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FMI faz aviso a Portugal, Itália e França

Yuri Gripas / Reuters

Um relatório do FMI recomenda que os três países prossigam o rumo de consolidação orçamental e de reformas estruturais enquanto o clima económico e político é favorável e o BCE continuar a injetar estímulos. Quando acabar o QE, os prémios de risco da dívida podem subir

O Fundo Monetário Internacional (FMI) deixou, esta semana, um recado a Portugal, Itália e França. Tratem de continuar a consolidar as contas públicas aproveitando, enquanto é tempo, a retoma global da zona euro e o que resta dos estímulos de Mario Draghi. Preparem o pós-QE (quantitative easing).

Num relatório de análise da zona euro, os técnicos do FMI avisam que quando for reduzido o programa de compra de ativos do Banco Central Europeu (BCE), vulgo quantitative easing (QE), as economias com dívida pública mais elevada e com folga orçamental pequena ou nula vão ver os prémios de risco subir. “Alguns países sobreendividados poderão enfrentar a subida dos prémios de risco quando a acomodação da política monetária [do BCE] for reduzida. São necessários planos de política ambiciosos, reforçados por uma forte implementação, para evitar maiores custos de financiamento”, diz o comunicado da missão técnica do FMI de análise à economia da zona euro, ao abrigo do artigo IV, que permite uma consulta anual.

Os técnicos da organização dirigida por Christine Lagarde fazem uma recomendação direta “sobretudo a Itália e Portugal, mas também França” para “consolidarem [as contas públicas] gradualmente de uma forma amigável com o crescimento de modo a reconstruirem as almofadas, tirarem partido da retoma e da janela que ainda resta da política monetária acomodatícia”.

Apoio firme a Mario Draghi

No entanto tal política do BCE não deve ser mexida, recomenda o relatório, que manifesta um forte apoio à estratégia de Draghi.

Lê-se no documento: “A política monetária deve permanecer acomodatícia até que haja uma mudança sustentada na trajetória da inflação. Um crescimento salarial moderado e uma inflação subjacente [excluindo as componentes mais voláteis do índice de preços] sugerem que há um longo caminho a percorrer antes da inflação cumprir de forma durável a meta do BCE”. E acrescenta: “O BCE comprometeu-se corretamente a manter as taxas baixas por um período prolongado, bem além do horizonte das compras líquidas de ativos. Nenhuma alteração a esta orientação futura deve ser feita até que haja um forte apoio por parte do desempenho da inflação ou uma avaliação sólida de que a perspetiva de inflação melhorou decisivamente”.

As economias mais frágeis da zona euro deverão, também, ter em conta que, para além daquele risco específico derivado do impacto da descontinuação do QE do BCE, a zona é afetada por riscos globais como as incertezas derivadas do comercio internacional, do Brexit e dos eventos geopolíticos.

Em relação ao conjunto da zona euro, o FMI considera que a retoma ganhou “impulso”, com um “ciclo virtuoso” de consumo privado e de criação de emprego. A divergência entre taxas de crescimento dos seus 19 membros “está, agora, ao nível mais baixo desde a introdução do euro”. O ambiente político é, também, favorável.

Poucas resoluções e liquidações de bancos

Mas, apesar da resiliência da retoma, estão por resolver heranças da crise financeira, como o crédito malparado na banca e os problemas estruturais em muitos pequenos e médios bancos da zona euro.

Os técnicos do Fundo criticam o facto de ter havido “poucas resoluções ou liquidações”, o que sugere “relutância por parte das autoridades nacionais para aplicar de um modo completo a Diretiva sobre Reestruturação e Resolução bancária” e para avançar na “muito necessária consolidação do sector”.

Um bom momento atual no clima económico e político deveria ser uma oportunidade para Bruxelas avançar com “reformas da arquitetura da União Económica e Monetária”, nomeadamente completar a união bancária, avançar com a integração dos mercados de capitais, da energia, dos transportes e dos serviços digitais, e criar um mecanismo orçamental comum, que, no entanto, deve evitar fomentar o “risco moral” e a discricionariedade.

Pedido à Alemanha e Holanda

Algumas economias com melhor desempenho vão ter de aceitar um nível de inflação acima da meta global de 2% para a zona euro durante “um período prolongado” e deveriam fomentar mais procura interna. Países membros como a Alemanha e a Holanda, que dispõem de folga orçamental e de excedente externo elevado, deveriam usá-los para promover o potencial de crescimento.

Em relação aos membros mais frágeis, os técnicos dizem que a resolução dos problemas de competitividade exige mais crescimento da produtividade, para além do aumento dos salários nominais. Os que continuam a não ter margem orçamental deverão sequenciar as reformas a levar a cabo, dando prioridade às que tenham custos de curto prazo menores.