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Até onde podem ir as boas notícias?

Otimismo A economia está a crescer, os juros da dívida a cair e o investimento a reanimar. Falta esperar para ver se o rating volta a subir e se os ‘motores’ do turismo e das exportações mantêm o ritmo

A economia está a crescer e isso facilita a consolidação orçamental. A primeira acaba por ir à boleia da segunda mas, na verdade, todos os restantes indicadores macroeconómicos soam a alívio, como que a resvalar para uma certa euforia ou, como dizia esta semana o “Financial Times”, para uma “crise de boas notícias”. Uma ‘crise’ de coisas boas e de doses nunca vistas de otimismo que o Governo de António Costa vai ter de gerir com pinças, se não quiser que a “geringonça” esbarre na primeira curva desta avenida cheia de graça.

A confiança dos consumidores está em alta e as exportações puxam como nunca pelo crescimento. O turismo cresce acima dos 13,5% e com tendência para continuar a melhorar, o desemprego está já abaixo dos 10% e o défice orçamental atingiu agora um nível que, de certo, ficará para a história da democracia.

Se a economia cresce, 
há lugar a mais rendimentos?

Numa pista paralela corre a agenda política da reposição de rendimentos, assim como a certeza de que os parceiros de coligação do Governo não irão deixar cair o discurso de que, se a economia está melhor, então, chegou a hora de voltar a olhar mais para o Estado social, para os reformados e os pensionistas. Até porque há ainda uma franja significativa de portugueses a viver abaixo do limiar da pobreza.

É um discurso que cola bem na opinião pública, mas que vai bater na fonte de todos os males: o aumento da dívida pública face ao produto interno bruto, a qual não para de crescer e que continua a ser o grande nó górdio da história da nossa democracia. Este ano, o objetivo do Governo é reduzi-la mas, até agora, a dívida só aumentou.

Outro dos cavalos de batalha a que tanto o PCP como o BE vão voltar em breve é o salário mínimo nacional — um assunto do qual os patrões fogem como o diabo da cruz, mas que os parceiros mais à esquerda do Governo não vão deixar cair em ‘saco roto’.

Com os indicadores económicos a correrem de feição ao Governo, estará António Costa numa via verde de boas notícias? Tudo depende essencialmente de três fatores: a conjuntura internacional, onde se inclui o programa de compra de dívida do Banco Central Europeu; a coragem política da dupla Costa/Centeno para começar a reduzir a dívida pública e, não menos importante, a implementação de reformas estruturais no Estado que, em boa verdade, têm sido continuamente adiadas.

Desemprego Taxa pode descer para 9% este ano

Uma descida superior ao esperado. Assim se caracteriza a evolução do desemprego em Portugal. O INE estima uma taxa de desemprego de 9,8% em abril, o valor mais baixo desde fevereiro de 2009, e que já está abaixo das projeções para este ano de Comissão Europeia, Banco de Portugal e Governo, que apontavam para 9,9%. Apenas a previsão da OCDE (publicada já em junho) é inferior, 9,7%. E a descida tem sido sustentada na criação de emprego: num ano, a população empregada aumentou em 131,5 mil pessoas.

O desemprego deve continuar a descer nos próximos meses. Os economistas contactados pelo Expresso apontam para uma taxa em redor de 9% no final do ano. Uma descida suportada, como até aqui, na criação de emprego, sobretudo nos serviços — nomeadamente o turismo — e na recuperação da construção, e alimentada por baixos salários e por um crescimento económico também acima do previsto.

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A aceleração do crescimento económico e do investimento pode levar a um aumento mais acentuado do emprego, com o desemprego a descer mais rápido do que o esperado. Acrescida competitividade no turismo deve continuar a potenciar aumento do emprego.

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À medida que o desemprego diminui e se aproxima da taxa ‘natural’ (que nesta altura deve estar entre os 7% e os 8% da população ativa), aumenta a pressão salarial. O que sem ganhos de produtividade (que têm estado ausentes), pode penalizar a contratação.

