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O outro estatuto de trabalhador-estudante

Esta sexta, sábado e domingo os júnior empresários da Europa juntam-se para apontar boas práticas e discutir o futuro do Movimento Júnior e das júnior empresas na Europa e no mundo

Luis Barra

São estudantes universitários de todo o mundo, que estudam e trabalham, não fora mas de dentro para fora das universidades. Querem ganhar competências empreendedoras e diminuir o fosso entre formação académica e mercado de trabalho. A partir desta sexta-feira e durante o fim de semana, estão reunidos na Universidade de Lisboa para apontar boas práticas e definir o futuro do Movimento Júnior. Descubra o que andam a fazer

Maria João Bourbon

Maria João Bourbon

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

O que fazem oito dezenas de estudantes de 14 países europeus durante um fim de semana na Universidade de Lisboa? Estão reunidos na JADE May Conference para discutir as melhores práticas, participar em formações e definir o futuro do Movimento Júnior em Portugal e na Europa.

Constituído por júnior empresas (associações sem fins lucrativos, sediadas em polos universitários), o movimento integra estudantes que querem colocar em prática as competências adquiridas ao logo da formação académica e ter uma experiência mais próxima do mercado de trabalho. Juntos, constituem uma forma alternativa de trabalhador-estudante.

O movimento não é novo (surgiu há 50 anos em França, com o objetivo de estimular o espírito empreendedor dos estudantes universitários e diminuir o fosso entre as universidades e as empresas), mas quer agora ganhar um novo fôlego. “Há vários desafios a discutir”, adianta Diogo Parreira, presidente da JADE Portugal, uma das 14 confederações presentes no evento. “Um deles é o grande gap entre os países, o que torna necessário definir um conjunto de boas práticas.” Existem vários níveis de desenvolvimento entre os países, como se pode ver, por exemplo, olhando para o volume de negócios movimentado. Em Portugal este valor ronda os 115 mil euros, um número bastante distante da realidade francesa; em França, só a Junior ESSEC Conseil, a primeira do mundo, teve uma faturação em 2016 de 1,6 milhões de euros.

Outro dos desafios é a expansão. “Só estamos em 14 países europeus e há potencial para chegarmos a mais.” No mundo, estão em mais de 28 países (com forte presença na Europa, no Brasil e no Canadá), contando com mais de 40 mil júnior empresários. Em Portugal são menos, mas o movimento só chegou há 27 anos: existem 14 júnior empresas e 570 júnior empresários, distribuídos por seis cidades (Aveiro, Braga, Coimbra, Lisboa, Porto e Vila Real). “Em número de júnior empresas estamos em 4.º lugar na Europa, atrás da França (180), da Alemanha (mais de 30) e Espanha (mais de 20).”

Diogo Parreira, presidente da JADE Portugal

Diogo Parreira, presidente da JADE Portugal

Luis Barra

“Se poderíamos ter crescido mais? Sim. Mas nos últimos anos estivemos mais focados na qualidade e criação de competências, não na expansão”, sublinha Diogo Parreira. “Agora devemos fazê-lo”, acrescenta, sublinhando já existem 20 júnior iniciativas no país que podem vir a transformar-se em empresas. “Até 2022, queremos duplicar o movimento em Portugal.”

Mas sempre de olhos postos nas boas práticas. E é por isso, para sinalizar as empresas que se destacam pelos projetos desenvolvidos ou crescimento, que atribuem anualmente prémios para as melhores empresas. Este ano foram três.

JUNITEC, a mais socialmente responsável

Há ideias que nascem de necessidades. Foi o caso dos Bolsos Térmicos Amovíveis (BTA), que nasceram para dar resposta às dificuldades de Diogo Lopes, estudante de piano e portador da doença degenerativa Charcot-Marie-Tooth.

A doença, que lhe provoca o arrefecimento das mãos, dificulta a destreza do jovem ao piano. E foi como resposta a esta necessidade que a júnior empresa do Instituto Superior Técnico (JUNITEC) criou, em parceria com a Patient Innovation (plataforma desenvolvida por alunos da Universidade Católica), os BTA, um dispositivo eletrónico portátil de aquecimento, cuja temperatura pode ser ajustada pelo utilizador. “São duas mantas que aquecem e podem ser incorporadas nos bolsos do casaco”, explica o presidente da JUNITEC, Miguel Vasconcelos. O protótipo, entregue a Diogo, deu origem a outros quatro, enviados para o London Science Museum e integrados na exposição europeia 'Boyond the Lab'.

O projeto já valeu à empresa os prémios de prémios de Projeto Inovador do Ano (prémios JeniAL 2015) e a menção honrosa “Boas Práticas Associativismo Jovem” 2016, pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e atualmente encontra-se agora em fase de estudo para comercialização.

