implementação de mudanças significativas no sector, nomeadamente a proliferação das energias limpas.
De acordo com o estudo anual da BP “Statistical Review of World Energy”, divulgado esta semana em Londres, as renováveis foram a energia que mais cresceu em 2016 (12% sem as barragens), enquanto a produção de petróleo aumentou apenas 0,5%, a mais baixa desde 2009. Mas a procura de crude subiu 1,6%, porque os preços voltaram a descer para uma média anual de 44 dólares o barril, fazendo com que as renováveis, apesar de estarem a crescer, ainda só representarem 4% da energia consumida.

“Continuamos a assistir a uma mudança de paradigma assente em abundância de crude, resultado da tecnologia e acesso que esta potencia a reservas antes inatingíveis, assim como a um forte crescimento das energias renováveis, apesar de este crescimento ainda incidir sobre uma base pouco material (4% das necessidades de energia primária)”, diz o CEO da BP, Pedro Oliveira. Uma situação que o responsável da empresa em Portugal estima que se manterá em 2017. “Apesar de ter ocorrido um equilíbrio entre a procura e a produção, o peso dos stocks acumulados nos dois últimos anos continuará a incidir sobre o preço do petróleo, pressionando a não subida do preço para já”, comentou.

É por isso que, para a BP, 2016 foi um ano diferente no mundo da energia. “Estabilidade e mercados de energia não se dão; booms e fracassos, recuperações e meias-voltas são a norma. Mas os movimentos e a volatilidade verificadas no ano passado foram interessantes, já que os mercados de energia foram assolados por duas forças distintas: uma delas o ajustamento aos choques dos últimos anos, principalmente no mercado do petróleo, e a outra às transições de longo prazo que têm vindo a desenhar-se no sector [renováveis e aumento do consumo liderado pelos países emergentes como China e Índia]”, escreveu um dos economistas da BP, Spencer Dale.

Sector nunca mais 
será o mesmo?
2016 não foi um ano de acontecimentos mediáticos, como o da abrupta descida do preço do petróleo registada em 2015. Mas foi um ano de acontecimentos decisivos, que podem vir a significar uma rutura com aquilo que era o normal no mundo da energia. De acordo com o “Statistical Review”, um dos momentos de destaque de 2016 foi o facto de a China se ter tornado o maior produtor de renováveis do mundo, ultrapassando os EUA. Para a BP, isto mostra que também a China está empenhada em caminhar para a descarbonização, eliminando aos poucos o uso do carvão. Aliás, a produção de carvão registou uma quebra recorde de 7,9% em 2016, segundo o mesmo documento, e isto pode ser decisivo para atingir as metas estabelecidas no acordo climático de Paris.

Mas a China não é a única a querer acabar com este combustível fóssil, considerado o mais poluente. Também o Reino Unido o quer fazer, e nos últimos dois anos tem fechado minas de carvão. Consequência? No ano passado, o consumo caiu para valores de há 200 anos, ou seja, quando começou a Revolução Industrial. Claro que, reduzindo o uso de carvão — maioritariamente usado na produção de eletricidade —, é preciso recorrer a um substituto, porque só as renováveis ainda não chegam. Não é de admirar que tenha havido um aumento do consumo de gás natural em 2016. Só na Europa, a produção de carvão caiu 7,9% e as importações de gás natural cresceram 3,6%. Em Portugal (onde não há produção de ambos), o consumo de carvão caiu 11,9% e o de gás subiu 8,9%.

O consumo de energia está praticamente estagnado há três anos. A procura a nível mundial cresceu apenas 1% este ano e nos dois anos anteriores cresceu, respetivamente, 0,9% e 1%. Na Europa, o crescimento do consumo em 2016 não foi além dos 0,7%. E na China, um dos países emergentes que continua a liderar a procura de energia, o consumo tem crescido menos do que em anos anteriores. Em 2016, cresceu 1,3% face a 2015, ou seja, um dos valores mais baixos dos últimos 20 anos.

