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Em Olhão, as casas já valem o dobro

Kevin Gould, jornalista de viagens e consultor gastronómico, habituado a viajar constantemente, decidiu fixar-se na cidade algarvia

Vasco Célio / Stills

Estrangeiros procuram os centros históricos do Sotavento e preços disparam

Quando contou que vivia em Olhão, o inglês Kevin Gould ouviu do seu interlocutor, algarvio de Tavira: “Olhão? Mas estás a viver na Detroit do Algarve!”, lançou, referindo-se à má fama que ainda hoje persegue a cidade norte-americana, tida como casa de criminosos, foco de pobreza e violência. A mesma imagem ainda se cola a Olhão, terra de pescadores. “A cidade tem uma vibração que diz: ‘Nós somos olhanenses, não nos interessa quem vocês são, e nós só vos aceitamos enquanto vocês nos aceitarem.’ Foi essa autenticidade que me atraiu”, explica Gould, jornalista de viagens e gastronomia do “The Guardian”. Estava à procura de um sítio “menos turístico, mais verdadeiro”, sobre o qual escrever, quando descobriu a cidade algarvia. Depois de duas décadas a fazer mais de 50 viagens anuais, ficou.

Nos últimos anos, com a família, tem vivido entre Olhão e Londres, mas prepara-se para vender a casa inglesa e mudar-se definitivamente para Portugal: no início de 2018, fazendo proveito da sua formação como chefe, vai abrir um restaurante típico (“só com produtos algarvios, comprados nos mercados de Olhão”) no coração da Barreta — o bairro histórico construído pelos pescadores, primeiro com cabanas de junco e depois com casas de pedra e cal, de estrutura cúbica, com as açoteias e os mirantes, brancas. Nessas ruas sinuosas e pequenos becos, abandonados pela população local em direção às novas zonas urbanas, floresce agora uma comunidade estrangeira, que compra o que antes ninguém queria e reabilita as casas centenárias, à imagem do traço original de uma cidade, ainda conhecida como “cubista”. “Tudo se vende. Mais houvesse e mais se vendia. Se já não há na Baixa, então vai-se para zonas periféricas”, aponta Bruno Saraiva, à frente da mediadora Villas Saraiva e Pereira. Desde 2013 que a procura tem sido grande, mas o pico registou-se a partir do verão de 2016: “As moradias no centro começaram a escassear. Antes, era possível comprar ruínas típicas a €50 mil, agora valem o dobro. Temos imóveis a valorizar mais de 100%”, aponta o agente.

Com o mais cerrado sotaque olhanense convive agora o inglês, francês, alemão, holandês e italiano. Pintores, escritores, bailarinos e muitos reformados sentam-se ao lado do pescador que remenda as redes ou do vendedor de peixe. Apesar de estarem a mudar Olhão, querem que a cidade não mude. No final de 2016, quando o Plano de Pormenor da Zona Histórica de Olhão foi apresentado, incluindo, por exemplo, a construção de uma torre de 21 metros na Barreta e uma maior altura dos edifícios históricos, a população estrangeira acorreu em massa à discussão pública do documento, para mostrar a indignação. O plano acabou aprovado em abril, já com algumas arestas limadas. A construção da torre, que implicava a demolição de um edifício centenário, foi abandonada.

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