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Por que motivo os grandes investimentos portugueses na Argentina terão de esperar até 2018

EITAN ABRAMOVICH/AFP/Getty Images

O primeiro-ministro, António Costa, termina as visitas ao Brasil, Argentina e Chile, sendo a Argentina a maior aposta para as empresas portuguesas e a nova fronteira comercial para Portugal. Entretanto, os investimentos mais pesados ainda devem aguardar a assinatura de acordos pendentes e uma definição do horizonte político do presidente argentino Mauricio Macri

Portugal quer investir e a Argentina quer os investimentos portugueses, mas faltam negociações e acordos que devem adiar os planos até 2018. O objetivo português é “chegar primeiro para começar primeiro”, segundo o primeiro-ministro, António Costa, em relação à concorrência de outros países.

“Há três acordos que são absolutamente essenciais para que este relacionamento entre Portugal e Argentina, do ponto de vista económico, possa subir de intensidade”, admite ao Expresso o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que os enumera: “O acordo aéreo, o acordo que evita a dupla tributação (porque ninguém está disponível para investir na Argentina ou porque em Portugal se tem de pagar duas vezes ao fisco pelo mesmo rendimento) e o acordo de cooperação económica que protege os investimentos".

Portugal tenta o acordo para evitar a dupla tributação há mais de dez anos. Segundo uma fonte argentina que participou das reuniões bilaterais em Buenos Aires, a Argentina mostra resistência em assinar o acordo porque a presença de empresas argentinas em Portugal é mínima. “Eu posso dizer, pelo lado de Portugal, que estamos prontos para assinar qualquer um desses acordos no mais curto espaço de tempo possível. Temos todo o interesse em concluir esses acordos”, define o ministro Santos Silva.

O Governo argentino lançou um programa de investimentos em infra-estruturas rodoviárias, em infra-estruturas dos transportes e mobilidade e em energia. As empresas portuguesas de construção civil e de obras públicas, de energia e de tratamento de resíduos manifestaram interesse em diferentes concursos a partir do segundo semestre.

“Penso que os investidores portugueses estão a olhar mais para o acordo do Mercosul com a União Europeia que abre enormes oportunidades. É para isso que temos de olhar”, aponta ao Expresso o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral.

O primeiro-ministro, António Costa, classifica o atual momento como “decisivo”. “No momento em que as negociações entre a União Europeia e o Mercosul têm uma data ambiciosa marcada para o final do ano, este é o melhor momento para trabalharmos, porque quem começa a trabalhar primeiro, chega primeiro com os melhores resultados”, indica.

As negociações entre o Mercosul e a União Europeia avançam nos três eixos previstos pelo acordo: o comercial, o diálogo político e a cooperação. Existe uma meta para fechar o acordo politicamente no final deste ano, mas o capítulo comercial que envolve os investimentos só deve ser concluído em 2018.

Com a chegada do presidente Mauricio Macri ao poder em dezembro de 2015, o Governo português identifica na nova fase argentina um clima propício para os negócios. O escritório da AICEP em Buenos Aires, fechado em 2011, acaba de ser reinaugurado. Como explica ao Expresso o presidente da AICEP, Luis Castro Henriques, são três os pilares para se apostar num país: o potencial do mercado local, a viabilidade de se operar no país e a apetência das empresas portuguesas, uma indicação de que a Argentina está no radar dos investimentos portugueses. “Agora vamos conseguir fazer um acompanhamento muito mais próximo e divulgar isso às empresas portuguesas”, diz Castro Henriques.

Nos próximos três meses, Portugal enviará a Buenos Aires um novo embaixador com o desafio de subir o nível de intensidade económica entre Argentina e Portugal. João Ribeiro de Almeida deixa a Colômbia para realizar na Argentina o elogiado trabalho de Diplomacia Económica que aproximou política e economicamente a Colômbia de Portugal nos últimos anos. “Entendemos que o relacionamento económico entre Portugal e a Argentina está abaixo do nível que deveria estar”, observa o ministro Santos Silva. “Não temos uma relação que esteja ao nível do nosso afeto”, interpreta o próprio presidente Mauricio Macri.

Desafio político

Mas é o próprio presidente argentino quem precisa passar por um teste eleitoral crucial para atrair os prometidos investimentos. Em outubro, o Parlamento argentino será parcialmente renovado. As eleições legislativas serão como um plebiscito que vai definir a sorte de Macri, que admitiu que “uma derrota seria um fracasso”. Sem maioria parlamentar, a força política do Governo terá de vir das urnas para encarar as reformas necessárias no país.

“Se Macri ganhar, a percepção será de que será reeleito em 2019, com um Governo total de oito anos. Se Macri perder, a percepção será de um Governo que termina em 2019. O resultado eleitoral desenha um horizonte e esse horizonte define os investimentos”, explica o renomado analista político Rosendo Fraga.

Os embaixadores na Argentina do Japão, Itália, Espanha, França e Alemanha indicaram recentemente que as eleições de outubro são cruciais para a estabilidade política do país. Os empresários olham para 22 de outubro como a data a partir da qual os projetos podem tornar-se investimentos.

“Essa expectativa será concretizada quando o Governo ganhar as eleições como se prevê”, afirma ao Expresso o embaixador argentino em Lisboa, Oscar Moscariello, refletindo as tendências das sondagens.

Apostas portuguesas

A portuguesa Bluepharma quer exportar tecnologia e conhecimento aos argentinos para o fabrico de medicamentos. Uma vez produzidos, esses medicamentos podem usar a rede da companhia para exportarem a 40 países pelo mundo.

“Por um lado, vendemos tecnologia de ponta; por outro lado, oferecemos os nossos canais para vender fora. Acho que estou no lugar certo para fazer negócios”, explica ao Expresso Paulo Barradas Rebelo, presidente da Bluepharma, que acompanhou a delegação de 21 empresários portugueses nas visitas do primeiro-ministro à Argentina e ao Chile.

“Estamos a retomar a Argentina agora. Com este novo Governo, estamos focados em atacar a área de transportes ferroviários e a área ambiental (tratamento de resíduos e de águas). Estamos a falar de 20.000 milhões de dólares nos próximos dois anos, segundo o programa de investimentos do governo”, conta ao Expresso Francisco Sabino, diretor de desenvolvimento de negócios da EFACEC.

Em 2015, a EFACEC fechou a sua fábrica na Argentina, argumentando “questões estratégicas”. “Se conseguirmos um projeto de dimensão na área ferroviária ou na ambiental que implique construção, obviamente vamos ter de repensar o nosso posicionamento aqui, concluiu Sabino.

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    Tal como no início desta semana na visita oficial à Argentina, também no Chile o primeiro-ministro usou a imagem de Portugal, através do porto de Sines, como porta de entrada das exportações chilenas para o mercado da União Europeia. Mas, no caso do Chile, o primeiro-ministro deixou também uma mensagem para os investidores chileno, destacando a tese de que produzir em Portugal “é estar a produzir no mercado da UE”

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    O mesmo vale para os argentinos em Portugal, segundo acordo assinado entre ambos os países em Buenos Aires. No entanto, os grandes acordos que facilitam os investimentos ficaram adiados para um próximo encontro, enquanto a maior aposta de Portugal e Argentina é numa zona de comércio livre entre o Mercosul e a União Europeia