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Construção de habitação volta a subir após 13 anos em queda

Nos primeiros dois meses deste ano o sector cresceu 49%. Em 2016 o aumento foi de 38%

Depois de mais de uma década em crise profunda, o sector da construção volta a levantar a cabeça, sobretudo ancorado na construção de habitação.

Em 2001 construíram-se 114 mil casas em Portugal e o sector empregava 900 mil pessoas. Daí até 2014 foi sempre a cair. Nesse ano foram colocadas no mercado 6785 casas novas —um valor historicamente baixo, nas últimas décadas — numa altura em que o emprego na área da construção já só abrangia 600 mil pessoas. Ou seja, em 13 anos foram destruídos 300 mil postos de trabalho, sobretudo a partir de 2008, quando a crise económica e financeira começou a causar estragos em larga escala, praticamente em todos os sectores de atividade.

Em 2015, com a troika já fora de Portugal, o sector dá um pequeno sinal de inversão (8219 novos fogos) e, já em 2016, chega a confirmação: a construção de habitação cresce 38% (para 11.344 casas concluídas). Mas as boas notícias não ficam por aqui. As estimativas da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI) apontam para um aumento de 49% só nos dois primeiros meses de 2017, em comparação com o mesmo período do ano passado. Outra boa notícia, segundo aquele organismo, é que só em 2016 foram criados 27 mil empregos.

O ‘empurrão’ do turismo

“Há aqui um ‘empurrão’ que foi dado, sem dúvida, tanto pelo segmento do turismo — que tem apresentado taxas de crescimento recorde acima dos 10% ao ano —, como também pelo regime de concessão de vistos gold, que está a atrair investimento estrangeiro para o imobiliário”, sublinha Reis Campos, presidente da CPCI.

Mas não é tudo. Aquele responsável nota que nos últimos anos, com a queda das taxas de juro tanto para os depósitos a prazo como para a concessão de crédito hipotecário, muitas famílias optaram por aplicar as suas poupanças no imobiliário. Do lado dos mais jovens houve, por seu turno, mais facilidade no acesso a empréstimos bancários para aquisição de habitação.

“A soma destes fatores, ao que se alia ainda o facto de Portugal estar, de certa forma, na moda entre muitas franjas das classes mais abastadas de vários países europeus, fez com que a compra de casa em território nacional tivesse conhecido um impulso adicional”, acrescenta ainda o presidente da CPCI.

Mas se do lado da construção se nota já uma inversão de tendência, ao nível das vendas os números são ainda mais inequívocos. No ano passado foram vendidas 127.106 casas em Portugal, segundo dados divulgados recentemente pela Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP). Um valor muito próximo do registado em 2010, quando se venderam 129.950 habitações.

Luís Lima, presidente daquela organização acredita que a procura de casa, que nos primeiros meses de 2017 subiu 20%, vai continuar a aumentar, e deverá mesmo atingir o patamar dos 30% até final do ano. As estimativas feitas em março pela APEMIP apontavam já para a necessidade de um incremento na construção de casas. Um discurso que assenta que nem uma luva nos números agora divulgados pela CPCI.

Será este crescimento 
‘sustentável’?

Ou seja, o mercado da construção e do imobiliário está bem e recomenda-se, “mas em termos de construção propriamente dita, estamos ainda muito longe dos valores pré-crise, como se pode facilmente constatar nos dados do INE” (ver gráfico), frisa Reis Campos.

Não obstante, acrescenta que o que se está a passar é muito positivo mas que se impõe a pergunta ‘sacramental’: Isto é sustentável? “O turismo vai continuar a gerar procura, isso é garantido, a não ser que ocorra algum evento fora do normal: se houver um atentado ou, por outro lado, se o Governo resolver taxar ainda mais o património. Mas, em clima normal e estável, o que se espera é que haja, inclusivamente, alguma margem para crescer”. No entanto, “11 mil casas novas (em 2016) é muito pouco”.

O dirigente da CPCI evidencia ainda um fator nem sempre valorizado, mas que é “muito relevante” no momento da escolha de uma nova habitação: a qualidade do urbanismo e do espaço público envolvente. “E o que se constata é que as cidades, em geral, estão a ficar mais atrativas e isso convida as pessoas a comprar nos centros urbanos, sobretudo as que estão mais à vontade do ponto de vista financeiro”. Reis Campos garante que as pessoas querem, cada vez mais, o centro das cidades, embora reconheça que os preços ali praticados “não são para todos”.

Admite que tem havido situações de preços anormalmente altos, em certas zonas — sobretudo no centro de Lisboa —, mas assegura que não vai haver nenhuma bolha especulativa. Aliás, “para lá dessas zonas que são restritas, em todas as outras partes da cidades os preços são completamente diferentes, significativamente mais baixos”.

O que já ninguém quer, segundo este responsável, é comprar casas em zonas suburbanas, mal desenhadas do ponto de vista urbanístico, com maus acessos e de arquitetura de gosto duvidoso. A CPCI estima que haja perto de 60 mil habitações — naquela situação — disponíveis no mercado. Reis Campos não põe de parte a hipótese de algumas dessas casas que ninguém quer terem de ser simplesmente demolidas.