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Valor da reforma disponível online até Março

Além do simulador, a Segurança Social quer acompanhar os bebés desde o nascimento. Novidades reveladas na Fujitsu World Tour

Os portugueses vão ficar a saber, já durante o primeiro trimestre de 2018 e através da internet, quanto é que vão receber de reforma, mesmo que a peçam antecipadamente. Esta será uma das funcionalidades do novo simulador de pensões que a Segurança Social está a preparar e que vai substituir o atual, que “tem várias limitações”, disse ao Expresso a presidente do Conselho Diretivo do Instituto de Informática da Segurança Social, Paula Salgado. “A partir do primeiro trimestre de 2018 basta ir ao site da Segurança Social Direta e entrar com a password, como se faz hoje. Mas depois vai ser possível ver quando é que se pode reformar, quanto vai receber e que penalizações tem se se quiser reformar antes da idade”, explicou a mesma responsável, adiantando que há ainda mais novidades.

“Vamos também ter um novo sistema online para pedir as pensões, mas neste caso só no final do próximo ano. Ou seja, vai ser possível ir ao mesmo site da Segurança Social Direta e fazer tudo lá, sem ter de ir fisicamente aos centros regionais da Segurança Social”, contou Paula Salgado. Contudo, esses centros regionais terão de se manter e não há o risco de redução de pessoal, porque “haverá sempre pessoas, mais da zona do interior ou infoexcluídas, para quem se mantém o atendimento tradicional”, revelou durante a sua intervenção na conferência Fujitsu World Tour dedicada ao tema da transformação digital da economia e das empresas, à qual o Expresso se associou.

Tal como a Segurança Social, também outras empresas, como EDP, CTT, Fidelidade, CGD, CP ou NOS, têm estado a digitalizar os seus negócios e, principalmente, os serviços e a relação com os clientes (ver caixas). Também elas estiveram representadas nesta conferência da Fujitsu para debater o impacto da transformação digital e para apresentar algumas das inovações que têm estado a desenvolver. As ambições são grandes, até porque a transformação digital de uma empresa não passa apenas por criar aplicações ou meios de pagamento digitais. “Ser digital requer uma transformação de toda a organização”, disse um dos responsáveis da Fujitsu na Europa, David Leen, outro dos intervenientes nesta conferência, a sétima de uma digressão que passa por 22 países em todo o mundo. Uma opinião partilhada por Paula Salgado. “A tecnologia é um facilitador, mas tem de haver um novo alinhamento organizacional”, comentou.

Acompanhar bebés
É por isso mesmo que os objetivos da Segurança Social no que respeita à digitalização dos serviços prestados aos cidadãos são muito mais amplos do que apenas novos simuladores ou sistemas de pedidos de documentos. Um dos projetos em cima da mesa passa por ter acesso aos dados dos bebés e dos pais logo depois do nascimento. “A ideia é, quando é feito o Cartão de Cidadão do bebé, a Segurança Social entrar em contacto com os pais e dizer-lhes logo ao que eles têm direito ou não, como por exemplo abonos e licenças de parentalidade”, disse Paula Salgado. Porque, explicou, “a visão é que a digitalização permita uma mudança de paradigma na relação com o cidadão, ou seja, ser a Segurança Social a ir até ao cidadão e não o contrário, como acontece hoje”.

Este projeto não passa para já disso mesmo e só deverá começar a ser desenvolvido no primeiro trimestre de 2018, disse ao Expresso Paula Salgado. “Para que possa andar para a frente é necessário haver alterações legislativas. A proteção de dados tem de permitir que a Segurança Social possa fazer isso. E é por aí que temos de começar”, explicou ainda a responsável do Instituto de Informática da Segurança Social.

Uma das conclusões da conferência desta quinta-feira organizada pela Fujitsu mostra que a abertura da economia ao digital é inevitável, mas traz riscos e uma série de incertezas. As quebras de segurança e a perda de dados da própria empresa e dos seus clientes é um dos maiores receios, e por isso é importante criar departamentos ou equipas de cibersegurança. Não só porque quase todos os dias são detetadas falhas mas também porque a União Europeia aprovou a Regulação Geral da Proteção de Dados, que obrigará, a partir de 2018, que todas as empresas e organizações, incluindo as públicas, reportem essas quebras de segurança. Caso contrário arriscam -se a pagar multas de 4% dos seus lucros. “E ninguém quer pagar multas dessas”, comentou David Leen.