PIB: crescimento deve chegar aos 2,5%

A atividade económica acelerou e o produto interno bruto cresceu 2,8% em termos homólogos no primeiro trimestre, impulsionado pelas exportações — turismo, mas também bens — e pela aceleração do investimento. Um número que não era visto em Portugal desde 2007. E, para encontrar um valor mais alto é preciso recuar a 2000. Em cadeia, o crescimento também foi forte, atingindo 1%.

O cenário, nesta altura, aponta para um crescimento este ano na ordem dos 2,5%, indicam vários economistas. O que fica muito acima das projeções das principais organizações internacionais, que, até agora, na melhor das hipóteses, ficam pelos 2,1% (OCDE). Mais ainda, um segundo trimestre forte — e o ministro das Finanças, Mário Centeno, já afirmou esperar uma variação homóloga do PIB na casa dos 3% — pode atirar o crescimento anual para esse patamar.

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A principal incógnita é a evolução da procura externa, uma variável que Portugal não controla. Uma dinâmica da procura externa acima do esperado (com a continuação da recuperação dos mercados emergentes ou o prolongamento do bom desempenho europeu, por exemplo), puxaria para cima as exportações e a evolução do PIB.

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Os riscos prendem-se, mais uma vez, com a procura externa. Um choque externo forte (o ‘Brexit’ correr mal, por exemplo) penalizaria as exportações (seja de bens ou o turismo) e o investimento, com consequências negativas sobre o crescimento.

Investimento: FBCF sobe ao maior ritmo desde 1998

O primeiro trimestre foi de aceleração do investimento em termos homólogos. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) cresceu 8,9%, o maior ritmo desde o final de 1998. E foi suportada pelo “investimento mais produtivo”, em máquinas e equipamento (aumento de 15%, o mais alto desde 2010) e na construção (incremento de 8,5%, o mais significativo dos últimos 15 anos, num sector que bateu no fundo durante a crise). Contudo, em cadeia, o crescimento da FBCF abrandou para 2,1% (5,9% no quarto trimestre de 2016).

Economistas e organizações internacionais apontam para um bom comportamento do investimento este ano, medido pela Formação Bruta de Capital Fixo. Até porque tem sido centrado nas componentes mais produtivas. 
A projeção mais otimista é do Banco de Portugal, que aponta para um aumento de 6,8%.

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Uma melhoria do rating da República portuguesa, um cenário possível ainda este ano, pode facilitar as condições de financiamento do Estado e das empresas, ajudando a estimular o investimento.

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O elevado endividamento do Estado e das empresas portuguesas pode limitar o investimento empresarial e público. No caso de uma perturbação dos mercados financeiros, levando a uma subida das taxas de juro, o investimento sofreria de imediato.

Turismo: sinais de esperança para 2018

Gonçalo Rosa da Silva

É um sector de onde estão a vir as melhores notícias. Com um crescimento de receitas de 10,7%, para €12,6 mil milhões, o turismo passou em 2016 a assumir um peso de 48,3% nas exportações de serviços (mais 2,8 pontos percentuais do que no ano anterior) e a representar 16,7% das exportações totais do país.

Em Portugal, o emprego no turismo aumentou 14,2% em 2016, com os postos de trabalho diretos a subir para 371,5 mil e os indiretos a elevar-se a 905 mil, segundo dados do World Travel & Tourism Council (WTTC). Para a Confederação do Turismo Português (CTP), é de prever “que o turismo mantenha um elevado dinamismo, sendo um dos setores que mais contribuem para a recuperação da economia portuguesa”. O turismo deverá continuar a ter um papel de relevo no esperado aumento do PIB de 1,7% em 2018 segundo as últimas projeções do Banco de Portugal.

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A procura externa continua a crescer, e este ano é esperado um boom do maior mercado do mundo, com a abertura de voos diretos entre a China e Portugal. Receitas turísticas e proveitos da hotelaria estão a crescer mais do que o volume de hóspedes e de dormidas e a sazonalidade tem tendência a atenuar.

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A vaga de atentados dentro da Europa é preocupante, atingindo diretamente os mercados emissores — e a segurança começa a ser um tema, apesar de Portugal ter sido eleito o terceiro país mais seguro do mundo. O ‘Brexit’ também é incógnita.

