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BCE. Regressam preocupações com a sustentabilidade das dívidas na zona euro

O indicador de stresse sistémico nos mercados de dívida soberana na zona euro subiu no início de 2017, devido em parte à incerteza política em alguns países membros, diz o Relatório sobre Sustentabilidade Financeira divulgado esta quarta-feira pelo Banco Central Europeu

Jorge Nascimento Rodrigues

O risco de regressarem os problemas de sustentabilidade das dívidas na zona euro foi revisto em alta pelo Banco Central Europeu (BCE) no Relatório sobre Estabilidade Financeira publicado esta quarta-feira.

O indicador composto de stresse sistémico nos mercados de dívida soberana da zona euro usado pelo BCE subiu no início de 2017 em relação ao que se registava no relatório publicado há seis meses atrás. De um risco sistémico potencial, considerado no anterior relatório publicado em novembro de 2016, passou para risco sistémico médio.

O documento adianta, contudo, que “mais recentemente, os prémios de risco [das dívidas públicas] desceram e as condições de stresse da dívida soberana melhoraram um pouco”.

Incerteza política e risco do BCE descontinuar QE

A razão da revisão em alta deste risco, com uma graduação de potencial para médio, prende-se “à persistência de incerteza política” em alguns membros do euro e a “um período prolongado de incerteza (geo) política”, o que poderá “dificultar o crescimento económico e implicar prémios de risco [da dívida] mais elevados” exigidos pelos investidores, o que aumentaria os custos de financiamento e poderia desencadear preocupações com a sustentabilidade da dívida soberana em alguns membros do euro.

O relatório adianta, também, que a subida das yields no mercado da dívida soberana poderá derivar, ainda, de "pressões inflacionistas mais elevadas do que o esperado na zona euro levando os investidores a anteciparem uma normalização mais rápida das condições da política monetária" do BCE. Ou seja, de uma descontinuação mais acelerada dos programas de compras de ativos - e nomeadamente da aquisição de dívida pública dos membros do euro -, o que tem sido designado em inglês por quantitative easing (QE, no acrónimo), e de uma subida das taxas de juro mais cedo do que o previsto.

O relatório do BCE sublinha, ainda, que este tipo de riscos “também estão presentes no sector privado não financeiro, tendo em conta os elevados níveis de endividamento do sector empresarial não financeiro da área do euro, tanto em termos históricos como internacionais”.

Quatro riscos sistémicos interligados

Globalmente, o BCE continua a considerar os riscos sistémicos na zona euro como não pronunciados e apenas reviu em alta o relativo à sustentabilidade das dívidas pública e privada em relação à análise publicada há seis meses.

O BCE chama a atenção para quatro principais riscos sistémicos para a estabilidade financeira da zona euro nos próximos dois anos: a possibilidade de uma subida rápida das taxas nos mercados globais de instrumentos de rendimento fixo (como títulos do Tesouro e outras obrigações) aumentando o custo de endividamento; uma conexão negativa entre os problemas estruturais da banca da zona euro (nomeadamente o problema do crédito malparado em seis países da zona euro - Chipre, Eslovénia, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal) e um crescimento económico nominal baixo; o regresso das preocupações com a sustentabilidade da dívida (a que já fizemos referência); e riscos de liquidez no sector financeiro não bancário (nomeadamente nos fundos) que poderão gerar efeitos negativos para o conjunto do sector financeiro da zona euro. Os três primeiros têm risco médio e o último é considerado potencial.

O relatório conclui que "estes quatro riscos estão interligados - se se materializassem, teriam o potencial de se reforçarem mutuamente". Um crescimento económico nominal mais fraco do que o atualmente esperado para a zona euro poderá ser o fator comum desencadeador de uma situação desse tipo.

Brexit não está entre os riscos atuais

O relatório conclui que o processo de saída do Reino Unido da União Europeia não deverá colocar risco financeiro significativo para a zona euro. “O processo do Brexit em si não é atualmente uma das preocupações principais para a estabilidade financeira da zona euro”, refere o BCE.

Acrescenta, ainda, que é “prematuro especular” sobre os potenciais efeitos de longo prazo do Brexit, mas sublinha que “provavelmente terá implicações limitadas para a economia da zona euro e para a estabilidade financeira”.

O BCE espera que “a relação futura entre o Reino Unido e a União Europeia não comprometa a integridade do Mercado Único”.