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PME: Crescer sem cair numa falésia

Estudo revela que as empresas preferem manter-se como PME, de forma a manterem os benefícios fiscais e financeiros. É vital criar condições para crescer

O menor número de incentivos disponíveis é responsável por um vazio em Portugal no que se refere à transição de médias para grandes empresas. A conclusão é do estudo “Destino: Crescimento e Inovação”, uma parceria da Cotec e da Deloitte, que foi divulgado esta semana no Porto.

“Há diferenças positivas ao nível das PME: têm menos recursos e por isso são mais apoiadas. Mas quando uma empresa passa, por exemplo, de 50 para 51 milhões de euros de faturação a redução em termos de incentivos financeiros e fiscais é muito abrupta”, diz ao Expresso Carlos Cabeleira, responsável pelo estudo da Cotec.

Representando as PME mais de 99% do tecido empresarial português, as mid-cap – empresas com um volume de negócios entre 50 e 500 milhões de euros e com 250 a 500 colaboradores – eram apenas 127 em 2015, correspondendo a 0,03% do PIB. O estudo revela que as empresas preferem por norma manter-se como PME, de forma a poderem manter os benefícios fiscais e financeiros, ao invés de evoluírem para mid-cap (empresa de média capitalização).

“Os incentivos têm também aqui um efeito perverso. Aceder a menos apoios é quase um desincentivo para chegar a outro patamar. Não é bem um degrau, mas uma falésia. Passa-se de uma fase em que se usufrui de vários incentivos para a quase inexistência de apoios”, acrescenta.

Obstáculos ao crescimento

Para Carlos Cabeleira, este é um dos maiores obstáculos atualmente para os empresários portugueses, que vêem assim limitadas as suas ambições: “Há 20 anos identificava-se o vale da morte das empresas, quando se evoluía de start-up para PME, e agora este é o segundo vale da morte, passar de PME para mid cap”.

No total, as mid cap empregavam há dois anos 45.648 colaboradores e as suas exportações ascendiam a 5,49 mil milhões de euros, equivalendo a 8,19% do PIB. Apesar do bom desempenho, a sua relevância é diminuta, uma vez que são ainda escassas no panorama nacional.

O estudo refere ainda que se as PME mantivessem a atual trajetória e evoluíssem para a fase seguinte seriam alcançados benefícios em termos económicos. “Se mantivéssemos a trajetória destas empresas e se chegassem ao patamar de mid cap, o seu impacto no PIB seria de mais 0,4% até 2020. Somando as boas notícias, Portugal não só estaria nos lugares da frente como seria o camisola amarela” , sublinha.

Dado que a economia portuguesa tem como base PME, o estudo alerta que é vital criar condições para que as empresas passem de pequenas a médias. Entre outras medidas, propõe-se que as empresas procurem ganhar escala trabalhando em conjunto – com partilha de custos e recursos – como clusters do sector, promover o crescimento através de fusões e aquisições, aumentar o acesso a incentivos e diversificar as fontes de financiamento.

“Há aqui um piano com grandes teclas e é preciso aprender a tocar com todas as teclas. Não se pode recorrer só à banca”, observa Carlos Cabeleira.

Mercado de capitais para PME

O estudo propõe a criação de um mercado de capitais específico para as PME que querem alcançar outra patamar e aumentar a abrangência de incentivos financeiros do Portugal 2020, da Comissão Europeia e de outros organismos internacionais.

Ao nível dos recursos humanos, propõe-se a criação de estágios profissionais para capacitar os futuros colaboradores. “É preciso que os funcionários conheçam os objetivos comerciais, a relação com parceiros, os valores da empresa. Se não capacitarmos as pessoas a nível técnico, com conhecimento tecnológico e dos mercados, não se alcança o sucesso”, conclui.

O estudo da Cotec teve como base uma amostra de 203 empresas e comparou o desempenho das empresas mais inovadoras com as PME nacionais entre 2011 a 2015. Outra das conclusões é que as empresas que mais apostam na inovação são aquelas que apresentam melhores resultados a nível económico e financeiro.