“Esta estagnação resulta acima de tudo de um uso mais eficiente dos produtos em causa, e nesse sentido são boas notícias numa lógica agregada de sustentabilidade e de utilização racional do recurso em causa”, adiantou Pedro Oliveira. Aliás, para o CEO da BP em Portugal, esta é a nova realidade que se deseja e se está já a desenhar no mundo da energia e que passa pela estabilização do consumo de petróleo e por um aumento do peso das renováveis nas necessidades de energia. “No plano teórico trata-se de um binómio que faz sentido. O grande desafio fica em como tornar este binómio sustentável no tempo, promovendo a não discriminação positiva das renováveis de modo a desonerar o contribuinte”, disse, lembrando que isso é particularmente relevante em Portugal. “Fazer esta transição de modo pragmático e racional será um dos grandes desafios da agenda energética do país”, concluiu.

O que se passou em 2016

PETRÓLEO

Positivo: Os preços continuaram a cair, e a média anual foi de 44 dólares o barril, menos do que os 52 dólares registados em 2015. Foi a média mais baixa desde 2004 e fez com que a produção só subisse 0,5%, a mais baixa desde 2009.
Negativo: Com preços mais baixos, o consumo aumentou “fortemente”, crescendo 1,6%, ou seja, mais do que a taxa média de crescimento dos últimos 10 anos. Isto atrapalha os objetivos de crescimento das renováveis.

GÁS NATURAL

Positivo: As importações e exportações de Gás Natural Liquefeito (GNL) aumentaram 6,2%, reduzindo-se assim a dependência dos preços fixos que existem na maioria dos contratos do gás que chega via gasoduto.
Negativo: O consumo aumentou 1,5% em 2016, menos do que a média anual de 2,3% registada nos últimos 10 anos. E a produção cresceu apenas 0,3%, a mais baixa em 34 anos, sem contar com os anos da crise financeira.

RENOVÁVEIS

Positivo: Voltou a ser o tipo de energia que mais cresceu, e sem incluir a produção hidroelétrica, ou seja, nas barragens. Segundo o estudo, o crescimento foi de 12% em 2016 e, por isso, a maior subida anual registada até agora pela BP. Além disso, o solar aumentou 30% face a 2015.
Negativo: Apesar do crescimento, as renováveis ainda pesam menos de 4% na produção total de energia. O petróleo continua a ser o líder.

CARVÃO

Positivo: O consumo caiu pelo segundo ano consecutivo. A descida foi de 1,7% e, por isso, o peso na produção global de energia passou para 28,1%, a mais baixa desde 2004. A justificar esta descida está a quebra da produção na China, nos EUA e no Reino Unido, onde o consumo de carvão está tão baixo como há cerca de 200 anos, quando começou a Revolução Industrial. O sector da energia no Reino Unido celebrou em abril o primeiro “dia sem carvão”.

ENERGIA PRIMÁRIA

Positivo: A procura global de energia cresceu em 2016.
Negativo: Apesar de ter havido crescimento, este foi apenas de 1%, o que é semelhante ao aumento dos dois anos anteriores e “significativamente mais baixo” do que a taxa média anual de crescimento de 1,8% registada nos últimos 10 anos. Nos países da OCDE, a procura manteve-se estável, quase estagnada.

Números do Estudo

8,9%
foi quanto o consumo de carvão na Europa caiu, fruto de uma quebra de quase 50% no Reino Unido

2,3%
é a queda da produção nuclear, resultado das paragens dos reatores nucleares em França

5,5%
é quanto o consumo de energia cresceu em Portugal, com o gás natural e as renováveis a registarem 
as maiores subidas

0,1%
é o valor da queda das emissões de carbono

Apresentação 
a 27 de junho

Pelo segundo ano consecutivo, o Expresso associa-se à BP na apresentação do “Statistical Review of World Energy”, que faz uma análise às principais tendências e dados no mercado energético. A apresentação nacional do estudo será inserida numa conferência que se realiza a 27 de junho e que conta com a presença do responsável de Economia Energética da BP, Paul Appleby, que revelará as principais conclusões do documento. Além dele, estarão ainda presentes o secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, Mira Amaral, o CEO da BP em Portugal, Pedro Oliveira, e o vice-presidente regional da BP na Europa e Reino Unido, Peter Mather. O evento decorre no Lagoas Park Hotel, em Oeiras.

Textos originalmente publicados no Expresso Economia de 17 de junho de 2017