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O futuro não é só destruir e começar de novo. É reinventar

A disrupção nos sectores mais importantes da economia e o seu impacto na sociedade esteve em foco no terceiro “Encontros Fora da Caixa”, organizado em parceria com o Expresso

“Para um economista como eu, tudo o que aqui ouvi é uma aventura.” A reação de José Manuel Félix Ribeiro no início da sua apresentação desarmou o público que se encontrava na Aula Magna, em Lisboa, para assistir à terceira sessão dos “Encontros Fora da Caixa” e resumiu na perfeição o exercício de previsão económica que marcou o espírito do certame. Futurologia nem sempre fácil, mas já lá vamos.

O ponto de partida da conferência, organizada em parceria com Expresso, foi a questão “o futuro é disruptivo” e nenhum dos participantes se furtou ao tema. Seja no retalho, na banca ou em qualquer outro sector de atividade, a discussão à volta do que faz (e fará) movimentar a economia centrou atenções. Nuno Sampayo Ribeiro, do Instituto de Formação Bancária falou da “deriva de rearmamento” e da sua ligação direta ao desenvolvimento de “supercomputadores” como um dos fatores na “organização do mercado” em função do “impacto da tecnologia.” Sobretudo a digital, mas sem esquecer a analógica.

Se a internet é o equivalente digital “do fio que permitiu à humanidade juntar alimentos e agasalhos”, a sua omnipresença faz com que a emergência de criptomoedas (unidades monetárias inteiramente digitais, das quais o caso mais famoso é o bitcoin), entre outros fatores, crie grande pressão no modelo tradicional de negócio bancário. A legislação está a propiciar a entrada de novos atores e, parece óbvio, que vamos assistir a “uma mudança estrutural no sistema de trocas e pagamentos.”

O virar de página pode ser visto como ameaçador, por alguns, mas para o presidente do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos, Emílio Rui Vilar, “o ambiente de incerteza não deve ser uma desculpa, mas antes uma razão acrescida para pensar em tudo” e agir enquanto “enfrentamos uma conjuntura positiva.” Menos positivo neste campo encontrava-se Pedro Sinogas: “Acho que ainda não estamos no caminho certo. Ainda não se nota um sentido de urgência em Portugal e precisamos disso.”

José Manuel Félix Ribeiro (à esq.) e Paulo Macedo (dir.) trocam impressões antes do início da conferência

José Manuel Félix Ribeiro (à esq.) e Paulo Macedo (dir.) trocam impressões antes do início da conferência

Nuno Botelho

Sem pejo em afirmar, perante os aplausos da plateia, que “planos estratégicos a dez anos são tão realistas como lançar uma moeda ar”, o CEO da Tekever (empresa ligada ao sector aeroespacial) não tem dúvidas de que, apesar dos progressos já registados “na banca de investimento”, o sector “tem tido atitudes demasiado conservadoras perante o risco.” Pede-se uma “nova abordagem” para apoiar ainda mais a inovação patente na economia e que “já este ano” pode levar à criação, por exemplo, da “agência aeroespacial portuguesa.”

“Dilúvio de dados”
Não é preciso ir ao espaço para termos uma imagem do impacto já provocado pela disrupção. Nas palavras de Francisco Veloso, da Católica Lisbon School of Business & Economics — na sua apresentação intitulada “Inovação, Empreendedorismo e a Criação do Mundo de Amanhã” — os exemplos já povoam o dia a dia. Seja a aplicação da junta de freguesia da Estrela que permite reportar diretamente problemas, como daqui a dois anos 50% dos mecanismos dos principais hospitais terem ajuda de robôs. Sobretudo com o “dilúvio de dados que vamos ter disponível”, importa também estar aberto e reconhecer que a mudança pode vir “de qualquer lado.”

Daí a relevância do trabalho de Vasco Pedro, fundador e CEO da Unbabel, a poderosa ferramenta de tradução automática que junta a inteligência artificial a uma comunidade de 40 mil utilizadores. “Surgirmos com a missão de simplificar as diferenças linguísticas que são barreiras para os negócios” explica. Sente terem contribuído para o ecossistema empresarial português, “fantástico para criar uma empresa.”

As boas notícias e o “índice de confiança dos consumidores mais alto dos últimos 15, 20 anos” dão esperança a Paulo Macedo. O presidente da comissão executiva da Caixa Geral de Depósitos quer utilizar o “excesso de liquidez” para “investir em bons projetos” e “compensar a década perdida.” O banco do Estado vive um período de transição, com um plano de redução de balcões e um programa de rescisões vigente mas não tem dúvidas de que daqui a “dois, cinco, dez ou mais anos” ainda por aqui vai estar. Para apostar na reinvenção do futuro.

“Apostar 
no talento”

Devia ser uma apresentação standard, mas José Manuel Félix Ribeiro subiu ao palco com outras ideias. O economista lançou-se então na intervenção que prendeu a atenção da audiência e que se cingiu menos aos diapositivos que levava. “Esta globalização não é a que eu conheço”, começou por dizer para depois explicar como o digital alterara o sistema vigente nos últimos 30 anos em conjunto com a geopolítica. Um processo que deve ser olhado com cuidado, pois “quantos mais dados fornecermos, mais depressa vamos descobrir que as armas de destruição maciça se tornarão inúteis, mas as armas de paralisação total são possíveis”. O mundo é “muito mais complexo do que só as tecnologias de informação” e tecnologias como os drones devem ser “acompanhadas de perto” porque são “radicais.” Temos de aproveitar a “galinha dos ovos de ouro” que é a geração que estudou lá fora, sobretudo no mundo anglo-saxónico, e que veio para cá aplicar o que viu. Mais importante é apostar no talento, o bem mais escasso que existe na Terra”.

Discurso Direto

“Todos nós vamos desempenhar um papel ativo na evolução. Indústrias inteiras começam a alterar-se e a evoluir. Tudo isto está presente nas preocupações dos gestores de topo. Por isso, mudar os modelos de negócio para reconhecer estas mudanças é essencial”
FRANCISCO VELOSO
Diretor da Católica Lisbon School of Business & Economics

“Foi essencial sair do país para estar em contacto com outras culturas e desenvolver uma rede de contactos que acabou por fazer a diferença. Temos de utilizar estas ligações para aproveitar a oportunidade de transformar Portugal num centro de excelência a nível da inteligência artificial”
VASCO PEDRO
CEO da Unbabel

“Não estamos ao nível de outros países do mundo, estamos à frente e o desenrascar é cada vez mais importante. Precisamos que os engenheiros portugueses tenham ainda mais visão para prolongar os bons resultados na aeronáutica”
PEDRO SINOGAS
CEO da Tekever


“As mudanças vão obrigar o sector bancário a subir na cadeia de valor. A banca é um serviço, não é um produto. Sem querer ofender ninguém, produto é na mercearia e a reputação tem de prevalecer sobre o lucro. Não se pode construir uma reputação com base no que se vai fazer”
NUNO SAMPAYO RIBEIRO
Professor convidado no Instituto 
de Formação Bancária


“Temos de ver se o crescimento é sustentável, mas estamos inegavelmente perante boas notícias. Cabe agora aos bancos ter novas ofertas, mais estimulantes e que respondam a um novo mercado e a outra geração”
PAULO MACEDO
Presidente 
da Comissão Executiva 
da Caixa Geral de Depósitos

Textos originalmente publicados no Expresso Economia de 27 de maio