COMO ESTAS EMPRESAS ESTÃO A FAZER A TRANSFORMAÇÃO

EDP
Cibersegurança energética

A EDP começou cedo a aplicar a transformação digital na empresa, nos projetos e nos serviços que prestam aos clientes. “Usamos a tecnologia para ajudar a transformar digitalmente o negócio mas também para o tornar mais seguro e resiliente”, diz fonte oficial da elétrica. Um dos exemplos destas intervenções tem sido na cibersegurança. A EDP tem “um CyberRange real onde os colaboradores que operam sistemas que controlam infraestruturas críticas são treinados a detetar e a reagir a ciberataques em ambiente de wargames”. No que respeita a projetos, uma das maiores intervenções arrancou logo em 2010, quando a elétrica apresentou Évora como a primeira cidade inteligente do país, equipando-a com redes e contadores que permitem detetar e resolver avarias e fazer as leituras de forma remota. Nos serviços, um bom exemplo é o re:dy. Apresentado em 2014, este sistema instala-se em casa e permite controlar através do telemóvel e em qualquer lugar a que horas ligar o forno ou desligar luzes esquecidas.

CTT
Digitalização, a grande cartada

Os Correios são um dos sectores que mais sentiu a transformação digital. Sabemos hoje que se enviam menos 270 milhões de cartas em Portugal do que há 10 anos, mas que se enviam mais 18 milhões de encomendas e que mais de 1,2 milhões de portugueses têm home banking”, refere Francisco Simão, administrador dos CTT. A empresa tem vindo a desenvolver vários serviços onde a digitalização é a chave: o Ads.pt, que permite “às empresas portuguesas, de forma completamente autónoma, comprar, criar e gerir as suas campanhas publicitárias de correio, e-mail e SMS”; o E-Segue, que dá o controlo total na receção das encomendas, “podendo alterar a qualquer momento o local e hora da entrega (através do site CTT Expresso ou com uma app que será lançada brevemente)”; e o Banco CTT, “um pilar fundamental da estratégia de diversificação”. A empresa recentemente privatizada lançou um crédito à habitação em que todo o processo é feito através de uma app.

FIDELIDADE
Neutralizar as amea
ças
A companhia de seguros Fidelidade está a trabalhar na transformação digital “em duas grandes vertentes”, explicou o vice-presidente, Rogério Henriques. Uma delas é no relacionamento com os clientes. Por exemplo, hoje é possível pedir assistência automóvel através de uma aplicação e até acompanhar o percurso do reboque. Ou, no que respeita aos seguros de saúde, é possível ter um médico online no site, mediante um registo. A outra vertente é “nos processos de trabalho” da própria empresa, nomeadamente na transformação do backoffice e na cibersegurança. “Temos aplicado práticas operacionais, neste caso, equipas de segurança que neutralizam as ameaças”, acrescentou o mesmo responsável. Isto porque, conta Rogério Henriques, “todos os dias há ameaças que são evitadas, e muitas delas mostram que há sempre um erro humano que pode ter levado a essa quebra de segurança”.

CP
No comboio da desmaterializa
ção
Para a CP, mesmo olhando para a transformação digital, a grande preocupação continua a ser o transporte de passageiros. E por isso é que os primeiros avanços que fizeram na digitalização da empresa e da operação foi equiparem os comboios com sistemas que permitem informar quando precisam de manutenção e que acionam logo um pedido de peças, adiantou o administrador da CP, Nuno Sanches Osório. O objetivo agora é desenvolver a digitalização na relação como os clientes, e nesse caso o que estão a fazer são alterações no frontoffice, nomeadamente a desmaterialização dos bilhetes, ou seja, gradualmente reduzir os bilhetes em papel. Para isto é preciso alterar os sistemas de emissão dos bilhetes mas também de leitura dos mesmos, como por exemplo a leitura dos bilhetes nos telemóveis.

