Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Aviação. “Nós, mulheres, também conseguimos”

Amy Johnson, pioneira da aviação no feminino, deu o nome à campanha da easyJet focada em atrair mulheres para o espaço aéreo

GETTY

Companhias aéreas procuram aviadoras para combater preconceitos e a carência universal de pilotos

Rute Barbedo

A primeira vez que Patrícia Pimenta andou de avião tinha 16 meses, e talvez por uma janela mal fechada o vírus da aviação lhe tenha entrado no corpo. “Sempre viajei muito com os meus pais, eles levaram-me a conhecer novos países e culturas. A partir de uma certa idade, chorava assim que entrava no avião”, conta a aluna de 20 anos, que está há menos de um mês no curso de Piloto de Linha Aérea da GAir, a escola de aviação de Ponte de Sor.

O tio era piloto e, por isso, as luzes do cockpit nunca lhe foram estranhas. Mas, sendo rapariga, Patrícia pensou primeiro em ser hospedeira de bordo. “A minha família é que começou a falar que teria mais oportunidades a pilotar e eu apaixonei-me pela ideia”, relata. A nuvem de fantasia em que flutua a profissão e a hipótese de uma progressão rápida na carreira funcionam como aliciantes. Mais concretamente, salário inicial na ordem dos 3000 euros líquidos e emprego quase garantido — há entre 6000 e 7000 pilotos em falta para os aviões que a Boeing tem encomendados. No verso da moeda, ficam os dias consecutivos fora de casa, “a dificuldade em criar família”, como nota Patrícia, e o desgaste rápido associado às atividades do espaço aéreo (no ano passado, um estudo da Universidade de Harvard concluiu que 12,6% dos pilotos sofrem de depressão).

Nada disto demove Patrícia do objetivo de conhecer o mundo nem da sua mais recente missão: “Mostrar que nós, mulheres, também conseguimos.” E porque não haveriam de conseguir? Segundo Nelson Ferreira, vice-presidente da GAir, não há qualquer razão — física, psicológica ou social — que diferencie a qualidade de um piloto em função do género. “As mulheres até são menos propensas ao daltonismo”, refere, aludindo a um dos poucos fatores de exclusão da profissão. Como nota o responsável, além do “preconceito e barreiras mentais”, “existem muitas pessoas que pensam que para se tornarem pilotos de linha é preciso serem o Tom Cruise ou é como ser astronauta. Mas [na aviação comercial] só é preciso ter uma saúde normal, nem a miopia é um problema”.

No entanto, apenas 3% dos pilotos são do sexo feminino — ou seja, 4000 de um total de 130 mil profissionais — e, se considerarmos os escalões acima, um avião A380 chegaria para concentrar todas as comandantes do mundo — 450. “As mulheres acabaram por ir mais para assistentes de bordo e foi com essa imagem que ficámos”, afirma Nelson Ferreira.

Quem tem medo 
de Amy Johnson?

É com base neste cenário que a easyJet definiu um objetivo ambicioso: garantir que, até 2020, 20% das admissões são de mulheres. Ao mesmo tempo, lançou este mês a maior ação de recrutamento de sempre, pretendendo integrar 450 profissionais (pilotos-cadete, copilotos com experiência, comandantes de outras companhias e militares) na equipa e combater, assim, a falta de pilotos de que o mundo sofre. A atenção particular sobre o público feminino começou em outubro de 2015, quando a companhia aérea lançou a campanha Amy Johnson (nome com que batizou uma aeronave para chamar a atenção do género menos representado no sector), a primeira mulher a voar a solo de Inglaterra à Austrália, em 1930. O objetivo era duplicar o número de mulheres-pilotos para 12% em dois anos, mas a fasquia foi alcançada em menos de 12 meses. Portanto, agora, “a easyJet recrutará cerca de 50 mulheres piloto por ano, o que irá começar a mudar verdadeiramente a indústria”, refere a empresa britânica em comunicado.

Discriminação? Se não é permitido recrutar tendo por base a diferenciação pelo género, o mesmo não se aplica a iniciativas que visem sensibilizar mulheres e homens para áreas em que não são protagonistas habituais. Em 2014, a British Airways já havia apontado o foco para o público feminino, com a campanha Future Pilot.

No ano passado, através do protocolo estabelecido entre a easyJet e a GAir, “todos os alunos formados em Portugal foram recrutados para trabalhar cá”, informa Nelson Ferreira. Ainda assim, o responsável admite que é “difícil quantificar quantos pilotos ficam no país, porque a aviação é um mundo global”. É como explica Patrícia: “Sei que no início não vou ter muitas opções em termos de colocação ou de escolher uma companhia, mas espero, ao fim de alguns anos, voltar para Portugal.”

Altos voos

Existe, no entanto, um entrave — nada psicológico ou cultural — à entrada na carreira de aviador, que é o investimento financeiro inerente à formação, não inferior a 60 mil euros. Foi esse o fator que levou Eva Aguiar a hesitar na hora de escolher o futuro. “A aviação civil deixa muita gente de fora por causa da questão do dinheiro”, refere a jovem pacense, que afirma ter recorrido à ajuda dos pais e a um empréstimo bancário para tentar concretizar o sonho de andar pelos ares. Ainda assim, “esse investimento recupera-se num curto espaço de tempo”, calcula a futura piloto, dado confirmado pelo “salário mínimo” na ordem dos €3000, que facilmente escala até €9000, o montante médio pago pela TAP e que poder atingir patamares mais elevados em companhias nórdicas, por exemplo.

A exigência do curso, por outro lado, é elevada. No caso da GAir (em Portugal existem outras escolas, como o Aero Club de Portugal, a Nortávia ou a Omni Aviation), implica a conclusão de 14 disciplinas teóricas e uma componente prática que envolve simulações e pilotagem real, num total de 15 a 18 meses, dependendo do desempenho de cada aluno. “Os primeiros testes são de Matemática, Física, Inglês, médicos e psicológicos”, sendo estes últimos determinantes, segundo o vice-presidente da escola. “Sabemos que as companhias procuram autonomia, liderança e assertividade”, concretiza.

De Ponte de Sor, saem todos os anos 120 a 130 novos pilotos, mas é uma gota de água no oceano. “O sector está a crescer 6% ao ano e há uns 30 anos que não se faz nada no sentido de combater a falta de pilotos”, pelo que a procura por quem domina os humores de uma aeronave continuará em alta.