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Qualidade da engenharia nacional atrai alta tecnologia

O investimento alemão tem sido um dos mais estruturantes da economia portuguesa

NUNO BOTELHO

Portugal está a subir na cadeia de valor, atraindo projetos de investimento estrangeiro que procuram engenharia nacional de grande qualidade

A qualidade da engenharia portuguesa é um dos fatores relevantes na decisão de investir em Portugal, sobretudo para subir na cadeia de valor e captar projetos de alta tecnologia. E essa é uma das razões que tem levado várias empresas alemãs a investir ou a estudar investimentos no nosso país, garante a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (CCILA), em declarações ao Expresso.

As competências portuguesas são também razão forte para a Mercedes-Benz ter analisado o nosso mercado, preparando-se para apresentar na próxima semana uma iniciativa, revela também a Câmara que representa os interesses empresariais alemães em Portugal.

Segundo o presidente desta câmara de comércio, Markus Kemper, que participou no grupo de trabalho do Fórum para a Competitividade sobre o Investimento Direto Estrangeiro (IDE), “atualmente não é fácil captar investimento em nenhum país do mundo, precisamente porque todos os países lutam por captar novos investimentos estrangeiros e utilizam todas as armas possíveis para vencer nesta corrida”. Os EUA são “um dos países que levam esta ‘guerra’ mais a sério, implicando a redução de outros investimentos em países vizinhos, como o México, para benefício dos projetos captados para os EUA”, comenta. Em Portugal, a escala de captação de investimentos é diferente, mas mesmo assim “consegue manter alguma regularidade de atração em determinados clusters, como o automóvel, que continua a atrair empresas estrangeiras”, diz Markus Kemper. Uma das mais recentes é a Eberspächer — grupo alemão especializado na produção de sistemas de escapes e filtros de emissões poluentes —, que tenciona contratar 600 trabalhadores para a sua unidade de Tondela.

O filão das PME alemãs

Além dos casos mais conhecidos da Volkswagen, com o novo investimento da Autoeuropa, da Continental, da Siemens, da Bosch, dos elevadores Schmitt (que tem um investimento de €30 milhões que permite contratar 400 trabalhadores), Markus Kemper diz que “um grande potencial de investimento alemão está nas Pequenas e Médias Empresas [PME] alemãs [têm até 10 mil trabalhadores] que pretendem produzir fora da Alemanha”. No entanto, “o principal problema de Portugal para as PME alemãs é que as consultoras que aconselham os mercados onde devem investir não têm Portugal no seu radar”, afirma.

Além deste problema, no âmbito do Fórum para a Competitividade, Alexandre Patrício Gouveia identificou as principais barreiras à captação de IDE, onde se destacam os excessos de burocracia. “O entrave da burocracia é um problema particularmente relevante para os projetos industriais, em que o prazo excessivamente longo dos respetivos licenciamentos desmotiva os investidores, que desistem e acabam por ir para outros países”, refere. “No caso das indústrias extrativas, os licenciamentos das explorações mineiras levam em média cinco anos para serem aprovados.”

A barreira seguinte é a fiscalidade, cujas taxas de tributação elevadas de IRC fazem com que os projetos de IDE de maior dimensão “fujam para outros países que oferecem melhores condições fiscais”, diz Patrício Gouveia, comentando que, “em muitos projetos, as barreiras fiscais são mesmos as mais relevantes e acabam por ser decisivas quando os investidores estrangeiros desistem de concretizar projetos em Portugal”. “A intenção de Portugal reduzir a taxa de IRC até aos 17% foi interrompida, e apenas baixámos dos 23% para os 21%, quando o nosso país até deveria ser mais arrojado para descer esta tributação até aos 12,5%, porque assim teria resultados mais expressivos na captação de IDE”, defende.

Energia muito cara

Além destas barreiras, Alexandre Patrício Gouveia refere os elevados custos da energia praticados no mercado português, o endividamento da economia nacional e o deficiente funcionamento da Justiça.

Em sentido favorável, o clima, a segurança, a gastronomia, as infraestruturas rodoviárias são fatores acessórios que acabam sempre por ser marcantes para os gestores de outros países que passam a trabalhar em Portugal. Por seu turno, João Cardoso, gestor da Coficab — do Grupo Elloumi, especializado no fabrico de fios e cabos para o sector automóvel e que tem uma fábrica na Guarda —, considera que os principais constrangimentos ao IDE são, sobretudo, um “ambiente legislativo inseguro, instável e muito pouco amigo de investidores e empreendedores”.

“O que um Governo faz é desfeito, por razões muitas vezes populistas, pelo Governo seguinte”, comenta João Cardoso, e, “independentemente do valor das medidas de cada um, o que assusta um investidor é a instabilidade e imprevisibilidade”, diz. “Seria necessário um pacto de regime a longo termo, de 20 anos, para inverter esta perceção do país”, diz João Cardoso, comentando que, “após o investimento se ter realizado, o ambiente é pouco amigo de empreendedores e dos negócios em geral”. “Existe um ambiente quase persecutório de organismos que deveriam ter um papel oposto”, diz, adiantando que, “por incrível que pareça, têm objetivos internos de produtividade baseados em atingir um certo valor em coimas às empresas”.

Finalmente, Carlos Aguiar, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa (CCILF), destaca a qualidade, qualificação e adaptabilidade de quadros técnicos e de mão de obra portugueses, os custos salariais competitivos, o custo de vida moderado e a qualidade de vida como fatores de atração de Portugal para o investimento francês.