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Brexit: Oh dear, a comida está a encolher

Chefe Gordon Ramsay na festa de apresentação da nova grelha de programação da Fox, em Nova Iorque, EUA (Getty)

Reduzir o tamanho dos alimentos tem sido a tendência. Agora até o cozinheiro Gordon Ramsay tem uma equipa para negociar o preço dos ingredientes importados

A tendência para a redução do tamanho dos produtos alimentares exportados para o Reino Unido está para ficar. Mais ainda agora com o impacto do Brexit no preço das importações britânicas, nomeadamente devido à desvalorização da libra. Os gelados Magnum e Corneto já diminuíram de tamanho e os chocolates Toblerone perderam alguns triângulos.

Agora foi a vez do mediático cozinheiro Gordon Ramsay decidir encarar de frente a crescente espiral dos preços das matérias-primas e dos produtos importados, que se agrava cada vez mais com a desvalorização da libra.

Esta semana, Gordon Ramsay anunciou que acaba de contratar uma equipa especializada em 'impactos pós-Brexit', para lidar com a escalada dos custos com a comida que enfrenta nos seus 31 restaurantes. "O modelo de negócio visa evitar alterações dos preços e passar para os consumidores essa pressão inflacionária e monetária", explica um porta-voz de Gordon Ramsay, citado no 'The Guardian', acrescentando que a compra do vinho é a que está mais exposta à pressão monetária

Apesar destes problemas, o Gordon Ramsay Group teve um regresso rápido aos lucros, pela primeira vez em dois anos, com lucros de 739 libras mil (€841 mil) e vendas de 51,9 milhões de libras. Um resultado conseguido com a reestruturação do negócio e a expansão internacional.

Preços a subir no Reino Unido

A subida dos preços da comida no Reino Unido não é recente e tem-se agravado nos últimos anos. De acordo com o British Retail Consortium, a associação dos retalhistas britânicos, os preços subiram 1% nos últimos 12 meses até março, o que representa a subida mais rápida dos últimos três anos.

Por seu lado, a Kantar Wordpanel, empresa especializada em estudos sobre consumo, garante que as contas de supermercado dos britânicos está cada vez mais pesada. Os preços dos bens de consumo diário cresceram 2,3%, nas últimas 12 semanas até 26 de março, segundo os dados da Kantar.

Apesar do Brexit já ter desvalorizado a libra em relação ao dólar em cerca de 13%, os problemas com os preços da comida e das matérias-primas na indústria alimentar não surgiram com o referendo votado em junho do ano passado. Agravaram-se com a vitória de Donald Trump, em novembro de 2016, mas já antes destes acontecimentos alguns operadores da indústria alimentar andavam a ajustar os seus produtos. É que, a subida do preço do petróleo associada à desvalorização da libra na sequência do Brexit tornaram as importações para o Reino Unido mais dispendiosas.

Um dos primeiros (e dos que deram mais polémica) a seguir uma estratégia de poupança, passando esse custo para o consumidor, foi a Unilever (dona dos gelados Olá) com a redução dos tamanhos do Magnum e do Cornetto.

Primeiro, em 2016, com o argumento da introdução de um limite de 250 calorias por gelado. Nesta altura o Magnum Clássico e o Branco, por exemplo, ficaram 8% mais pequenos. O Double Caramel, por seu lado, passou de 110 ml para 88ml. Mas o que deixou os britânicos em fúria não foram as preocupações nutricionais da Unilever ou a redução do tamanho dos gelados. O problema foi que os preços mantiveram-se intactos.

No final do ano passado foi a vez da Toblerone perder dimensão, passando as tabletes de 400 gramas para 360 gramas, enquanto as 170 gramas reduziram para 150 gramas. Na prática, cada tablete passou a ter menos triângulos e com um intervalo maior entre eles. Em causa esteve a necessidade de redução de custos. No Reino Unido, os consumidores associaram esta redução como uma sequência da votação para a saída da União Europeia. O grupo Mondelez (dono do Toblorone), no entanto, garantiu que a mudança não teve a ver com o Brexit, mas que se deveu à subida do valor do franco suiço, o que aumentou os custos de produção.

Já este ano foi a Mars quem encolheu em cerca de 15% as embalagens dos chocolates Maltesers, M&M e Minstrels, vendidas no Reino Unido. Em março reduziu o número de bolinhas de Maltesers, passando cada embalagem a pesar 93 gramas, quando em 2016 já tinha emagrecido de 121 gramas para 103 gramas. "Estivemos a absorver o aumento dos preços das matérias-primas e dos custos operacionais, mas as crescentes pressões significam que não podemos manter as coisas. Reduzir o tamanho dos produtos não é uma decisão que tenhamos tomados de ânimo leve", justifica um porta-voz da Mars, citado pelo The Guardian.

A redução do tamanho dos produtos alimentares no Reino Unido está a ser extensível também às bebidas, com sumos de laranja a serem engarrafadas em garrafas de 950 ml em vez de um litro, por exemplo. O Reino Unido importa 48% da comida que consome, o que significa que muitos mais produtores alimentares poderão vir a adotar este 'emagrecimento' forçado.