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Mercados financeiros. 10 ‘eventos’ a seguir na próxima semana

Uma semana repleta de momentos que poderão contagiar as bolsas e os mercados da dívida soberana, com destaque para a reunião do banco central norte-americano. Em Portugal, há dois leilões de obrigações e a Fitch analisa o rating. Ecofin deve tirar o país do procedimento por défice excessivo

Jorge Nascimento Rodrigues

Uma semana cheia. Vão ocorrer três reuniões de política monetária em três dos principais bancos centrais do mundo – Reserva Federal norte-americana (Fed), Banco de Inglaterra e Banco do Japão -, sentir-se-ão as repercussões da primeira volta das eleições legislativas em França deste domingo e da perda de maioria absoluta do Partido Conservador no Reino Unido nas eleições antecipadas de quinta-feira passada, decorrerá a reunião do Eurogrupo sobre a Grécia, e serão divulgadas estimativas sobre a inflação em maio nos Estados Unidos e na Zona Euro (segunda estimativa).

Em Portugal há dois leilões obrigacionistas e a agência de notação Fitch analisa o rating da dívida de longo prazo do país, no mesmo dia em que o Ecofin deverá retirar o país do procedimento de défice excessivo (PDE).

A reunião da Fed é o evento com repercussão internacional mais importante, esperando-se uma subida das taxas de juro para o intervalo entre 1% e 1,25%, um nível próximo do que se registou durante 8 a 29 de outubro de 2008 quando se situaram entre 1,25% e 1,5%.

Macron poderá ter maioria absoluta esmagadora?

A semana vai ficar marcada politicamente na União Europeia pelos resultados da primeira volta das eleições legislativas em França. As primeiras projeções, da IPSOS, após as eleições deste domingo que registaram uma abstenção recorde de mais de 51%, apontavam para 32% dos votos nas listas do partido do presidente Emmanuel Macron e do seu aliado MoDem, 21% para os Republicanos, 14% para a Frente Nacional (abaixo das previsões das sondagens), 11% para a França Insubmissa (do ex-candidato presidencial Jean-Luc Mélenchon), 10% para o Partido Socialista (acima das previsões das sondagens), 3,3% para o Partido Comunista e 3,3% para os Verdes. Estes resultados apontam para a possibilidade, após a segunda volta a 18 de junho, de uma maioria absoluta esmagadora - acima de 70% - na Assembleia Nacional francesa das forças políticas apoiantes do novo presidente da República. Alguns analistas políticas já falam de uma "OPA" de Macron sobre a política francesa. O impacto nas bolsas europeias e no mercado da dívida da zona euro poderá dar sinais da ‘sensibilidade’ dos investidores à consolidação da posição do novo presidente, que pretende dar à França um novo papel interventivo na União e na zona euro.

May consegue maioria absoluta para o novo governo?

Na terça-feira, a chefe de governo incumbente Theresa May reúne-se com a líder dos Unionistas da Irlanda do Norte, que representam a quinta força política na nova Câmara dos Comuns britânica. As negociações visam obter uma maioria absoluta parlamentar para o novo governo minoritário de May, que apresentará o seu programa – através do discurso da Rainha abrindo a nova legislatura – a 19 de junho. As probabilidades são altas para que May consiga o objetivo.

Portugal regressa ao mercado da dívida de médio e longo prazo

Na quarta-feira, ocorrem dois leilões de Obrigações do Tesouro português com vencimento em 2022 e 2027. Os analistas vão estar atentos à procura bem como às taxas de colocação, que se espera que venham a ser inferiores às registadas nas operações similares anteriores em maio. No prazo a 10 anos, as yields no mercado secundário estão ligeiramente acima de 3%. No último leilão em maio, nesse prazo de referência, a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Publica (IGCP) pagou 3,386% e a procura foi ligeiramente inferior a 2 vezes o montante emitido (632 milhões de euros).

Inflação nos EUA desceu em maio?

Ainda no mesmo dia, será divulgada a estimativa da inflação em maio nos Estados Unidos. A inflação homóloga (comparando com o mesmo mês do ano anterior) tem desacelerado o seu ritmo mensal; caiu de 2,5% em janeiro para 2,2% em abril. Os analistas estarão atentos a se esta trajetória descendente do processo de reflação se manteve ou não em maio. Entretanto, um grupo de 22 académicos norte-americanos, incluindo o Nobel Joseph Stiglitz, publicou uma carta aberta à Fed propondo o “repensar da meta de 2%” para a inflação, considerada baixa no contexto atual. Os académicos propõem que o banco central constitua uma comissão independente “representativa e diversificada” para estudar o problema de uma subida ou não daquele alvo da estratégia monetária.

Fed sobe juros?

Finalmente, na quarta-feira, o comité de política monetária da Fed reúne-se em Washington para decidir se sobe ou não as taxas de juro. O mercado de futuros destas taxas aponta para uma probabilidade de 99,6% de que as taxas sofram um aumento de 25 pontos base para um novo intervalo entre 1% e 1,25%, segundo o grupo CME. Para a Bloomberg, a probabilidade é de 97,8%. Os três aumentos anteriores foram aprovados em dezembro de 2015 – quando foi abandonado o mínimo histórico de 0% a 0,25% que esteve em vigor desde dezembro de 2008 -, dezembro de 2016 e março de 2017. O mercado de futuros só aponta para uma outra subida de mais 25 pontos base, para um intervalo entre 1,25% e 1,5%, na reunião de março de 2018. Outro ponto importante da agenda será o início do processo de redução dos ativos da Fed que somavam 4,4 biliões de dólares no final de maio (o equivalente a 3,9 biliões de euros), na sequência do quantitative easing prosseguido face à crise financeira. Os ativos do Banco Central Europeu eram de 4,2 biliões de euros no início de junho.

