Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Os sapatos também podem ter um BI

Na Nobrand, Sérgio Cunha está a desdobrar as coleções para multiplicar lançamentos ao longo do ano

Rui Duarte Silva

A Nobrand pede aos trabalhadores para testarem todos os modelos. O objetivo é o conforto final

A Nobrand vive com “um pé no passado e outro no futuro”. É assim que Sérgio Cunha, presidente executivo da empresa, apresenta a marca criada há 30 anos, em Felgueiras, para pôr em evidência o ADN da casa: “Reinventar sapatos antigos, transportá-los para os dias de hoje, transformá-los em modelos jovens, quase desportivos”, diz o empresário sem esquecer o outro lado desta equação, em que a experiência industrial e artesanal é “pilar fundamental” para vencer nos segmentos do design, da moda, do marketing. E sem esquecer, também, a capacidade interna de evolução, adaptação às exigências do mercado.

No caso da Nobrand, ter um pé no futuro, significa vender sapatos com Bilhete de Identidade, para o cliente saber exatamente o que está a comprar, ou abrir lojas nas capitais europeias “logo que a conjuntura dê luz verde para avançar”, adianta o empresário, que perdeu para Luís Onofre a corrida à presidência da APICCAPS, a associação dos industriais do calçado.

“O projeto está pronto. O arranque só depende da recuperação da economia europeia. Queremos estar nas principais cidades, Porto e Lisboa incluídas, para dar visibilidade à marca. A ideia é fazermos das nossas lojas um showroom aberto ao público que vai dar credibilidade à Nobrand e apoiar a base de vendas online”, explica Sérgio Cunha.

A estreia da marca em lojas próprias foi feita na Colômbia com um parceiro local e duas inaugurações em Medellín. A desvalorização do peso atrasou o calendário de expansão, mas o projeto para o país prevê, também, lojas em Bogotá e mais quatro cidades. Sérgio Cunha admite ter “grandes expectativas” no outro lado do Atlântico, sem esquecer a China, onde já abriu um showroom.

Tudo começa em Felgueiras, na freguesia de Pedreira que dá o nome ao grupo familiar fundado pelo pai em 1950. João Cunha, caixeiro aos 13 anos, cedo começou a sonhar com um negócio de pentes e escovas. Chegou até a comprar máquinas, mas percebeu que não teria grande futuro no ramo e aos 17 anos optou por fazer botas com pneus usados que vendia a €5 nas feiras.

Aproveitar o erro de casting

Sessenta e sete anos depois, o grupo familiar emprega 400 pessoas e fatura €50 milhões, num universo que abarca três fábricas de calçado e cinco empresas comerciais, com extensões à metalurgia e aos têxteis. A Máximo Internacional, fundada por Sérgio Cunha e pelo sócio Francisco Ferreira há 29 anos, garante 30% deste valor, com a marca própria Nobrand a responder por metade das vendas em 30 países. A outra fatia é absorvida por clientes internacionais que o empresário não divulga por “obrigações de confidencialidade”. “É um grupo de marcas de prestígio da Alemanha, Itália, EUA e Escandinávia”, diz apenas.

A experiência no terreno mostra que o Made in Portugal é cada vez mais procurado. “Até já tivemos de desenvolver um logótipo para um cliente australiano em que ocupava mais espaço do que a marca e era acompanhado do galo de Barcelos”, comenta o empresário que tem os filhos Tiago e Ana a trabalhar com ele, garantindo a passagem à terceira geração deste negócio que começou “num erro de casting”.

Na verdade, a Máximo começou como uma empresa comercial, para colocar grandes encomendas de clientes nas fábricas lusas. Mas depois de montarem um estúdio para desenvolver coleções e amostras, Sérgio Cunha e o sócio perceberam que tinham de rentabilizar o lado industrial para ter as instalações no ativo todo o ano.

Hoje, fazem mais de dois mil pares de amostras por coleção só na Nobrand, com um preço de venda ao público superior a €100 por par. Exportam 99% do que fazem e testam todos os modelos nos pés dos trabalhadores antes da produção, de forma a garantirem conforto ao cliente final.

Em 2016, as vendas estiveram estáveis, mas em 2017 “estão a crescer”, diz o empresário que concorreu ao Portugal 2020 com um projeto de investimento de €1,5 milhões para modernização industrial e marketing e trabalha mais duas marcas, a Eat My Dust, desportiva, e a No Studio, no segmento feminino, apostado em diversificar, completar a oferta, já a pensar nas lojas próprias.