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Vinhas da Terceira 
escapam à extinção

Rui Caria

Nas ‘curraletas’ da região de Biscoitos, novas videiras estão a ser plantadas pelas mãos dos enólogos Diogo Lopes e Anselmo Mendes

É uma viticultura “heroica”, cuidada e preservada por vários heróis anónimos que, contra tempestades e marés, continuam a velar pelas vinhas que crescem à beira do Atlântico, em terrenos de pedra vulcânica. E são apenas nove hectares explorados. Na ilha Terceira, só existe vinha porque há teimosia para isso. A ela, juntou-se entretanto a experiência de dois enólogos do “continente”, Diogo Lopes e Anselmo Mendes (conhecido por “senhor Alvarinho”). O necessário para salvar a Adega Cooperativa dos Biscoitos, a região vinícola da ilha açoriana, no concelho de Praia da Vitória, da mais que provável falência. Não é feito menor, visto que se trata de salvar da extinção uma cultura cujas origens remontam a 1503, ano em que é pela primeira vez referenciada. Depois das agruras, a vitória: acabam de ser lançados agora no mercado duas insígnias, o vinho Magma e o Muros de Magma, colheita de 2015, saídas das vinhas vulcânicas da Terceira.

Os Biscoitos, zona de veraneio procurada pelos terceirenses e por isso ameaçada pela pressão imobiliária, devem a sua denominação não à doçaria, mas à terra queimada nascida dos vulcões e que ganhou o mesmo nome. Uma grande parte das zonas pedregosas à beira-mar, de basalto negro, são fajãs formadas pelas lavas expelidas pelas erupções vulcânicas. As terras, pobres e de lavoura difícil, foram destinadas ao cultivo de vinha e, para protegê-la das intempéries marítimas e dos ventos salgados, os agricultores construíram à sua volta as chamadas ‘curraletas’, pequenas parcelas de terra rodeadas de muro de pedra seca — uma geometria (quadrados verdes contornados a negro) que distingue aquela terra. É das rochas vulcânicas que brota o néctar da Terceira. “É uma vinha muito sui generis, que dá muito trabalho, tem custos muito grandes de mão de obra e, ao mesmo tempo, é feita em minifúndios murados, numa região muito pequena”, explica Diogo Lopes.

O enólogo conheceu em 2011, em visita, o potencial destes vinhos atlânticos, brancos e da casta Verdelho, com um ‘terroir’ único e que se caracterizam pelo seu teor salgado e pela grande carga mineral de origem vulcânica, numa altura em que a adega apenas vendia vinho a granel e via a produção cair a olhos vistos. São cerca de 60 os sócios da cooperativa, todos de pequena dimensão. Alguns deles não entregam mais do que dois ou três cestos de uva. E com custos de produção tão altos, cada vez menos conseguiam vender as suas uvas a preços competitivos. Ano após ano, chegavam menos cestos de vindima à adega dos Biscoitos.

Em conversa com Anselmo Mendes, Diogo Lopes decidiu que a singularidade da vinha da Terceira tinha de vingar. E, ainda nesse ano, a dupla começou por assessorar a adega cooperativa. Estudaram a componente técnica da produção, exploraram as vinhas, analisaram os processos de laboração e ajudaram a conceber os vinhos de 2011 e 2012. Mas porque a política se intromete, por vezes, no caminho dos negócios, a parceria foi interrompida e o vinho dos Biscoitos voltou a ser vendido a granel (no sistema bag in box).

Em 2015, a Direção Regional de Agricultura decidiu intervir e apontou para dois cenários: ou a Adega Cooperativa dos Biscoitos fechava ou arranjava-se uma alternativa. Diogo Lopes e Anselmo Mendes decidiram, então, que eram a solução definitiva e passaram a assumir a gestão da adega, através de um contrato de comodato de sete anos (e renovável por outro igual período).

Preços mais atrativos

Além de conceberem e produzirem os vinhos da adega, os enólogos ficam também responsáveis pelo pagamento das uvas aos sócios da adega. O preço é predefinido e, garante Diogo Lopes, “bastante compensador para os produtores”: €1,5 por cada quilo de uva. Nas últimas colheitas, em Portugal, “muitos dos contratos fixaram o preço em 40 cêntimos. Em casos específicos, chegaram a €1 por quilo”. A Adega Cooperativa dos Biscoitos terá direito a uma percentagem das vendas totais e ainda a uma determinada quantidade de garrafas do Magma e do Muros de Magma, que poderá comercializar nas suas instalações.

Os enólogos deslocam-se com alguma frequência, “entre cinco a seis vezes”, à Terceira para acompanharem os trabalhos e, no terreno, é Nuno Costa quem faz o acompanhamento técnico da vinha.

Em média, nos últimos anos, a produção não foi além dos três mil litros das vinhas dos Biscoitos. Um volume que poderá crescer se, em vez dos nove, entrarem em produção os 20 hectares potenciais da região demarcada dos Biscoitos. Nessa altura, poderão ser produzidos 20 mil litros — e que farão multiplicar as 2600 garrafas de Magma e as 1600 de Muros de Magma (o primeiro passou apenas pelo inox, enquanto o segundo fermentou e estagiou um ano em barricas usadas).

“Nunca será um vinho para massas, mas sim para nichos. Se a vinha for reconstruída e tecnicamente bem cuidada, podemos chegar aos 20 mil litros. Mas, nos próximos anos, apontamos para uma produção entre os nove e os dez mil litros”, indica o enólogo. Para isso, é preciso estimular os agricultores a recorrerem aos apoios comunitários para a plantação de nova vinha e para a reestruturação da vinha existente, “que são muitos e superiores aos do Continente”.

Biscoitos no mundo

Dada a limitação de produção, as pouco mais de quatro mil garrafas da colheita de 2015 chegam ao mercado estrategicamente divididas. Um terço fica na região dos Açores, até pelo crescimento turístico que se tem verificado e que deve ser “alimentado também pela oferta de produtos locais”. Uma outra parte equivalente ficará no Continente e uma outra parte rumará aos Estados Unidos. Pelo “grande interesse” demonstrado por distribuidores na Irlanda e na Bélgica, algumas garrafas terão estes países como destino.