A JUNITEC ganhou ainda, este ano, o prémio de “Empresa Mais Socialmente Responsável”, com o projeto pro bono de adaptação de brinquedos para pessoas portadoras de deficiência da Casa dos Marcos, na Moita. Com uma função lúdica e terapêutica, o brinquedo é controlado à distância por um botão grande e adaptado para crianças com necessidades especiais. A empresa criou uma máquina de fazer bolas de sabão, mas o botão pode também ser adaptado a outros brinquedos, explica o presidente da primeira júnior empresa portuguesa, criada em 1990 por três ou quatro fundadores.

Atualmente com 60 estudantes universitários, a JUNITEC atua essencialmente na área da consultoria tecnológica e desenvolvimento de serviços, nomeadamente ao nível das plataformas informáticas (bases de dados, aplicações, entre outras), para clientes como a EDP, a Microsoft, a Lispolis, entre outros. Além disso, foi criada com um objetivo de incubação, apoiando e testando ideias empreendedoras. “Ao longo destes anos, a JUNITEC já ajudou a criar seis empresas”, diz o estudante de 24 anos do curso de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, dando o exemplo da Uniarea e da CEiiA.

Lisbon PH, a empresa do ano com o melhor projeto

No Dia Europeu do Melanoma, no ano passado, 100 farmácias foram palco de uma ação de sensibilização para o cancro de pele. Criada pela júnior empresa da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa para a marca La Roche-Posay, da L'Oréal, a ação “Save Your Skin” sensibilizava assim as pessoas para os riscos do melanoma, o tipo de cancro de pele mais grave e que afeta, anualmente, 10 mil pessoas em Portugal. E incentivava-as a verificarem os sinais da pele, informando-as das boas práticas da exposição solar.

O projeto, que contou ainda com formações sobre o tema aos estudantes da faculdade, valeu à Lisbon PH o prémio de “Melhor Projeto” nos JeniAL Awards 2017. Envolveu 300 estudantes, atingiu um milhão de pessoas e mobilizou um volume de negócios de 13 mil euros.

Além deste, a Lisbon PH recebeu ainda o prémio de “Júnior Empresa do Ano” em Portugal, por ter sido aquela que apresentou um maior desenvolvimento global. “Cerca de 40 pessoas trabalham na Lisbon PH, todas estudantes de mestrado integrado de Ciências Farmacêuticas”, conta a presidente da empresa, Elisa Reis. “Em três anos, desenvolvemos mais de 60 projetos com 30 clientes.” L'Oréal, Ordem dos Farmacêuticos e Glintt são alguns deles.

Organização de eventos científicos, como conferências e simpósios, apoio logístico e formações e-learning para profissionais de saúde são as principais apostas de negócio da Lisbon PH, a única júnior empresa na área da saúde em Portugal (e uma das três que existem na Europa). Atualmente, é a organizadora do JADE May Conference, a decorrer este fim de semana na Universidade de Lisboa. “E temos também um programa de aceleração de ideias destinado aos estudantes da faculdade”, adianta a jovem de 23 anos.

O Movimento Júnior tem dado os seus frutos, acredita Elisa Reis, dando o exemplo de André Magalhães. O antigo membro da JADE Europa é atualmente vereador da Câmara Municipal de Amarante, “onde desenvolveu um programa de incubação ao nível da indústria”.

JuniFEUP, a mais promissora

Não são conferências, nem bancas, nem apresentações institucionais. Não são reuniões formais de fato e gravata. É uma sessão descontraída de cocktais para promover as relações profissionais entre os estudantes universitários e líderes de grandes empresas. Foi esta a ideia lançada pela JuniFEUP, depois de perceber que a forma como estavam organizadas algumas feiras de emprego inibia alguns alunos de interagir mais com as empresas.

Foi por isso que criaram o “Another Day At The Office”, um evento de networking entre o mundo do trabalho e o ambiente académico, que já vai na 2ª edição. “Decidimos criar um ambiente mais descontraído, onde os estudantes se sentissem bem e interagissem mais com as empresas”, conta o presidente da júnior empresa da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Luís Cagigal. “E assim conseguimos aliar descontração e empregabilidade.”

Este é um dos projetos destacados pela JuniFEUP, júnior empresa criada em 2001 e uma das fundadoras da JADE Portugal. Desde a sua origem, já desenvolveu 847 projetos para 350 clientes, entre os quais as Big Four da consultoria, a Sonae e a Jerónimo Martins. Aposta o seu negócio no desenvolvimento de projetos de consultoria IT, apoio e desenvolvimento do produto, gestão de produção e internacionalização. E está a desenvolver, entre outros, a aplicação e base de dados da Fobado, empresa de entrega de comida ao domicílio.

Com um crescimento de 720% em 2016, foi considerada a júnior empresa mais promissora em Portugal pelos JeniAL Awards 2017, tendo sido selecionada pela JADE Portugal, Uniplaces e Bosch. “No ano passado, a nossa faturação foi de cerca de 30 mil euros, mas o prémio foi atribuído com base no nosso crescimento”, explica o estudante de 21 anos do mestado integrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da FEUP.