Startups: chuva de milhões para 2019

A Web Summit marcou a dinâmica do empreendedorismo em 2016. E o investimento acompanhou. Em 2016 foram lançadas duas linhas de financiamento público a entidades-veículo de business angels, uma com uma dotação de €26 milhões e outra com €18,5 milhões. A atribuição de verbas de cofinanciamento da linha para Fundos de Capital de Risco chegou aos €196 milhões e o Estado tem disponíveis €1,1 mil milhões. Até 2019 a Portugal Ventures vai juntar mais €23,7 milhões por ano ao ‘bolo’.

Ao todo, no âmbito dos sistemas de incentivos às empresas do Portugal 2020 foram aprovados, até ao final do mês de abril de 2017, cerca de 9700 projetos, com um investimento elegível superior a €5900 milhões e incentivo comunitário que ascende a €3100 milhões. Ou seja, parece não faltar capital para criar uma nova vaga de startups portuguesas e pôr o país no mapa global do empreendedorimo.

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A melhoria da situação económica e a estabilização do sistema financeiro podem incentivar grupos globais a entrarem nos investimentos iniciais das startups.

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Para as capitais de risco, o escasso capital disponível e o afunilamento das fontes de financiamento pode comprometer a subcapitalização e o sobreendividamento das empresas. Para os business angels, a decisão do Governo em não baixar o IRC pode levar à deslocalização para outros países. Os empreendedores identificam a dificuldade em atrair e reter talento.

Juros da dívida: rating e BCE são decisivos

Os juros da dívida a 10 anos abriram o mês de junho no mercado secundário abaixo de 3%, um mínimo desde agosto do ano passado. Este custo já é inferior em mais de 1 ponto percentual à taxa que o IGCP pagou em janeiro, quando lançou essa nova linha de Obrigações do Tesouro a vencer em 2027.

Os juros podem descer este ano para os níveis verificados em final de 2015 se as três principais agências de notação derem sinais de que vão alterar positivamente o rating de Portugal e se o Banco Central Europeu (BCE) não comunicar antes do final do ano uma descontinuação do programa de aquisição de dívida pública.

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Os investidores privados nacionais e estrangeiros poderão optar por mais compra de dívida portuguesa nos próximos leilões se houver sinais positivos no verão de alteração do rating. A sinalização de alguma forma de mutualização futura das dívidas na zona euro poderá dar um empurrão ainda maior.

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Os juros podem inverter abruptamente a trajetória se houver algum contágio negativo significativo na zona euro, por exemplo, com origem na Grécia ou em Itália. A subida das taxas de juro do banco central norte-americano poderá ter um impacto em alta.

Imobiliário: a caminho de uma nova ‘bolha’?

Luis Barra

Os agentes do mercado garantem que não e dizem que o sector apenas vive um “momento feliz”. Mas, se fizermos a pergunta a economistas ou académicos, a resposta remete para os números do INE que mostram o preço médio da habitação a subir há vários trimestres. Em algumas zonas do centro de Lisboa, as casas de luxo atingem valores nunca vistos: mais de €10 mil euros por metro quadrado.

Em grande medida, o sector imobiliário — tanto na componente habitacional como comercial (escritórios e comércio) — está a ser fortemente impulsionado pela procura externa. Ou seja, por grandes fundos de investimento, promotores imobiliários ou particulares que encontraram em Portugal o destino favorito para aplicarem as suas poupanças no ‘mercado da pedra’. Portugal está na moda e é provável que esta onda de entusiasmo continue a impulsionar a procura.

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Os construtores começam já a falar na necessidade de voltar a lançar mais casas novas no mercado. O estatuto de residente não habitual, que permite aos estrangeiros comprarem casas em Portugal, com benefícios fiscais, vai continuar a ser um motor de forte crescimento.

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No segmento não residencial o investimento já está a cair 40%, face a 2016. Os grandes fundos de investimento podem estar a desviar as atenções para outros mercados. No caso da habitação, as quebras na concessão de vistos gold (a maioria dos quais se traduzem em compra de casas de luxo) são encaradas como um fator de insucesso por alguns dirigentes do sector.

