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Aparecem hotéis mas faltam trabalhadores

Dos 300 alunos da Escola de Hotelaria 
de Fátima, 
100 dedicam-se à cozinha, “uma gota no oceano” em relação às necessidades atuais

José Carlos Carvalho

No Centenário das Aparições, Fátima mexe desde as obras públicas à reabilitação de iniciativa privada. Mas no turismo, que concentra as visões económicas mais otimistas, há mais emprego do que empregados

Rute Barbedo (texto) e José Carlos Carvalho (fotos)

Laure desenha a imagem da Virgem Maria na janela do hotel. É o mais perto, no século XXI, que podemos ter de uma aparição. Primeiro aparece o branco, depois o azul, por fim o dourado, a cor de que o proprietário do alojamento de quatro estrelas, no coração de Fátima, mais gosta. Esta é a segunda montra pintada pela imigrante francesa a viver perto da Guarda, que achou que o fim de abril seria uma boa altura para vir até à Cova da Iria mostrar a sua arte. Os hotéis agradecem. E são eles (perto de 70), por sua vez, a principal montra da agitação económica na ‘cidade da paz’ na comemoração dos 100 anos sobre a visão mística dos três pastorinhos.

Mas “santos da casa não fazem milagres”, ouve-se com frequência nas ruas e praças de Fátima. Talvez seja uma das graças preferidas dos habitantes para ilustrar que nem sempre é na indústria gráfica da terra que se imprimem os cartazes do Papa Francisco ou de Nossa Senhora, que há “mais gente de fora a abrir negócios” e que, no que toca ao eldorado da Cova da Iria — o turismo —, 75% dos jovens que se formam na escola local preferem ir para fora, deixando um problema nas mãos dos profissionais da hotelaria e da restauração.

A artista Laure Bigot dá uma nova cara a um dos hotéis com lotação esgotada na cidade

A artista Laure Bigot dá uma nova cara a um dos hotéis com lotação esgotada na cidade

José Carlos Carvalho

“Os hotéis em Fátima estão aflitos; não arranjam pessoas para trabalhar”, resume Cristina Marques, gerente de um alojamento de quatro estrelas na rua Jacinta Marto. “Há muitos estrangeiros que vêm pedir emprego, mas não lhes posso dar porque não estão legalizados. Depois, aparecem-nos pessoas acima dos 50 anos, não qualificadas, que nem sempre sabem falar línguas. E os mais novos não têm, como dizer, predisposição para trabalhar”, avalia a responsável, explicando que a maior carência, na contagem decrescente para o 13 de maio, concentra-se na área da restauração. Ainda assim, os clientes não serão mal servidos, garante, consequência das horas extraordinárias que os trabalhadores terão de cumprir. “Até tenho funcionárias reformadas a trabalhar”, continua.

Ouro (menos) sazonal

Para responder às exigências do Centenário, este ano, a Escola de Hotelaria de Fátima, está “a concentrar os estágios dos alunos nas empresas locais”, afirma o diretor, Francisco Vieira. Consciente da procura crescente de profissionais para as áreas de cozinha, pastelaria e serviço de restaurante e bar, o responsável adverte, ainda assim, que, apesar deste pico, “a necessidade é avassaladora desde sempre” e por mais que a escola forme anualmente cerca de 300 alunos (assim que estejam de pé as novas instalações, um projeto antigo que aguarda a aprovação autárquica, o número deverá subir para 400), são poucos (25%) os que decidem ficar no concelho de Ourém. Mesmo havendo mais de 70 hotéis em Fátima, os recém-formados “vão para as grandes cidades, para o Algarve ou mesmo para fora do país; vão para onde lhes dê prestígio em termos de currículo”, explica Francisco Vieira.

Da área de ensino mais popular — a cozinha — “pouco mais de 100 profissionais saem da escola todos os anos, mas isto é uma gota de água no oceano”, refere o responsável, sobretudo tendo em conta o aumento progressivo da oferta. Só em Fátima, há três novos hotéis prontos para o Centenário e muitos outros que apostaram em obras de requalificação. Mas se o fenómeno vive de quantidades, por outro lado, “o aumento do número de visitantes, de ano para ano, obrigou a um reajustamento dos níveis salariais”, segundo Francisco Vieira. Ao mesmo tempo, “a fasquia da qualidade está a aumentar”, porque existe a preocupação de “tornar Fátima mais apelativa ao longo do tempo” e, também, reconhece o responsável, porque em alturas como esta, em que se espera aproximadamente um milhão de visitantes, as operações de fiscalização abundam.

Os trabalhadores da Clave de Ideias, uma das empresas contratadas pelo Santuário de Fátima para as obras antecedentes à visita do Papa Francisco

Os trabalhadores da Clave de Ideias, uma das empresas contratadas pelo Santuário de Fátima para as obras antecedentes à visita do Papa Francisco

José Carlos Carvalho

Maio e outubro são os meses de enchente na cidade dos pastorinhos. “As pessoas ouvem falar de Fátima e julgam que deve haver aqui ouro”, ouve-se de uma comerciante entre as dezenas de lojas de artigos religiosos. Mas o resto do ano já não é “paisagem”, segundo os hoteleiros. É por isso que Cristina Marques, que gere o hotel no qual o dourado começa, por fim, a surgir, consegue oferecer contratos de oito meses. “As pessoas que emprego são para ficar”, vinca a responsável. A questão é que o ano faz-se de 12 parcelas e, como admite o dono de um restaurante na mesma rua, “o inverno é duro”. “Janeiro e fevereiro continuam uma pasmaceira”, completa uma lojista, sem verniz. De novembro a março, não há turismo que corte a precariedade ao sector. “Muitos vão para o desemprego e esperam pelo retorno” da época alta, relata Paula Alves, formada em Filosofia, que se mudou recentemente de Lisboa para Fátima, onde encontrou trabalho como camareira.

Promessas e previsões

Além de uma nova escola de hotelaria, com um auditório e outros serviços complementares, está pendente a aprovação pela Câmara Municipal de Ourém da instalação de uma nova unidade hospitalar na cidade. Além dos serviços prestados à comunidade, a unidade irá representar “um investimento entre €16 milhões e €20 milhões e dará lugar a 400 postos de trabalho”, explica o presidente da ACISO — Associação Empresarial de Ourém-Fátima, Domingos Neves. Mas o projeto tem, ainda, outra visão: associar o turismo religioso ao de saúde. Além dos locais destinados a consultas, internamento e intervenções cirúrgicas, haverá “70 quartos de hotel-hospital”. “Não podemos negar a associação entre o poder médico e o divino”, remata o empresário.