Primeira reunião do Banco de Inglaterra depois das eleições

Na quinta-feira, reúnem-se, pela primeira vez desde as eleições antecipadas, os nove membros do Comité de Política Monetária do banco central britânico liderado por Mark Carney. Não é esperada qualquer alteração na política monetária. A taxa de referência está num mínimo histórico de 0,25% desde agosto de 2016. A inflação em abril situou-se em 2,7%, a mais elevada desde setembro de 2013. A trajetória da inflação é ascendente este ano, desde 1,8% registado em janeiro. A estimativa para maio será divulgada na terça-feira. Segundo um inquérito realizado em maio para o banco, as expetativas de 42% dos britânicos para os próximos 12 meses é que a inflação deverá subir, enquanto 31% acham que se manterá nos níveis atuais. Os juros dos títulos britânicos a 10 anos desceram de 1,38% antes do referendo a favor do Brexit a 23 de junho do ano passado para 1,003% no fecho de sexta-feira passada, após as eleições antecipadas de quinta-feira. O comportamento dos juros não foi linear na queda dos últimos 12 meses; desceu de 23 de junho do ano passado até um mínimo de 0,51% em agosto desse ano, para subir até 1,52% no final de janeiro de 2017 e voltar a cair até 1% no final da semana passada.

Eurogrupo dá luz verde à Grécia?

Ainda nesse dia, o Parlamento helénico votará, numa discussão de última hora, emendas finais que permitam concluir as 140 medidas legislativas que foram exigidas pelos credores oficiais europeus. A reunião dos ministros das Finanças dos 19 decidirá sobre o fecho do segundo exame ao terceiro resgate, depois de ter adiado a resolução na reunião de maio. Os analistas inclinam-se para um acordo mínimo que permita um desembolso a Atenas de uma tranche de 7,5 a 10 mil milhões de euros que evite que a Grécia entre em julho em incumprimento de dívida – ao Banco Central Europeu, ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e a detentores privados de obrigações reestruturadas - e que facilite a redução da dívida a fornecedores. O FMI deverá aceitar um acordo de princípio para o fecho do segundo exame, adiando a questão de um compromisso sobre as medidas concretas de médio prazo para o alívio da dívida grega que garantam a sua sustentabilidade. Este adiamento significa que o Fundo não aprovará ainda a sua participação financeira no terceiro resgate. Christine Lagarde, a diretora-geral, deverá assistir à reunião do Eurogrupo, o que não aconteceu em maio.

Reunião do Banco do Japão

Na sexta-feira, reúne-se em Tóquio o conselho de política monetária do banco central nipónico, formado por nove membros, liderado pelo governador Haruhiko Kuroda. Os ativos do Banco do Japão subiram para 500.800 biliões de ienes no final de maio, o equivalente a 4 biliões de euros. Kuroda tem pedido paciência em relação a uma normalização da política expansionista. A taxa de juro de referência é de 0,3% desde dezembro de 2008 e a taxa de remuneração dos depósitos dos bancos é negativa, -0,1% desde fevereiro de 2016. A inflação em abril subiu para 0,4%. O crescimento da economia japonesa é muito fraco. No primeiro trimestre do ano em curso foi de apenas 0,3%, o mesmo ritmo do que nos dois trimestres anteriores.

Segunda estimativa da inflação em maio na zona euro

O Eurostat divulga na sexta-feira, uma nova estimativa sobre a inflação em maio no conjunto dos 19 membros da moeda única. A estimativa preliminar, publicada a 31 de maio, apontava para 1,4%, o nível mais baixo do ano. A inflação na zona euro tem revelado este ano um comportamento errático: 1,8% em janeiro, 2% em fevereiro, 1,5% em março, 1,9% em abril e 1,4% em maio. O BCE tem decidido não mexer na política monetária expansionista em virtude do comportamento não convincente do processo de subida da inflação na zona euro. Na reunião da semana passada, o banco central publicou novas previsões em que reviu em baixa a inflação de 2017 a 2019, último ano da projeção em que a taxa deverá situar-se em 1,6%, claramente inferior à meta oficial da política monetária (“abaixo, mas próxima de 2%”).

Fitch dará sinal de graduação futura do rating português?

Ainda no final da semana, a agência de notação Fitch analisará a situação portuguesa. Os analistas estarão atentos a ver se esta agência dará algum sinal de que poderá graduar em breve o rating da dívida de longo prazo, retirando-o do nível especulativo, vulgo ‘lixo financeiro’. A Fitch mantém Portugal nessa situação desde novembro de 2011. No mesmo dia, a reunião dos ministros das Finanças da União Europeia, Ecofin, deverá aprovar a saída de Portugal do PDE.

Atualizado após primeiras projeções de resultados da primeira volta das eleições legislativas em França.