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As casas que ninguém quer

Ilustração Cristina Sampaio

Há 60 a 70 mil casas em Portugal que não se vendem pela simples razão de que ninguém as quer comprar

Situam-se sobretudo em zonas suburbanas das grandes cidades, inseridas num urbanismo mal conseguido e pouco funcional, em bairros servidos de acessibilidades de má qualidade e com graves dificuldades de estacionamento. As construções são de fraca qualidade, o interior das casas está mal divido e as áreas são, regra geral, pouco generosas.

Além dos subúrbios das principais cidades portuguesas, as casas que ninguém quer também se encontram espalhadas por muitas das vilas e aldeias do chamado ‘interior’ do país onde há cada vez menos gente, menos serviços, menos emprego e menos disponibilidade para investir e para residir. Aliás, se somarmos as dos subúrbios às do interior do território nacional o número poderá disparar. Mas não há dados estatísticos oficiais que atestem quantitativamente esta constatação.

Os números em causa — entre 60 a 70 mil casas que não se conseguem vender — resultam da perceção dos técnicos da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI) e da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), que representam a maioria esmagadora dos agentes que operam no sector da habitação.

Sem uma referência específica a um prédio ou a um bairro — para não ferir a suscetibilidade de algum dos associados — aquelas duas entidades adiantam, no entanto, que há muitas casas que ninguém quer em zonas como Valongo, Gaia ou Gondomar, na área do Grande Porto, assim como em Almada, Loures, Mira Sintra, Santo António dos Cavaleiros, Seixal, Alcochete, Montijo, Amadora ou Cacém, no perímetro da Grande Lisboa. Nem o Algarve escapa neste somatório de insucessos imobiliários.

Oferta desadequada da procura

Para tentar entender as causas e a dimensão deste fenómeno o Expresso contactou urbanistas, analistas do mercado e empresas de mediação imobiliária mais representativas em Portugal. Invariavelmente, todos convergem numa conclusão: quando um imóvel não se vende é porque há claramente uma desadequação entre a oferta e a procura.

A partir de quanto tempo à venda é que uma casa pode ser considerada um caso perdido para o mercado? Dois a três anos, segundo a opinião de vários os mediadores imobiliários.

E há casas à venda há mais de dez anos em vários locais, ou seja, dificilmente serão colocadas no mercado. A não ser que... se aposte em “quebras sucessivas de preços até ajustar a oferta à procura para esses segmentos; o Estado seja chamado a intervir, comprando alguns destes imóveis encaminhando-os para habitação social ou, por outro lado, se aposte simplesmente na demolição”, explica Reis Campos, presidente da CPCI.

Este responsável nota que já há vários anos que o Estado não tem uma “política consistente” de construção de habitação social. Explica que, dos 3,6 milhões de primeiras habitações existentes em Portugal (5,8 milhões com as segundas habitações), só 120 mil casas são de cariz social, o que corresponde a 3,3% do total. Muito longe dos 17% em França, 8,7% na Irlanda ou mesmo dos 5,3% em Itália.

Além disso, Reis Campos explica ainda que em Portugal há 468 mil fogos sobrelotados (casas em que os compartimentos não chegam para o número de pessoas que lá habitam). Contas feitas por baixo (média de €100 mil por casa, das 60 mil que não se estão a vender), o presidente da CPCI diz que se pode estar a falar de qualquer coisa como €6000 milhões “encalhados”. A questão que se coloca é: o Estado tem dinheiro para investir neste domínio? “É tudo uma questão de opções políticas”, remata Reis Campos.

Quanto ao ajustamento dos preços à procura, Luís Pedro Sequeira, presidente da Associação dos Urbanistas Portugueses, refere que “já houve quebras de 40% no preço em algumas habitações, em zonas do Montijo e de Alcochete”. A questão é que, naqueles locais, muitos dos fogos disponíveis “até cumprem com todos os standards, mas continuam sem se vender pela simples razão de que a procura ali existente não tem poder de compra suficiente”.

Explica que, em muitos casos, “neste momento são já os bancos os proprietários”, por incumprimento de construtores e promotores imobiliários.

Também na capital já se registaram reajustamentos para baixo. “Na Alta de Lisboa, de 2014 para cá houve casas cujos preços caíram entre 20% a 30%. E resultou. Venderam-se (ou foram reservadas) perto de 200 casas em pouco mais de um mês no Condomínio do Lago, a dois paços do Lumiar”, sublinha João Semedo, responsável da ERA Imobiliária para aquela zona de Lisboa.

Miguel Poisson, diretor-geral daquela empresa (uma das maiores do seu sector a operar em Portugal), remata com uma nota de otimismo: “À medida que o desemprego vai baixando, nota-se que tem havido mais famílias à procura de casa para comprar, não apenas perto do local de trabalho, como uma segunda casa, normalmente no interior do país”.