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BCE. Draghi vai alterar discurso, mas não essência da política na quinta-feira

Os analistas financeiros esperam para dia 8 de junho algumas ‘mexidas’ na comunicação da reunião e no discurso do presidente do banco central, mas não sinais de mudanças fundamentais de política monetária na zona euro

Jorge Nascimento Rodrigues

Os analistas financeiros esperam que o Banco Central Europeu (BCE) altere alguns aspetos da sua comunicação pública após a reunião desta semana, a 7 e 8 de junho, em Tallinn na Estónia. E que o presidente do banco, Mario Draghi, explique as mudanças parciais de linguagem na conferência de imprensa que se seguirá à divulgação dos resultados da reunião na próxima quinta-feira ao início da tarde.

Os dois casos em que há probabilidade de alteração do discurso oficial dizem respeito ao BCE passar a considerar que os riscos para a zona euro estão agora “equilibrados” e não enviesados para pior (“riscos em sentido descendente”, na linguagem banqueira) e que as taxas de juro, que estão em mínimos históricos, não correrão o risco de permanecer nos “níveis atuais ou em níveis inferiores durante um período alargado e muito para além do horizonte das compras líquidas de ativos”.

O BCE pretenderá transmitir um sinal de evolução positiva da economia da zona euro, eventualmente com uma revisão em alta do crescimento em 2017 – de 1,8% para 1,9% -, e começar a preparar os mercados financeiros para mudanças de fundo futuras na política monetária, sobretudo não convencional.

Fim definitivo do QE ainda não será anunciado

No entanto, os analistas não preveem que sejam dadas indicações de mudanças fundamentais na política monetária expansionista, nomeadamente em relação ao que sucederá ao programa de compra de ativos em 2018 e a uma primeira subida das taxas de remuneração de depósitos que estão no mínimo histórico de -0,4%, e que têm sido acusadas de prejudicar a banca da zona euro.

O comportamento errático da inflação na zona euro, que subiu de 1,5% em março para 1,9% em abril e caiu para 1,4% em maio, o mínimo do ano, e a desaceleração da inflação subjacente (que exclui as componentes mais voláteis dos preços no consumidor) de 1,2% em abril para 0,9% em maio não garante a sustentabilidade do processo de reflação em direção a 2%, a meta do BCE. O que poderá levar na quinta-feira a uma revisão em baixa da previsão de inflação anual para 2017 de 1,7% para 1,5% e, no caso da inflação subjacente, de 1,1% para 1%.

Numa sondagem divulgada esta segunda-feira pela Bloomberg, 95% dos analistas ouvidos acham que a menção aos riscos vai ser efetivamente alterada agora em junho.

O BCE apontará o foco para os riscos externos à zona euro, nomeadamente os quatro mais citados: impactos do Brexit na sequência dos resultados (incertos) das eleições legislativas britânicas na quinta-feira (que não serão ainda conhecidos quando terminar a reunião do BCE); dúvidas sobre a transição de modelo económico na China; incerteza sobre a política orçamental da Administração Trump (esta segunda-feira um responsável do FMI em Tóquio usou a expressão benigna “falta de clareza”); e uma sequência em 2017 de subidas das taxas de juro pela Reserva Federal norte-americana mais rápida do que o projetado pelos mercados de futuros. A que se poderão associar outros riscos geopolíticos, como o agravamento súbito da situação no Médio Oriente (com a decisão esta segunda-feira de suspensão de relações diplomáticas e corte de ligações aéreas e marítimas com o Qatar por parte de cinco vizinhos da região do Golfo) e a crise permanente na península da Coreia.

Riscos internos que exigem cautela

Riscos internos à zona euro, como o desfecho do segundo exame ao terceiro resgate da Grécia – que voltará a ser analisado na reunião do Eurogrupo a 15 de junho – ou a evolução da crise bancária e política em Itália, parecem estar fora do radar do BCE na comunicação oficial. O que não quer dizer que não estejam bem na mente dos banqueiros centrais do euro e que não aconselhem cautela à equipa de Draghi.

