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Arquitetura portuguesa brilha além-fronteiras

Projeto de extensão do Palácio da Igreja Velha, em Vermoim, Vila Nova de Famalicão, concebida pelo gabinete Visioarq — Arquitetos

Quase meio milhão de pessoas votou para os melhores projetos de arquitetura do mundo. Três portugueses estão entre os distinguidos nas 102 categorias a concurso

Dois projetos em ambiente rural e um em pleno coração de Lisboa venceram, em diferentes categorias, o concurso da maior plataforma online do mundo da arquitetura, a Architizer que atraiu a atenção de 400 mil votantes. Em comum, estes projetos foram beber inspiração nos materiais e no património cultural nacionais.

Um espaço para eventos, em Vermoim (Vila Nova de Famalicão), que se inspirou nos espigueiros típicos da paisagem campestre do norte; um pequeno hotel rural em Moncarapacho que brilha pela simplicidade com que preservou a arquitetura ancestral típica daquela zona do Algarve; e uma residência para estudantes que nasceu, em pleno Chiado, a partir do edifício da antiga Fábrica de Vidros das Gaivotas. Estes são os trabalhos de arquitetos portugueses que mais se destacaram na edição deste ano do concurso da plataforma americana.

Com 102 categorias e 500 projetos escolhidos entre milhares de candidaturas enviadas de ateliês de uma centena de países, o concurso fez as distinções através do Prémio Votação Popular e/ou pelo Prémio do Júri, sendo este último constituído por um painel com cerca de 400 individualidades das áreas da arquitetura, mas também moda, design, imobiliário, tecnologia. Os votantes ultrapassaram a barreira dos 400 mil.

A extensão do Palácio da Igreja Velha, em Vermoim, Vila Nova de Famalicão, concebida pelo gabinete Visioarq — Arquitetos, venceu o “Popular Choise Award” , o prémio do público, na categoria Pormenores-Arquitetura+Metal com cerca de 300 mil votos favoráveis.

Este projeto de ampliação, da responsabilidade de Vicente Gouveia, Nuno Poiarez e Pedro Afonso, parte de uma mansão do final do século XIX, com elementos barrocos e neogóticos, para um novo volume (para realização de eventos) que adotou soluções inspiradas nos tradicionais espigueiros da região norte, cuja função era secar o milho.

“Os ripados em madeira que nós reproduzimos na nossa estrutura servem para ventilação do espaço e proteção solar, funcionalidades próprias do espigueiro”, faz notar Vicente Gouveia, destacando, ainda, um certo desafio à lógica dos materiais utilizados, com o pesado aço em cima do delicado vidro, criando impacto e a sensação de que o conjunto está, de alguma forma a “levitar”, mas “mantendo a desejada harmonia cromática e volumétrica” no contexto da paisagem.

A obra custou cerca de 5 milhões de euros.

Respeitar a identidade

Distinguida pelo voto popular (online) e também pelo júri, a residência de estudantes do ateliê Luís Rebelo de Andrade brilhou na categoria Conceitos-Arquitetura+Renovação. A Doorm, situada entre o bairro de Santos e o Bairro Alto, preservou a fachada da antiga fábrica de Vidros das Gaivotas, na rua Fernandes Tomás, assim como a sua chaminé de tijolo, e refez o miolo do edifício.

Doorm, a residência 
de estudantes, do ateliê Luís Rebelo de Andrade, 
situada em Lisboa

Doorm, a residência 
de estudantes, do ateliê Luís Rebelo de Andrade, 
situada em Lisboa

“As fachadas, que marcam a identidade do bairro, foram mantidas. Mas no interior aconteceu um edifício completamente contemporâneo, metálico, todo ele revestido a chapa de zinco ondulada pintada a graffiti escuro”, explica Luís Rebelo de Andrade. Para o arquiteto, o sucesso deste projeto nos Architizer A+ Awards — onde, aliás, um trabalho do mesmo gabinete foi distinguido em 2013 — fica a dever-se aos méritos da tentativa de “conciliar o programa que o cliente nos dá com a paisagem urbana” e à opção de “ser muito fundamentalista no sentido de não fugir dos materiais que são autóctones, soluções que temos em Portugal, que é a nossa identidade”. E remata: “Não precisamos de copiar do estrangeiro. Temos uma riqueza cultural tão grande que podemos vir às nossas origens e construir com tudo aquilo que temos e que nos permite ter uma identidade própria.”

A transformação da fábrica de frascos para a indústria farmacêutica e de perfumes numa residência com capacidade para 100 quartos implicou um investimento de cerca de 2,5 milhões de euros.

Casa Modesta, um espaço de turismo rural em Moncarapacho

Casa Modesta, um espaço de turismo rural em Moncarapacho

A preservação das raízes da arquitetura de um local está, também, nos alicerces do triunfo do projeto Casa Modesta, localizada em Quatrim do Sul (Moncarapacho) e da autoria da PAr Plataforma de ARquitetura, que foi distinguido pelo júri na categoria de Hotéis e Resorts.

“Acima de tudo, premeia o respeito pela arquitetura ancestral, neste caso algarvia, e a tipologia ainda existente nesta zona específica do Algarve. Nós pegámos em todas essas premissas ancestrais e criámos um conceito maior, de sustentabilidade ao mais alto nível em todos os aspetos, desde logo, os materiais, que têm de ser sempre locais e naturais, neste caso, o tijolo e o ladrilho de Santa Catarina, a cal, a cortiça ou o latão”, destaca Vânia Fernandes, uma das três arquitetas responsáveis por aquele gabinete, com Joana Carmo Simões e Susana dos Santos Rodrigues. O pequeno hotel, que envolveu um investimento de meio milhão de euros, inclui uma casa-mãe, construída sobre a ruína de um imóvel datado dos anos 40 do século passado, que manteve a tipologia específica desta zona do Algarve (cobertura inclinada e terraço), mais um volume praticamente novo, já que apenas aproveitou do preexistente um forno a lenha e uma cisterna (transformada em adega).