DISCURSO DIRETO

“Se só investirem em aplicações para parecer bem, as empresas não vão a lado nenhum”
David Leen
Diretor de Informação da Fujitsu EMEIA

“Uma das componentes que estamos a desenvolver tem que ver com a gestão remota de infraestruturas, como as redes ou as centrais”
António Martins da Costa
Administrador executivo da EDP

“A transformação digital é, por vezes, uma disrupção total 
no negócio de uma empresa. Muito do que temos hoje
não existirá no futuro”
Joseph Reger
CTO da Fujitsu EMEIA

“É possível passar para o dinheiro digital, mas é preciso segurança”
Pedro Veiga
Coordenador do Centro Nacional de Cibersegurança

“A cocriação não é outsourcing. Outsourcing é delegar noutra empresa. A cocriação é chamar alguém com know-how
para nos ajudar a criar”
Carlos Barros
Diretor geral da Fujitsu Portugal

A hora de surfar na onda

O que é que empresas como a Unilever, a Philips, Amazon ou a Netflix têm em comum? À primeira vista, muito pouco. Competem em sectores muito diferentes e têm histórias bem diversas. A Unilever e a Philips são empresas com mais de um século, enquanto a Amazon e a Netflix nasceram na era da internet. O que têm em comum, explica um estudo da consultora McKinsey publicado no final de 2016, é o facto de terem crescido nos últimos anos mais depressa do que a concorrência. Como o conseguiram? Porque foram ao encontro do que os consumidores precisavam e exigiam.

A Unilever teve grande sucesso ao avançar com um processo de cocriação que deu origem ao champô seco TRESemmé. A Philips analisou o comportamento dos consumidores e redesenhou com sucesso a sua linha de produtos domésticos. Por sua vez, a Amazon criou um sistema de recomendações baseado em dados dos clientes e consegue aumentar as receitas em mais um terço através de vendas cruzadas (cross-selling). Por último, a Netflix conseguiu triplicar o número de subscritores do serviço de televisão através da internet entre 2011 e 2015, em grande parte por ter conseguido criar séries como “House of Cards”, com base da análise do comportamento dos subscritores.

Quatro casos para ilustrar uma ideia simples: hoje dificilmente uma empresa (grande ou pequena) tem sucesso se não entender os seus clientes. Só que para o conseguir já não pode usar os antigos métodos, baseados, por exemplo, em entrevistas ou estudos de opinião porta a porta. Tal como fizeram as quatro multinacionais analisadas pela McKinsey, as empresas portuguesas também precisam analisar o comportamento digital dos seus clientes, por exemplo, nas redes sociais, para perceber melhor as tendências de consumo. E para conquistar novos clientes devem encarar seriamente a possibilidade de usar novos métodos geradores de inovação, por exemplo, o design thinking ou a cocriação digital envolvendo entidades externas (crowd sourcing). Mas, o grande salto em frente, que até pode ser uma questão de sobrevivência para muitas empresas portuguesas, passa pela transformação digital.

Muito mais do que a introdução de tecnologia nos processos de negócio, esta transformação digital é uma disrupção muito mais profunda que é definida pela IDC como “um processo contínuo através do qual as empresas se adaptam ou apresentam mudanças inovadoras aos seus clientes e mercados”. Esta revolução só acontece, segundo esta consultora, com a “melhoria das competências digitais para inovar em novos processos de negócio, produtos ou serviços que misturam de forma uniforme, o digital, as experiências de empresas e clientes”. Uma visão que é oposta à atitude de “olhar para o umbigo” da empresa tradicional, que apenas procura produzir e vender os produtos e serviços em que acredita, sem o envolvimento do ecossistema externo (clientes, fornecedores, concorrentes e autoridades reguladoras). Para que as empresas portuguesas possam apanhar esta onda de transformação digital e seguir o exemplo da Unilever, Philips, Amazon e Netflix, chegou a hora de aprender depressa e atuar rápido.

João Ramos
Jornalista

Artigos originalmente publicados no Expresso Economia de 3 de junho de 2017