O BCE recentemente manifestou-se no sentido de ser indispensável haver clareza sobre a sustentabilidade da dívida grega, alinhando com as exigências do Fundo Monetário Internacional. E a equipa do italiano Draghi não ignora que o risco de uma saída de Itália do euro se mantém como o segundo mais elevado depois da Grécia, segundo os dados mais recentes do índice da consultora Sentix. A situação interna poderá, também, agravar-se em Espanha, se o PSOE, de novo, sob a liderança de Pedro Sánchez, materializar uma “oposição implacável” ao atual governo de Mariano Rajoy.

O analista norte-americano Marc Chandler sublinha que a equipa de Draghi quer evitar repetir decisões prematuras de 'aperto' da política monetária, pois ainda estão na memória os erros graves de Jean-Claude Trichet, o anterior presidente do BCE, quando procedeu a subidas das taxas de juro em julho de 2008 e abril e julho de 2011.

No entanto, já não há consenso se se materializará esta semana, ou só na reunião de 19 e 20 de julho, a “limpeza” da referência a que as taxas de juro se vão manter em mínimos históricos, ou mesmo eventualmente descerem ainda mais, durante um período alargado e muito para além do horizonte do programa de compras líquidas de ativos (atualmente previsto para findar em dezembro deste ano).

Sinais sobre o QExit só no outono

O que reúne consenso entre os analistas e os departamentos de análise dos grandes bancos internacionas é que sinais sobre a forma como o programa de compra de ativos – vulgo, quantitative easing (QE) – vai ser descontinuado em 2018 só deverão ser tornados públicos nas reuniões de setembro ou outubro do BCE.

O Commerzbank prevê um início de corte das compras mensais de ativos – atualmente em €60 mil milhões - a partir de janeiro de 2018, a um ritmo de redução de €5 mil milhões por mês, ou seja, o programa terminaria efetivamente até ao final do próximo ano. Segundo a sondagem da Bloomberg referida, a descontinuação gradual seria realizada em menos tempo, em sete meses.

A questão da descontinuação do QE – a que alguns analistas já apelidam de QExit - é decisiva, nomeadamente para os periféricos do euro.

Economias mais vulneráveis do euro vão sentir o ‘choque’ do corte

O programa de aquisição de dívida pública no mercado secundário pelo BCE somava €1,56 biliões em 26 de maio, e, no caso de Portugal, equivaleu a um 'resgate' de mais de €27 mil milhões até final de abril.

Segundo um estudo do próprio BCE publicado no ano passado, o programa terá influenciado uma redução de 142 a 155 pontos base (o equivalente a 1,42 a 1,55 pontos percentuais) nos juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos, e de 101 a 129 pontos base para Itália e Espanha na mesma maturidade.

O Commerzabank sublinha que uma descontinuação terá de existir em 2018, pois a extensão das compras de obrigações soberanas no próximo ano, ao ritmo atual, implicaria a violação do limite de 33%, subindo a carteira do BCE para 37% da dívida elegível. Ainda segundo o departamento de análise económica daquele banco alemão, o impacto numa subida dos prémios de risco vai ser bastante acentuado em 2019 para os periféricos e também para os mais vulneráveis do centro da zona monetária, mais até do que em 2018.

Quanto à mexida na taxa negativa de remuneração dos depósitos dos bancos da zona euro nos cofres dos bancos centrais do Eurosistema, as previsões do Citi Research apontam para uma subida gradual só a partir do terceiro trimestre de 2018, o que coincide com a opinião de mais de 50% dos entrevistados para a sondagem da Bloomberg referida.

As críticas aos efeitos negativos da taxa sobre os depósitos no sector bancário da zona euro têm sido contestados em virtude da subida do índice bolsista do sector em 67% entre julho de 2016 e o inicio de junho de 2017, depois de uma descida de 29% entre a data de decisão de baixar a taxa para -0,4% em março de 2016 até início de julho do mesmo ano.