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Fecho de agências marca primeiros 100 dias de Paulo Macedo na CGD

ANT\303\223NIO COTRIM

Foi no início de dezembro do ano passado que o Governo confirmou oficialmente que tinha convidado Paulo Macedo para presidente executivo da Caixa

Os primeiros 100 dias da nova administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD), liderada por Paulo Macedo, ficam marcados pela polémica relativa ao encerramento de agências em vários pontos do país.

Foi no início de dezembro do ano passado que o Governo confirmou oficialmente que tinha convidado Paulo Macedo para presidente executivo da CGD e Rui Vilar para chairman (presidente não executivo) e que ambos tinham respondido positivamente. Contudo, só a 1 de fevereiro é que a nova equipa de gestão assumiu funções, depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter dado a necessária luz verde.

Depois da passagem curta, mas conturbada, de António Domingues pela CGD, os oito membros da nova administração - que só conta com uma mulher - finalmente arregaçaram mangas para colocar em prática o plano de reestruturação acordado com Bruxelas ainda pela anterior equipa, e que tinha como ponto central uma forte recapitalização do banco estatal (em torno dos 5 mil milhões de euros).

Assim que entraram no banco, os novos presidentes escreveram uma carta aos trabalhadores na qual consideram que a recapitalização e reestruturação é uma “oportunidade” que não pode falhar e que dificilmente voltará a acontecer.

Apenas dois dias depois, em 3 de fevereiro, Paulo Macedo falou com os jornalistas no âmbito de uma visita à agência da CGD nas Amoreiras, em Lisboa, considerando o plano de reestruturação do banco “bastante robusto” e garantindo a disponibilidade da sua equipa para o executar.

Já no final de fevereiro, começaram a surgir os primeiros ruídos relacionados com o encerramento de agências previsto no plano de negócios acordado com a Comissão Europeia e que permitiu que a injeção de capital público no banco não fosse considerada como ajuda de Estado.

Em 10 de março, Paulo Macedo e Rui Vilar dão a cara pelos resultados de 2016 da CGD (exercício em que o banco teve José de Matos, primeiro, e depois António Domingues como presidentes executivos). E revelaram que o banco público teve um prejuízo histórico de 1,9 mil milhões de euros no ano passado, no sexto ano consecutivo de prejuízos para o líder do mercado bancário português.

Na ocasião, os gestores avançaram que a CGD vai cortar 2.200 postos de trabalho, através de pré-reformas e rescisões amigáveis, e fechar mais de metade dos balcões até 2020, no âmbito do acordado com Bruxelas.

Antes deste anúncio, já a nova administração tinha sido contestada publicamente, sobretudo pelo poder político local, devido aos encerramentos de balcões já feitos ou previstos.

Na altura, já se destacavam os casos de Almeida, no distrito da Guarda, Marvão, no Alto Alentejo, freguesia do Teixoso, na Covilhã, Santa Margarida, concelho de Constância, e Golegã, ambas no distrito de Santarém.

Mas Paulo Macedo assinalou aquando da divulgação das contas que o banco não conseguirá regressar aos lucros se mantiver a atividade sem alterações e que não pode manter presença em todas localidades em que outros bancos não veem viabilidade económica: “Ninguém peça à CGD para ficar em todos os sítios onde os outros bancos não querem ficar. Se isso acontecesse, então a Caixa não saía dos seis anos de prejuízos que teve”, afirmou.

Além da contestação interna, também pela voz dos sindicatos devido à forte redução de pessoal anunciada, também surgiram críticas de fora do país, depois de ter sido anunciado pelo banco que será dada “prioridade” à saída de Espanha e da África do Sul.

A comunidade portuguesa na África do Sul manifestou a sua preocupação, considerando que revela o interesse de Portugal somente nas remessas dos emigrantes.

Mas, internamente, o 'barulho' foi ainda maior, uma vez que, além das estruturas representativas dos trabalhadores, também a oposição (PSD e CDS) condenou publicamente o fecho de agências da CGD.

Passos Coelho (líder do PSD) considerou o fecho de balcões um “cinismo atroz” do PS, BE e PCP.

Assunção Cristas (líder do CDS), por seu turno, defendeu que os critérios para a reestruturação da CGD “não podem ser iguais ao da banca privada”, sublinhando que o partido quer uma CGD 100% pública e que a entidade “tem de fazer o que os outros bancos não fazem”.

Face à crescente contestação das populações das localidades afetadas, a CGD veio alertar no final de março para que o não cumprimento do plano estratégico negociado com a Comissão Europeia, como contrapartida da recapitalização, teria “implicações muito graves”.

Mais tarde, Paulo Macedo, ouvido pelos deputados da Comissão de Orçamento e Finanças, na Assembleia da República, em 12 de abril, avançou que a CGD pediu autorização ao Banco de Portugal para ter um serviço móvel de balcões, com carrinhas que vão a zonas rurais e com populações envelhecidas prestar serviços bancários.

No meio de tudo isto, no parlamento, decorrem as duas comissões de inquérito sobre a CGD, que aumentam ainda mais o volume de ruído em torno do banco público.