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Há mais emprego qualificado no mar

Este verão nasce em Portugal um dos maiores centros de cultura de microalgas da Europa

Ana Baião

Economia azul Engenheiros e cientistas procurados por empresas dedicadas à inovação

Rute Barbedo

A 1 de abril cruzou-se a barreira. No fã nº 1 de peixe da União Europeia, Portugal, a Plataforma de Organizações Não Governamentais Portuguesas fez ver que, se apenas consumíssemos pescado de águas nacionais, o resto do ano seria vegetariano ou à base de carne. O alerta tentou sensibilizar para um consumo sustentável mas também para a necessidade de diversificar a oferta e certificar a origem dos produtos marítimos. Por outro lado, pode ser visto como um ‘olá’ à aquacultura. O problema não é unicamente português. A urgência de novas formas de ver e explorar o mar está na ordem do dia e do mundo. Prova disso é que, esta semana, as Nações Unidas debatem-no em Nova Iorque, por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos (quinta-feira).

De onde vem e para onde vai

Foi a pensar em como as novas tecnologias poderiam ter impacto na indústria marítima tradicional que a Bitcliq conseguiu espaço no mercado. A empresa das Caldas da Rainha especializou-se no desenvolvimento de software, focando-se na rastreabilidade digital, um pouco por acaso. “Éramos quatro engenheiros [em 2014], e lançaram-nos o desafio de gerir uma frota [pesqueira] no Gana. Era um projeto em que outras grandes empresas já tinham falhado”, relata Pedro Manuel, sócio fundador da Bitcliq, para explicar em que consiste o Smart Fishing Software. O sistema fornece aos gestores de frotas informações em tempo real para uma visão global sobre as operações em terra e no mar. “Hoje trabalhamos com tecnologia que pesca 30 mil toneladas e estamos a entrar no mercado asiático”, atualiza o engenheiro.

O crescimento explica-se pela procura crescente de tecnologias que permitam obter informação sobre a origem e características do produto, a par da urgência da sustentabilidade do mar. Está-se a “acrescentar transparência na cadeia de valor, o que é uma exigência cada vez maior por parte de quem consome”, afirma. Para sustentar a expansão, a empresa terá de duplicar, a curto prazo, a equipa técnica, prevendo contratar mais 10 engenheiros de software, mas também investindo nas áreas comercial e de marketing. “Há muita concorrência a nível global”, justifica o diretor executivo.

Megaparque, microalgas

Longe de guelras e barbatanas, “o contributo da economia do mar é muito baixo para o seu potencial”, tanto porque as suas profundezas são um lugar inóspito como por razões que se desconhecem, na opinião de Sérgio Leandro, do Instituto Politécnico de Leiria (IPL), que abordará mais adiante as movimentações em torno do mar de Peniche. Se “mais facilmente se foi à Lua do que ao fundo do oceano”, como diz, parece não haver ‘desculpas’ para não explorar os recursos junto à costa.

É sob este pensamento que, ainda antes do verão, começa a ser construído o parque Algatec, no concelho de Vila Franca de Xira. Nos 14 hectares onde, até aos anos 50, foi explorado sal e, mais tarde, o grupo Solvay desenvolveu aquacultura, vão crescer diferentes espécies de microalgas, culminando naquilo que será um dos maiores centros de produção a nível europeu. Estima-se que este campo aquático, com vista para a cosmética, a área alimentar ou os biocombustíveis, consuma 2000 toneladas de dióxido de carbono por ano.

A escolha geográfica não foi aleatória. “Era preciso sol e água”, concretiza Nuno Coelho, da A4F, a entidade gestora do parque. Mas também são precisas pessoas. Pela dimensão do projeto, a empresa antevê a contratação de 100 profissionais nos próximos 18 meses — 10 para a equipa laboratorial, 40 para áreas operacionais e de manutenção e 50 mestrados e doutorados em diferentes engenharias, como a biológica, a química ou a mecânica. “Já trabalhámos numa das maiores unidades do mundo de produção de microalgas, e as pessoas conhecem-nos e querem trabalhar connosco”, diz Nuno Coelho. Ao mesmo tempo, “a oferta de trabalho nesta área não é muita”, pelo que o responsável não prevê dificuldades no recrutamento, suportado tanto pela empresas como, espera-se, pelos apoios advindos do Portugal2020 e do Mar2020.

Start me up

Voltando à zona oeste, se Peniche ficou famosa pelas ondas do surf, também quem lá estuda tem os olhos voltados para o mar. É pelo menos esta a versão de Sérgio Leandro, da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (integrado no IPL), que explica que, “por causa do espírito empreendedor dos estudantes”, começaram a surgir empresas ligadas à ‘economia azul’. Foi por isso que o Biocant, a Docapesca, o IPL e a Câmara Municipal de Peniche concertaram a intenção de investir cinco milhões de euros para a criação de um parque tecnológico em instalações devolutas junto ao porto da cidade.

As atividades piscatórias começam, assim, a conviver com empresas de inovação tecnológica, como a Pen Wave, que em pouco mais de dois meses angariou 20 a 30 clientes interessados nas suas microalgas e pequenos crustáceos; ou a I&D Food, consultora em projetos de investigação ligados ao mar que, em menos de um ano, faz consultoria para uma centena de clientes e análises laboratoriais para 500. As duas startups empregam mais de 10 trabalhadores qualificados, e o crescimento é uma forte probabilidade.