Mercados: Lisboa entre as 15 bolsas que mais sobem

O índice das ações a nível mundial MSCI World soma ganhos de 10% desde o início do ano. O português PSI-20 ganha 14% e está entre os 15 principais índices que mais sobem este ano. O cenário macroeconómico mais positivo em Portugal e a melhoria de perspetivas de crescimento económico no país ajudam a explicar em parte a subida da Bolsa portuguesa. Mas o contexto externo tem sido determinante.

Em Wall Street os índices S&P 500 e Nasdaq têm batido máximos históricos. O medo parece ter desaparecido do radar dos investidores. Nenhum perigo real se vislumbra no atual contexto. O sentimento é de confiança. Nos EUA, a Reserva Federal mantém a perspetiva de subida das taxas de juro mas com calma. Na Europa, a economia está a crescer ao ritmo mais acelerado dos últimos anos o que colocou na sombra temas como o ‘Brexit’ e de alguma incerteza política.

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Indicadores macroeconómicos positivos poderão ajudar a reforçar os ganhos na Bolsa portuguesa, tal como uma melhoria nos ratings de dívida da República, manutenção da calma em termos políticos e das condições favoráveis ao investimento nos mercados a nível internacional.

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Qualquer sinal de instabilidade política teria impacto negativo na Bolsa de Lisboa bem como indicadores macroeconómicos desfavoráveis, deterioração do sentimento nos mercados internacionais ou o regresso de receios de perda do rating de 'grau de investimento' atribuído pela canadiana DBRS.

Défice orçamental: economia ajuda contas

Depois de atingir em 2016 o valor mais baixo da história da democracia portuguesa, nos 2% do PIB, o Governo aponta para um défice de 1,5% este ano. Bruxelas e o Fundo Monetário Internacional estão menos otimistas, apontando para 1,8% (CE) e 2,1% (FMI). Mas Bruxelas retirou Portugal do Procedimento por Défice Excessivo, sinalizando que acredita nas contas do Executivo, e a OCDE alinhou a sua previsão com a do Governo.

Há espaço para boas notícias, consideram os economistas, destacando que a dinâmica da economia deve ser muito positivo para as contas públicas. Tradução: espera-se uma boa arrecadação fiscal, no IRC, IRS, IVA, através do crescimento do consumo privado, e, também, ao nível da Segurança Social, com mais contribuições sociais (por aumento do emprego) e menores prestações (por descida do desemprego).

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Uma eventual melhoria do rating da República, possível ainda este ano, deverá melhorar as condições de financiamento do Estado (e das empresas), ajudando a baixar a fatura com juros da dívida.

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O grande risco chama-se Caixa Geral de Depósitos. Se a operação de capitalização for levada ao défice, pode atirá-lo para 2,5% do PIB. Depois, nos impostos especiais sobre o consumo, a receita pode ficar aquém das expectativas. Por fim, o aproximar do final do programa de compra de dívida do Banco Central Europeu pode penalizar as condições de financiamento.

Rating: à espera de qual das três dá o primeiro passo

reuters

Nos primeiros cinco meses do ano, as quatro agências de rating não comunicaram nenhuma alteração nem na perspetiva nem na notação de Portugal. O risco de a DBRS cortar o rating para ‘lixo financeiro’ em abril já não se colocou como em outubro do ano passado quando desencadeou um choque no mercado da dívida provocando uma subida dos juros acima de 3%.

No calendário da análise do rating, a Fitch é a primeira este verão, já a 16 de junho, a poder colocar em revisão a notação portuguesa dando um sinal de que poderá vir a retirá-la mais adiante do estatuto de ‘lixo financeiro’ em que a mantém desde novembro de 2011.

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Uma sucessão de sinais positivos pelas três principais agências de rating seria ouro sobre azul. Resta saber quem 
dará o primeiro passo. A Moody’s foi no período inicial da crise da dívida portuguesa a primeira a empurrar o rating para ‘lixo financeiro’. A Fitch analisa agora em junho e depois em dezembro.
A Moody’s a 1 de setembro e a S&P a 15 do mesmo mês.

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Os analistas ouvidos pelo Expresso inclinam-se para uma sequência lenta de passos por parte das agências, mas o arrastamento deste processo poderá ter impacto negativo se o BCE cortar mais nas compras.