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Petrolíferas impacientes com Angola

Algumas das maiores empresas petrolíferas admitem abandonar atividade em Angola

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A situação crítica que atravessa a indústria petrolífera angolana está também a afetar as empresas de prestação de serviço. Multinacionais do sector como a Schullemberger e a Halliburton já admitem despedimentos

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

A Chevron e a Exxon, duas das maiores companhias petrolíferas do mundo, ponderam reequacionar a sua estratégia de permanência no mercado angolano se não forem introduzidos, a título temporário, incentivos à sua atividade, soube o Expresso junto de uma fonte do Ministério angolano dos Petróleos.

O elevado custo de produção do barril do petróleo agravado com uma prolongada baixa do preço no mercado internacional, poderá estar, segundo alguns analistas, na origem desta reivindicação.

A Chevron, que opera no bloco 0 e 14 em Cabinda, responsável por 22% de toda a produção petrolífera do país; este ano, pela primeira vez na sua história, opera em Angola sem orçamento.

“Estamos à espera do aval da Sonangol, que há nove meses que não aprova as nossas propostas” — disse ao Expresso um responsável da petrolífera norte-americana detentora de uma participação de 39,2% no bloco 0.

A empresa liderada por Isabel dos Santos, a derrapar com graves problemas de tesouraria, segundo alguns especialistas, já não consegue esconder a sua incapacidade financeira para acompanhar o ritmo de investimentos propostos também pela Total (10%) e pela Eni (9,8%).

“Esta é a razão principal por que pretende agora que a Chevron reduza em 40% o orçamento deste ano” — disse ao Expresso um perito em questões petrolíferas.

Perante esta exigência, a Chevron, que lidera um bloco responsável pela produção de 400 mil barris/dia e onde a Sonangol detém 41% de participação, põe em causa a viabilidade técnica e operacional de um corte daquela magnitude.

A petrolífera norte-americana terá proposto um pagamento diferido, mas a Sonangol não parece agora disposta a abrir mão das suas exigências.

Braço de ferro leva 
Chevron a preparar saída

Perante este braço de ferro, faltando treze anos para o termo do contrato naquele bloco, a Chevron admite vir a preparar uma estratégia de saída.

“Ficando apenas com os ossos, os principais alvos de inevitáveis despedimentos que se seguirão acabarão por vir a ser os trabalhadores angolanos” — adverte um antigo quadro angolano da Total, hoje na reforma.

A Chevron não é, no entanto, a única empresa a manifestar o seu descontentamento face ao enviesamento da Sonangol na tomada de decisões que, arrastando-se há meses, estão a comprometer a solidez do edifício petrolífero de Angola.

“Não se decide nada porque tudo está concentrado em Isabel dos Santos, mas não se gere a indústria petrolífera como se lida com uma empresa de telecomunicações” — desabafou um alto responsável da Sonagás, subsidiária da Sonangol, que pediu anonimato.

A Exxon, outra companhia norte-americana que opera no bloco 15 responsável pela produção de 300 mil barris/ dia, manifesta-se agora também impaciente perante a falta de resposta da Sonangol ao projeto de perfuração de 40 a 60 novos poços petrolíferos em águas profundas.

Esta companhia, que mantém uma parceria com a Total no bloco 17 produtor de 600 mil barris/ dia, enviou uma proposta à Sonangol para lançar um ITT — Intent To Tender — mas o silêncio da petrolífera angolana poderá levar a Exxon a cancelar o concurso.

As dores de cabeça para as petrolíferas estrangeiras que operam em Angola não ficam, no entanto, por aqui.

A BP, operadora britânica a explorar o bloco 18, projeta igualmente desenvolver novas descobertas num investimento avaliado em mais de 800 milhões de dólares mas, depois de quatro meses sem ter obtido qualquer resposta da Sonangol, acabou por retirar a proposta do plano de investimentos deste ano.

“E se dificilmente será introduzido no orçamento do próximo ano, Angola tem de perceber que há outros mercados mais atrativos” — disse ao Expresso José Oliveira, consultor da área petrolífera.

“A redução dos investimentos vai gerar uma brutal baixa da produção e, com isso, a principal fonte de receitas para o Estado vai cair ainda mais a pique” — adverte um alto funcionário do Ministério das Finanças.

A situação crítica que atravessa a indústria petrolífera angolana está também a afetar as empresas de prestação de serviço.

Multinacionais deste sector como a Schullemberger, Halliburton ou Becker, perante uma redução significativa de sondas de perfuração, não estão a ter agora outra alternativa senão proceder ao despedimento também de muitos expatriados portugueses.