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João Salgueiro: “Quantos milhares de milhões teve que se dar para ficarem com o Novo Banco?”

João Salgueiro considera que a falência do BPP só terá impacto para os clientes

Luiz Carvalho

O economista e ex- presidente da Associação Portuguesa de Bancos, João Salgueiro, afirma que a venda do ex-BES ao fundo norte-americano Lone Star foi uma imposição e desvaloriza o crescimento de 2,8% da economia no primeiro trimestre

O antigo ministro das Finanças João Salgueiro defende que as regras do concurso para a venda do Novo Banco "não foram cumpridas", considerando que deveria ter sido aberta uma ronda de negociação "concorrencial" em vez de "uma imposição".

Em entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios, João Salgueiro disse que deveria ter sido aberta "uma nova rodada" do concurso, porque “as regras diziam coisas que não foram cumpridas”, e não percebe porque é que o Governo ainda não explicou o que se passa, nem porque é que a União Europeia aceita o negócio de venda à Lone Star.

Para o antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos, não é possível um concurso ter "um dia marcado com um só concorrente", sublinhando que as regras do concurso - a que teve acesso - impunham uma negociação “concorrencial”, considerando, por isso, que deixou de haver “negociação” para haver uma "imposição", o que "reduz o valor das coisas".

“Nas condições em que foi vendido era obrigatório vender 100% - o Estado teve que lá ficar com 25%”, disse, acrescentando que também “não haveria garantias”.

“Quantos milhares de milhões de euros teve que se dar para ficarem com o banco?”, interrogou, questionando também a razões para não terem ainda sido publicadas as condições do acordo.

“Se calhar, porque ainda estão a ser afinadas. Acho bem que sejam afinadas”, declarou na entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios.

João Salgueiro, que revelou ter recebido as regras do concurso da venda do Novo Banco pelo correio, através de duas fontes anónimas em dias distintos, disse ainda que "há um mal-estar grande na banca", porque está "a financiar um concorrente que ainda tem um bónus para estar em Portugal".

O contrato de promessa de venda do Novo Banco à Lone Star, assinado em final de março, prevê a venda de 75% do banco à Lone Star, ficando o Fundo de Resolução com 25%. Em troca, a Lone Star injeta 1.000 milhões de euros no Novo Banco para o capitalizar, dos quais 750 milhões quando o negócio for concretizado e os outros 250 milhões até 2020.

O economista criticou também a ingerência de Bruxelas no futuro da Caixa Geral de Negócios (CGD), admitindo no entanto que tem “confiança no governo português e na administração da CGD para resolverem os problemas" do banco público.

A "interferência de fora" para beneficiar outros concorrentes preocupa o ex-ministro das Finanças, que considera que a banca portuguesa está a ficar prejudicada no contexto europeu.

A União Europeia "gostava de acabar com todos os bancos portugueses", disse. “Está a criar bancos grandes intencionalmente quando foi isso que levou à crise de 2008", criticou.

Crescimento do PIB não resolve problema

No plano do desempenho da economia, Salgueiro desvalorizou o crescimento de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre, considerando que o desempenho do PIB “não resolve o problema” e que “não se fez nada para isso. Aconteceu."

O economista sustentou que o crescimento registado esteve diretamente ligado à instabilidade no Médio Oriente e no Mediterrâneo, que fizeram o turismo crescer, e defendeu que é preciso investimento produtivo e investimento estrangeiro, considerando que, neste último aspeto, o Governo tem contra si a coligação que o apoia.